Bota de Günther Messner é encontrada 52 anos depois de tragédia no Nanga Parbat

Por Redação

Günther Messner participou de expedição pioneira ao Nanga Parbat, mas desapareceu na montanha. Foto: Reprodução / Instagram.

Uma bota de couro encontrada em meio aos pedregulhos do Nanga Parbat na última semana pertence ao lendário alpinista tirolês Günther Messner, que desapareceu em junho de 1970 em uma ousada expedição à montanha que faz parte da porção ocidental do Himalaia, no Paquistão.

Günther é o irmão mais novo de Reinhold Messner, considerado o maior montanhista de todos os tempos – o primeiro a escalar os 14 picos mundiais acima da marca dos 8.000 metros sem tanques de oxigênio. Reinhold também participava da expedição de 52 anos atrás e nunca recuperou-se da trágica morte do irmão.

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“Na semana passada, o segundo sapato do meu irmão Günther foi encontrado pela população local no sopé da geleira Diamir. Após 52 anos. A tragédia de Nanga Parbat permanece, assim como Günther para sempre”, escreveu Reinhold ao compartilhar a foto da bota nas redes sociais nesta quinta-feira (9).

O acidente

Günther, de 24 anos, sumiu em junho de 1970, quando ele e Reinhold — na época com 25 anos — fizeram uma pioneira escalada no flanco sul do pico pela face Rupal, de 4.499 metros de altura, um dos maiores paredões alpinos do planeta.

O feito foi um estrondoso sucesso para os dois jovens alpinistas em sua primeira expedição ao Himalaia, mas somente Reinhold sobreviveu para contar a história.

Conforme ele descreveu depois, Günther sentiu-se mal por causa da altitude após terem galgado o topo, em 27 de junho, e estava fraco demais para voltar pela íngreme rota por onde haviam subido, principalmente porque não tinham cordas.

A dupla descansou em um acampamento em temperaturas abaixo de zero e no dia seguinte, num episódio muito discutido, Reinhold gritou para outros alpinistas ao longe, mas não quis ou não conseguiu falar das dificuldades de Günther.

Os irmãos então decidiram que a única chance de sobreviverem era tentar descer pela face Diamir, desconhecida para eles, mas menos íngreme. Se tivessem sucesso, realizariam outro feito no processo: a primeira travessia completa do Nanga Parbat.

Segundo Reinhold, próximo ao fim da descida, ele se adiantou cerca de uma hora à frente de seu irmão, acreditando que o pior já havia ficado para trás. Então, fora de sua visão — em uma área próxima do sopé da face Diamir — Günther desapareceu no que Reinhold supôs ter sido uma avalanche.

Ele não conseguiu achar qualquer pista de Günther. Tomado pelo pesar, Reinhold vagou em choque pelos dois dias seguintes antes de finalmente conseguir chegar ao vale Diamir.

Mapa da tragédia na porção ocidental do Himalaia. Foto: Reprodução.

Após a tragédia, os danos ao corpo e à alma de Reinhold foram imensos. Ele perdeu sete dedos do pé e a ponta de vários dedos da mão por causa do frio. Pior ainda, ele havia perdido seu irmão e o parceiro de escalada a quem certa vez se referiu como seu “cúmplice” na vida.

Em julho de 2005, três guias paquistaneses encontraram um esqueleto a cerca de 4.300 metros de altitude, uma hora de escalada acima do acampamento-base em Diamir, próximo ao local em que Reinhold acreditava que Günther estaria.

Sem perder tempo, os guias fotografaram os ossos, a bota e as roupas, e transmitiram a novidade para Reinhold. Em poucos dias a informação chegou até ele. Após ver a foto, ele disse que tinha poucas dúvidas: a bota e a jaqueta pareciam com as de Günther.

Quando isso aconteceu, Reinhold já estava planejando voltar a Nanga Parbat em agosto, para liderar um grupo de trekkers ao redor do maciço de montanhas e visitar uma escola em uma vila que ele estava ajudando a construir. Um repórter free-lancer alemão e um fotógrafo foram convidados a acompanhá-lo.

Em 29 de agosto de 2005, com seus 14 trekkers e os dois jornalistas ao seu lado, Reinhold chegou ao local onde estavam os restos mortais. “Es ist mein bruder!”, declarou emocionado. Uma bota de couro marrom do tipo Lowa Triple (o nome vem do forro duplo no interior de uma capa grossa), equipamento padrão da excursão de 1970, era a confirmação.

E, ainda por cima, havia um detalhe particular: um laço de corda próximo do topo, usado para prender os crampons (aparelho de metal com grandes cravos, para ser acoplado à bota numa escalada em gelo ou neve), combinava com o jeito que Reinhold havia preparado suas botas.

No dia seguinte, o médico do grupo de trekkers, um anestesista de Munique chamado Rudolf Hipp, colheu amostras de tecido para o teste de DNA que Reinhold planejava fazer na Europa. A bota e os ossos do pé foram recolhidos para que Messner os levasse para casa. Então, valendo-se da ousadia que o ajudou a ser a primeira pessoa a escalar os 14 picos acima da marca dos 8.000 metros que existem no mundo — um feito que ele realizou sem tanques de oxigênio — Reinhold tomou uma decisão: cremou os demais restos no acampamento-base da expedição.

Fosse aquele corpo realmente de Günther ou de outra pessoa, a maior parte dele agora já não mais existia. Ele então lançou as cinzas de Günther na montanha.

“Quando segurei em minhas mãos os restos mortais do meu irmão, tive uma sensação muito forte, como se fosse a dor fantasma de um amputado”, disse na ocasião. “Agora tenho provas. Essa história está esclarecida e acabada”.

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