Vinicius dos Santos e a onda de 97 pés

Por Alexandre Versiani

Vinicius dos Santo em ação na bomba estimada em 97 pés. Foto: Mike Jones / azhiaziam.com.

A CADA TEMPORADA de inverno no Hemisfério Norte, big riders de todos os cantos desembarcam em Portugal em busca das famosas tempestades do “Canhão de Nazaré”, como é conhecido o fenômeno que proporciona séries gigantes na Praia do Norte, uma pacata vila de pescadores localizada ao norte de Lisboa.

No dia 25 de fevereiro, o maior swell deste ano atingiu em cheio o pico, e um brasileiro consagrou-se como o herói da sessão: Vinicius dos Santos, que dropou uma montanha líquida estimada em 97 pés, ou 29,68 metros (o equivalente a um prédio de dez andares), e com isso pode ter alcançado o recorde mundial de maior onda já surfada da história.

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Nascido em 1990 no litoral sul de Santa Catarina, Vinicius começou a surfar incentivado pelo pai, Elói Figueiredo, um dos principais tube riders da região. Lapidado nas ondas pesadas da praia da Vila, em Imbituba, ele se mudou para Florianópolis e trabalhou como salva-vidas por quase uma década na Praia da Joaquina antes de viver exclusivamente do surf. Especialista em dropar ondas grandes na remada, sem o auxílio do jet-ski, ele já encarou mares insanos em Jaws, Mavericks e Laje da Jagua, e fez a fama como um dos big riders mais corajosos e atirados do Brasil.

Em Nazaré, grande palco do surf mundial atualmente, essa foi apenas a sua quarta temporada. Nas investidas anteriores, todas sem patrocínio, ele literalmente precisou remar da praia para conquistar seu espaço com humildade no pico. Sem o suporte ideal de uma equipe de segurança, Vinicius perdeu as contas de quantas vezes se machucou no local.

“Uma vez, a onda quebrou na minha cabeça, me prendi em minha roupa de borracha e fiquei sufocado. Quando consegui sair, vi minha prancha quebrada ao meio; estava à deriva. Outra vez, a prancha voou em direção à minha cabeça e tomei 27 pontos”, relata o surfista, que também teve uma orelha rasgada durante uma sessão no pico lusitano.

Pouco antes de encarar a sessão histórica, Vini foi diagnosticado com estresse pós-traumático por causa dos tantos perrengues que sofreu em Nazaré. “Três dias antes do dia em que estava previsto quebrar as maiores ondas dos últimos anos em Nazaré, tirei os pontos da cabeça só para conseguir competir em um campeonato de ondas grandes na remada, no País Basco. Ali cheguei até a semifinal, algo muito positivo, pois esse desempenho me ajudou a recuperar a confiança após tantas situações adversas pelas quais eu passei”, relembra.

Vini vem de uma tradicional família de surfistas do litoral sul catarinense. Foto: Arquivo Pessoal.

O HOMEM DE NAZARÉ

No dia 25 de fevereiro deste ano, as previsões se confirmaram e Nazaré despertou com séries acima de 30 metros. Vini se preparou para a missão da vida dele, ao lado do pau- lista Alemão de Maresias, especialista em segurança aquática no local. Pouco antes de desafiar as morras, ele recebeu a notícia de que teria a companhia do também brasileiro Lucas Chumbo, um dos maiores nomes do big surf mundial na atualidade. Ambos se revezariam no jet-ski em busca das bombas.

Entre os surfistas que também formaram o time, ainda estavam big riders experientes como Andrew Cotton, Nic Von Rupp, Michaela Fregonese e André Santos, que ficou responsável por dar as coordenadas via rádio aos surfistas. “Na noite anterior, combinamos que iríamos formar o time às 8h15 da manhã, no porto de abrigo de Nazaré. Tudo sucedeu conforme o previsto. Nós nos reunimos todos já no mar, ficamos de mãos dadas, cada equipe em seu jet-ski, rezamos e assim seguimos em direção ao outside para surfar as maiores ondas de nossas vidas”, descreve Vinicius.

