Crescimento pós-traumático: o que não mata realmente te fortalece?

Por Emily Sohn

crescimento pós-traumático
Foto: Shutterstock.

TRAUMA FOI uma coisa que, decididamente, não faltou nos últimos dois anos. Mas novos estudos vêm apontando várias maneiras para a gente se recuperar e até mesmo prosperar no caos.

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O chamado crescimento pós-traumático se refere a mudanças positivas que podem acontecer após um evento devastador, como explica o norte-americano Richard Tedeschi, psicólogo clínico da Boulder Crest Foundation, uma organização que oferece programas de recuperação para veteranos de guerra, socorristas e suas famílias.

“A maioria das pessoas ainda pensa que, se você sofreu um trauma, necessariamente terá sequelas”, diz Richard. “Mas estamos falando de algo além disso, uma situação em que o indivíduo, na ver- dade, se transforma em alguém diferente do que era antes.”

No mundo todo, mais de 70% das pessoas relatam ter tido exposição a pelo menos um episódio traumático em suas vidas – da morte de um ente querido até uma lesão com risco de vida –, de acordo com um estudo de 2016. Quase um terço relata já ter passado por pelo menos quatro situações do tipo. E embora muita atenção tenha sido direcionada – com toda a razão – ao entendimento do transtorno de estresse pós-traumático e traumas psicológicos relacionados a isso, algumas pesquisas sugerem que resultados positivos também são comuns depois de experiências difíceis.

Em estudos que analisaram milhares de veteranos de guerra, segundo Richard, ao menos metade relatou algum tipo de crescimento, como melhora nos relacionamentos ou motivação para aceitar novas oportunidades. O processo leva tempo, acrescenta o pesquisador, e geralmente ocorre após ou mesmo em paralelo a lutas relacionadas ao trauma, como depressão e ansiedade.

Existem estratégias que ajudam a chegar a um desfecho mais positivo, afirma Christy Denckla, psicóloga e pesquisadora da T. H. Escola Chan de Saúde Pública de Harvard, nos EUA. Ter uma rede de apoio é importante, e isso inclui dar e receber ajuda. Pode ser particularmente poderoso, aponta Richard, atravessar as próprias experiências traumáticas de uma forma que beneficie os outros.

Esse senso de significado e conexão não precisa sequer envolver outros humanos. A ligação a animais de estimação também pode facilitar o crescimento pós-traumático, de acordo com um estudo de 2020 com estudantes do ensino médio feito por Whitney Dominick, psicóloga social da Universidade de Oakland em Rochester, no Michigan.

Passar mais tempo ao ar livre também é uma boa estratégia. Em sua pesquisa de dissertação, Whitney descobriu que crianças que nadaram com golfinhos mostraram menos ansiedade e relataram a sensação de ter mais estrutura em comparação com aquelas que foram observar baleias. A imersão em uma experiência, suspeita a estudiosa, pode tirar as pessoas de si mesmas o suficiente para permitir a cura.

Essas estratégias podem facilitar o crescimento real, como descobriram Richard e seus colegas. Isso é baseado em um estudo com 49 veteranos de guerra e socorristas que participaram de um programa de uma semana chamado Warrior PATHH, oferecido pela Boulder Crest Foundation.

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Dezoito meses após a experiência, que incluía atividades ao ar livre e o desenvolvimento de uma missão de serviço, os pesquisadores documentaram reduções substanciais nos sintomas da síndrome de estresse pós-traumático e grandes aumentos em uma escala de medição de crescimento pós-traumático, que avalia coisas como apreciação pela vida e sentimentos de força.

No início da pandemia, Whitney começou a conduzir pesquisas com adultos em todos os Estados Unidos e tem evidências preliminares de que as pessoas já estão experimentando um crescimento em múltiplas dimensões, especialmente um sentimento de valorização da vida, de aumento da força pessoal e nas conexões com os outros.

O ano passado também pode ter contribuído para remodelar nossos cérebros de maneira positiva. Todos nós fomos forçados a pensar em novas maneiras de fazer as coisas, e os desa- fios mentais que nos afastam de nos- sas rotinas têm sido associados à saúde do cérebro e à resiliência à medida que envelhecemos.

Nem todos experimentam crescimento, nem deveriam se sentir pressionados a isso. Mas saber que há possibilidades é uma baita esperança.

Matéria originalmente publicada na Go Outside 169.

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