Deficiência física e aventuras épicas podem, sim, ser compatíveis

Por Christian McMahon

Deficiência física aventuras
Christian McMahon (à esq.) e seus companheiros de viagem nas margens do rio Whanganui, na Nova Zelândia. Foto: Arquivo Pessoal.

EM 2012, concluí duas das Dez Grandes Caminhadas da Nova Zelândia: a versão de 87 km da Whanganui Journey e a trilha da costa de Abel Tasman de 60 km. Eu tinha 33 anos na época e estava na melhor forma da minha vida, o que significava que conseguiria, talvez, percorrer 1,5 km em uma superfície extremamente plana em um dia – contanto que fosse um dia de mínimo movimento possível, ou de hidromassagem, após cada dia de caminhada.

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Convivo com artrite reumatoide severa desde criança. Basicamente, meu sistema imunológico encara as cartilagens das minhas articulações como vírus perigosíssimos e as ataca ferozmente. Muitas das minhas articulações são travadas em ângulos esquisitos. Eu também não sou nada flexível. Posso caminhar distâncias curtas, mas é imprevisível quando vou me cansar. Ainda assim, fiz a Whanganui em três dias e a Abel Tasman em quatro – ambas dentro do prazo normal de conclusão. Como eu, um cavalheiro trans deficiente pequenino e fraco, consegui isso? Porque tive ajuda.

Tanto nos círculos de aventura quanto nos de deficiência, ajuda é apenas uma palavra. Somos ensinados a ser individualistas raiz. Eu costumava carregar mais peso nos ombros do que um explorador polar, para evitar qualquer necessidade de ajuda, certo de que pedi-la ou aceitá-la faria surgir na minha testa um letreiro de neon, piscando FARDO, FARDO. Também tinha certeza de que pedir ajuda envolveria o desaparecimento imediato da autonomia que construí ao longo da vida como uma pessoa que gosta de atividades ao ar livre em uma sociedade que vê os deficientes físicos como dignos de pena sem nada a oferecer.

Por anos o lema “eu consigo sozinho” foi meu grito de guerra. Embora essa atitude tenha sido libertadora de algumas maneiras – descobri que sou ótimo em viagens
solo –, ela me impediu de dizer sim a quaisquer planos que eu pensava que não conseguiria fazer sem ajuda. Da mesma forma, manteve as pessoas que eu mais amava longe.

A viagem para a Nova Zelândia ocorreu em um momento em que “eu consigo sozinho” me levou o mais longe possível. Atingi um platô solitário de independência. Eu sabia que confiar nas pessoas para testar meus limites seria minha próxima grande aventura. Dito isso, eu não esperava ir tão longe logo de cara.

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Lorraine, minha amiga de infância, estava passando um ano trabalhando na Ilha Norte da Nova Zelândia. Eu me convidei para me juntar a ela e seu marido, Kevin, por um mês. Mais de 30 anos de amizade deixam pouco espaço para se esconder, e Lorraine é conhecida por ser cheia de planos surpreendentemente ambiciosos e difíceis de se recusar. Apesar de sua reputação, passei a maior parte de nossa amizade declinando educada e firmemente seus convites – e depois sendo um ouvinte ávido das suas histórias de perrengues na natureza. As melhores histórias giravam em torno do tema ajuda, embora eu não tivesse percebido isso na época. Ficar presa à noite durante um rolê de esqui cross-country ou atolar o carro em um lamaçal no Alasca. Os finais felizes só eram alcançados quando as pessoas ajudavam umas às outras.

Planejando a viagem, eu tinha “não, obrigado” no fundo da minha garganta, pronto para disparar. Eu sabia que Lorraine iria querer encarar algo muito além do meu nível de habilidade. Ela sugeriu que fizéssemos duas grandes caminhadas. Isso foi tão absurdamente inapropriado que eu nem mesmo disse “não, obrigado” – apenas caí na gargalhada.

Minha amiga me garantiu que, apesar da classificação da Whanganui Journey como uma caminhada, na verdade é uma viagem de canoa. Expliquei que em um rio sou, na melhor das hipóteses, uma mala grande e tagarela, e que a Abel Tasman parecia ser uma caminhada de verdade – portanto não, simplesmente não (se você for deficiente, não canso de recomendar a honestidade direta e imediata a respeito da sua situação). Ela tinha respostas para tudo. Sugestões na ponta da língua. Eu disparei réplicas, refutações e até mesmo recusas mais firmes, que acabaram dando lugar a talvez minhas próprias sugestões e, finalmente, a algo produtivo: conversa e pesquisa.

O percurso de Abel Tasman era bem perto da costa e, com um pouco de planejamento, talvez fosse possível fazer uma versão acessível da viagem. Todas as manhãs, os táxis aquáticos viajavam do terminal mais ao sul para o extremo norte da trilha, levando os turistas a vários pontos que, por acaso, ficavam perto dos refúgios da trilha. À tarde, os barcos circulam de volta, para levar todos para casa.

No primeiro dia, peguei o táxi aquático perto de Kaiteriteri, onde Lorraine e Kevin começaram sua caminhada, e desembarquei em Anchorage Bay, para encontrar os dois naquela noite. Lá, os viajantes partiam para suas caminhadas e piqueniques, dei- xando só para mim praias calmas de água quente e bosques de árvores, enquanto meus amigos caminhavam para me encontrarem no refúgio seguinte. Compartilhamos o abrigo daquela noite, e na manhã do outro dia pulei na balsa, onde peguei uma carona até a próxima parada.

Durante aquela viagem, comecei a considerar a ajuda sob um novo ângulo. Além de usar a honestidade radical para obter o que eu precisava, fiz um balanço das formas como estava ajudando meus amigos. Lorraine e Kevin são guias certificados de rafting e, em geral, irritantemente competentes. Minha insegurança era intensa. Mesmo assim, sou um fotógrafo amador entusiasta, então documentei tudo sobre nossa excursão. Isso sem falar que minha fragilidade pode ter um efeito civilizador sobre amigos que, de outra forma, poderiam se chocar com Deus sabe o quê. Acalmar pessoas que só pensam em desastres pode ser extremamente útil. Não abandonei completamente o “não, obrigado”, mas com meus amigos me deixei ser empurrado.

Meus braços não dobram atrás das costas ou sobre a cabeça, então sempre que eu colocava uma jaqueta havia toda uma situação de dança que atraía uma multidão. Se alguém sem familiaridade com a mecânica particular do meu corpo tentasse ajudar, poderia me machucar. Saber quando dizer “não, obrigado” fez parte do processo de obter a ajuda de que precisava.

No rio, eu era aquela bagagem tagarela sobre a qual avisara Lorraine. Na costa, carreguei muito poucas provisões para o grupo. A vulnerabilidade necessária para fazer parte de uma viagem onde eu era claramente o mais fraco era aterrorizante. No entanto as memórias de dias passados flutuando rio abaixo ouvindo os pássaros, rindo e vivendo essas histórias com meus amigos nunca vão me deixar.

Ser útil não significa ter as mesmas habilidades dos outros ou contribuir em parcelas iguais. Em uma aventura, o que conta são as pessoas colaborando para fazer algo que não ousariam realizar por si sós. Enquanto Lorraine e Kevin me arrastavam para fora da minha zona de conforto, eu diminuí sua velocidade, arrastando-os para fora da deles. Depois que fui capaz de admitir que precisava de ajuda, compartilhamos uma experiência muito além do que eu ou eles poderíamos ter alcançado por conta própria.

Matéria originalmente publicada na revista Go Outside 169.

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