Felipe Ho: expandindo os horizontes da escalada

Por Verônica Mambrini

Para conciliar os campeonatos com escalada em rocha, as saídas para escalar são em períodos bem definidos, para evitar lesões e quedas. Foto: William Praniski.

Há quatro anos, Felipe Ho estava “fritando” com muitas dúvidas: resultados acima da média traziam cada vez mais destaque ao seu nome como uma promessa da escalada brasileira. Mas, cursando o primeiro ano da Faculdade de Odontologia na Universidade de São Paulo, ele mal dormia pensando em como conciliar as aulas com as temporadas de training trips – as viagens de treinamento – fundamentais para seu desenvolvimento como atleta. Chegou a passar pela sua cabeça a ideia de não competir mais.

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Na entrevista que concedeu para a Go Outside, ao falar dos seus planos para um futuro próximo, a voz se torna vibrante: “Vou trancar um semestre este ano, talvez dois, para treinar fora do país e competir”.

Os resultados dos últimos anos trouxeram a clareza que Felipe precisava para ter paz. Em 2021 ele foi homenageado novamente no Prêmio Brasil Olímpico – a primeira vez foi em 2017. Treze vezes campeão brasileiro, atualmente ocupa o 1o lugar geral do ranking nacional. É também o mais jovem escalador do Brasil a realizar ascensões de boulder graduados entre V10 e V14. Mas entre os feitos preferidos está o resultado no Campeonato Mundial em Moscou: Felipe Ho conquistou a melhor marca de um sul-americano na escalada guiada masculina, um 54o lugar.

“Quando você trabalha ou vive de escalada, quer ter um resultado que mostre que você está no caminho certo”, conta. Ele sempre treinou para todas as modalidades – boulder, velocidade e dificuldade –, tendo em vista principalmente a disputa por uma eventual vaga nos Jogos Olímpicos de Tóquio, quando os atletas disputavam e somavam pontos nas três disciplinas. “Para esse campeonato mundial de Moscou, eu me dei ao luxo de dispensar as outras duas modalidades e treinar para a escalada de dificuldade – e foi um dos melhores resultados da minha vida.”

O período pré-olímpico foi intenso para ele, com treinos em praticamente os sete dias da semana, divididos entre escalada, funcional e fisioterapia. Para dar conta da rotina, muitas vezes o treino acontecia em duas sessões, uma de manhã e outra à tarde, para atingir a melhor qualidade possível em cada uma. “A recuperação muscular é ok, o problema é a pele dos dedos. Você pode não estar cansado mental ou fisicamente, mas não consegue mais escalar por causa da dor nos dedos; a pele fica totalmente esfolada”, conta Felipe. As agarras são abrasivas, e determinados treinos são particularmente desgastantes para a pele, como os de velocidade.

Além disso, detalhes como o corte das unhas fazem toda a diferença: não podem estar muito grandes nem recém-cortadas. “Quando eu esquecia de cortar as unhas no dia certo, era um horror. Elas quebram da pior forma possível e fica insuportável escalar”, conta Felipe. No geral, o intervalo perfeito para o escalador é dois dias de escalada seguidos e um de descanso das agarras, onde ele deixa a pele se recuperar e faz algum outro tipo de treino, como preparação física.

“Quando não estou lesionado, a fisioterapia é preventiva, voltada para a musculatura estabilizadora”, explica. Passada essa janela das Olimpíadas, ele focou o treino na escalada de dificuldade. E o resultado veio na forma da ótima colocação em Moscou.

Ho em Ubatuba no último dia de 2020: o atleta usa os projetos na rocha para ampliar o repertório. Foto: Arquivo Pessoal.

Agora, na melhor forma física da sua vida, Felipe está de olho nos próximos passos. Nos testes que realizou no Núcleo de Alto Rendimento Esportivo de São Paulo, os números do escalador em categorias como força de puxada são compatíveis aos de outros atletas da elite mundial. Para reproduzir esse mesmo rendimento na parede, ele e seu treinador, Arthur Gaspari – que é o analista de desempenho da seleção brasileira de escalada – têm um plano. “Ele vai conquistar grandes ganhos sendo exposto a outros ambientes, outras estruturas, para alcançar um desempenho técnico-tático que ele não consegue mais ter aqui”, conta Arthur.

Felipe deve viajar para treinar. A ideia é passar um mês e meio na Eslovênia, sendo acompanhado pelo técnico Roman Krajnik, ao lado de atletas da seleção eslovena – uma das mais fortes do mundo, da qual faz parte a dona do ouro olímpico feminino Janja Garnbret – e competir na Alemanha. Outra etapa da viagem deve ser Salt Lake City, nos Estados Unidos, competindo e treinando com a seleção dos EUA. Depois, treinos em Innsbruck – onde está um dos melhores ginásios para treino do mundo – na Áustria, até o meio de julho, participando das últimas três etapas da Copa do Mundo da França.