Nesse dia, as direitas estavam predominando e lambendo perigosamente as rochas que cercam o penhasco localizado sob o Forte de São Miguel do Arcanjo, cartão-postal do município de Nazaré. Por volta das 9h40, quando a maré estava alta e o swell com a energia máxima, Lucas e Vinicius foram avisados por André que havia uma onda mutante no horizonte. Como era a vez de Lucas pilotar o jet-ski, aquela era a chance pela qual Vini esperou a vida inteira.

“O que me lembro dessa onda é que eu estava sendo puxado da direita para a esquerda, em direção ao Farol. Quando entrei na onda, tive pouco tempo para puxar para dentro da parte mais crítica, precisei me adiantar na linha, pois havia uma grande lombada no caminho. Quando passei pela lombada, eu voei pelo menos uns três metros e aterrizei na onda – foi um alívio não cair”, narra o catarinense.

“Lembro-me de tentar ir um pouco mais para a parte crítica da onda, mas tive que aceitar a linha que eu estava fazendo, pois havia uma avalanche vindo em minha direção. Quando terminei a onda sem que a espuma me pegasse, percebi que eu já estava do outro lado do Farol. Os meus companheiros de equipe vieram todos me cumprimentar pelo feito. Andrew Cotton, que era o mais veterano, falou que a onda tinha sido mesmo gigante. E era um consenso de que havia sido, no mínimo, a maior de todas naquela manhã.”

Big rider possui relação especial com a onda de Nazaré e perdeu a conta de quantas vezes já se machucou no pico. Foto: Arquivo Pessoal.
À espera de um possível recorde, Vinicius ressalta que sua maior alegria foi pegar a onda da vida. Foto: Arquivo Pessoal.

EM BUSCA DO RECORDE

Os cálculos da montanha líquida agora serão submetidos a avaliações do Guinness Book e da World Surf League (WSL) para que seja ou não homologada como recorde mundial. No último dia 24 de maio, o Livro dos Recordes concedeu ao alemão Sebastian Steudtner o feito de maior onda já surfada da história. Ele recebeu a placa oficial em um evento realizado em Nazaré pela onda de 26,21 metros que surfou no dia 29 de outubro de 2020. O antigo recorde pertencia ao brasileiro Rodrigo Koxa, que em 2017 pegou uma onda de 24,38 metros.

Especialista em medir essas avalanches aquáticas, o oceanógrafo Douglas Nemes calcula que a onda de Vinicius dos Santos é pelo menos três metros maior do que a de Sebastian, mas o big rider brasileiro espera com cautela uma possível homologação. “A minha onda tem grande potencial para um novo recorde, pelo menos é o que diz a ciência. Mas outras também foram surfadas nesse dia e nessa temporada. Creio que até outubro já teremos alguma posição do Guinness. Estou aguardando ao lado do Douglas, que é Ph.D no assunto, uma validação junto à comunidade científica. Eu me sinto como um acadêmico defendendo minha tese de doutorado”, brinca Vini.

“Em relação à WSL, aprendi durante esse processo e por ter vivido um Big Wave Awards no ano passado, que ela é uma empresa privada que atende os interesses de outras empresas. Então não pretendo aguardar a posição deles, vou fazer algo similar ao que a Maya [Gabeira] fez”, destaca o surfista, lembrando que, na categoria feminina, a big rider carioca – atual recordista mundial com uma onda de 22,4 metros – insistiu que a medição da onda fosse feita por uma comissão independente de cientistas, e não pela WSL.

Mesmo à espera do recorde, Vinicius ressalta que sua maior alegria foi mesmo pegar a onda da vida em Nazaré, que dificilmente sairá da sua cabeça tão cedo. “Quando o Lucas me colocou na onda, foi um sentimento de muita liberdade e presença de espírito. Nada mais importava a não ser não fracassar diante do obstáculo que havia no caminho e não deixar a onda me engolir. Eu sentia os meus instintos muito aflorados, mas, além de contemplar, eu tinha que sobreviver. Era o momento para o qual eu havia me preparado a minha vida toda. E o Farol estava cheio de pessoas me assistindo, parecia um estádio de futebol. Eu nunca me senti tão vivo”, finaliza o brasileiro.

Matéria originalmente publicada na revista Go Outside 174

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