As viagens são fundamentais para o treinamento de Felipe. “Hoje a maior limitação de treino com a qual eu tenho que lidar é a dificuldade em ser exposto diariamente a desafios novos. Um campeonato de boulder é isto: um problema que eu nunca vi, com agarras que eu nunca vi, e tenho cinco minutos para interpretar e pontuar da melhor maneira possível”, explica. No Brasil, há uma certa defasagem em centros de treinamento que reproduzem as condições de provas internacionais, com o tipo de agarra que se usa em competições, além de uma alta rotação nas vias montadas para ampliar o repertório de escalada dos atletas. “Isso é o que faz um escalador de competição melhorar”, reflete Felipe.

Na falta desse tipo de estrutura no Brasil, um dos grandes estímulos do escalador para o treinamento e a evolução é ir para a natureza. “Rocha e competições se complementam para mim. Treinamos em ginásios destinados ao público geral. Não há lugares onde o atleta de escalada consiga se provocar a ponto de desenvolver habilidades que serão necessárias nos campeonatos de nível mundial”, reflete.

“Antes se preconizava que não era possível se sair bem em competições e na rocha simultaneamente, que quem fazia isso estava sem foco. Eu acho que é justa- mente o oposto”, defende ele. No caso de Felipe, nada mais verdadeiro: os projetos na rocha andam em paralelo aos bons resultados nas competições. Se puder colocar em prática tudo o que tem planejado, Felipe não só vai continuar coroando seus méritos na escalada brasileira, como vai ajudar a moldar o próximo nível da escalada de competição no Brasil.

DICAS DO ESPECIALISTA

O analista de desempenho da seleção brasileira de escalada, Arthur Gaspari, começou a trabalhar com Felipe Ho em 2018. “Nessa época, Felipe montava, ele mesmo, os seus treinos, o que é muito comum na escalada”, lembra o treinador. Essa autonomia segue até hoje: as decisões, estratégias e métodos de treino são bastante discutidas entre os dois.

“Ele tem bons argumentos”, elogia Arthur, que é doutor em educação física pela Universidade Estadual de Campinas. As variáveis de treinamento são as mesmas para um atleta amador ou profissional: volume, intensidade, variabilidade, frequência. “O que muda para um atleta de elite é o quão extremo e comprometido ele é com a rotina de treinamento. Felipe está 100% dedicado”, conta. Veja alguns conselhos de Arthur Gaspari que podem ajudar a dar uma turbinada na sua escalada:

PLANEJE-SE

O planejamento do atleta de elite tem uma alta influência nos treinos. Se você é o tipo que sempre vai ao ginásio para relaxar e curtir, decidindo na hora o que fazer, vai ter mais benefícios se definir um objetivo e estruturar um treino para isso.

BUSQUE MAIS DE UMA FONTE PARA ORIENTAR SEUS TREINOS

Atletas profissionais têm equipe de suporte, fundamental para dar conta das exigências do alto rendimento. “Não existe hoje no esporte profissional um atleta que não esteja acompanhado por pelo menos um treinador, um preparador físico, um fisioterapeuta, um psicólogo”, explica. Ok, você não precisa de um time de apoio completo, mas busque ajuda quando encontrar fatores limitantes na sua evolução.

ESCOLHA UM OBJETIVO POR VEZ

“Para alguém que não está totalmente dedicado ao esporte, é extremamente complexo trabalhar múltiplos objetivos ao mesmo tempo”, diz Arthur. O que você pode fazer é usar as possibilidades da escalada com inteligência: se você tem um projeto em via, por exemplo, pode usar o boulder para desenvolver força, potência e o gesto esportivo.

ADMINISTRE OS RISCOS

Se seu objetivo é competição, a rocha talvez não seja a melhor opção nas últimas semanas de preparação, porque é um ambiente de maior risco. Mas no caso de amadores focados em rocha a óptica muda um pouco. “Quando você chegar perto da viagem ou do projeto que tem em mente, sua frequência na rocha deve aumentar, procurando reproduzir o estilo do seu objetivo”, recomenda o treinador.

CONSTRUA UMA BASE AMPLA

Para Arthur, um atleta que se prepara bem para a escalada de competição pode desempenhar igualmente bem em rocha, porque vai estar com um alto nível de condicionamento, de técnica e tática. “Mas o contrário não parece ser verdade: um escalador com ótima performance em rocha não necessariamente transfere isso para a competição”, acredita. Então seu foco principal deve ser a base dos seus treinos.

Trecho retirado da matéria “Um treino para chamar de seu”, originalmente publicada na revista Go Outside 172.

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