No domingo, dia 25, faz exato um mês que a médica e apresentadora brasileira Karina Oliani, 37, junto com o guia de montanha argentino Maximo Kausch, 38, chegaram ao topo do K2, a segunda montanha mais alta do mundo, de 8.611 metros de altitude. Mas, assim como praticamente tudo na vida, até o objetivo final existe um processo e, neste caso, é recheado de histórias e aventuras.

Foi ao todo 50 dias de expedição. E desde o primeiro dia eles já estavam preparando o corpo e a mente para tudo o que poderia acontecer. O K2 está situado na Cordilheira do Karakoran, que é uma extensão da Cordilheira do Himalaia. A montanha faz divisa entre Paquistão e China. O K2 foi apelidado de “A Montanha Selvagem”, e um a cada cinco alpinistas que tentaram chegar ao seu cume faleceu.

Em 2000, Waldemar Niclevicz foi o primeiro e único brasileiro até então a ter chego ao cume do K2. Neste ano, além de Karina, outro brasileiro a atingir o cume do K2 foi paranaense Moeses Fiamoncini. Ele está com o projeto pessoal de completar as 14 montanhas acima de oito mil metros e ser o primeiro brasileiro a realizar o feito. Pouco tempo antes de encarar o K2, Moeses já havia feito a montanha Nanga Parbat e o Everest.

Há mais de quatro anos Karina vem tentando realizar o sonho de escalar o K2. “Um ano fiquei doente, outro ano não consegui por conta de trabalho, outro por falta de patrocínio. Mas quando acumula essa vontade, você não desiste”, conta Karina, que nesta expedição teve patrocínio de cinco empresas.

 

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+ Brasileiros atingem o cume do K2, a montanha mais perigosa do mundo

Seu histórico permite que ela se arrisque em aventuras como esta. Karina escalou o Everest duas vezes, conquistando o título de primeira mulher sul-americana a escalar a montanha mais alta do mundo pela face Norte e Sul. Também desafiou e conquistou outros três dos sete maiores cumes dos continentes, o Kilimanjaro, o Aconcágua e o Elbrus. Além de atravessar um vulcão em atividade, caçar tornados e a Aurora Boreal.

 

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Para fazer o temido K2, ela foi acompanhada por Maximo Kaush, que há mais 20 anos escala montanhas de alta altitude. Maximo também é recordista por conquistar o cume de 85 montanhas com mais de 6.000 metros de altitude nos Andes. No ano passado ele esteve na expedição ao Manaslu, montanha de 8.156 metros famosa por ter muitas avalanches. Infelizmente, durante a expedição Maximo foi atingido por uma avalanche junto com um sherpa no campo 3 da montanha e fraturou uma costela. “Ainda dói um pouco”, ele conta apontando para a costela. E quem também esteve junto com eles foi o sherpa Lakpa Temba, que tem 34 anos de idade, e já chegou cinco vezes ao cume do Everest, três vezes do K2, duas vezes do Manaslu, além de outras 12 montanhas.

A expedição

Foram oito dias de trekking até o campo base do K2, passando por vilarejos paquistaneses e regiões completamente inóspitas. “O K2, definitivamente, não é o tipo de lugar onde você se cansa e vai embora para casa. Para sair de lá temos que caminhar 120 quilômetros por uma trilha extremamente complexa com gelo, neve, sedimento glaciário, rochas, pequenos desertos e rios. Tudo isso para chegar a metrópole local chamada Askole, que possui 200 habitantes e só dá para chegar com veículos fortes”, explica a médica.

Em seguida, começaram mais ciclos aclimatação e descanso. A aclimatação é extremamente importante para o corpo começar a se adaptar as altas altitudes e prevenir efeitos colaterais mais graves. “A aclimatação é um período de sofrimento em que você vai colocando o seu corpo em um ambiente com pouco oxigênio. Imagine que são 50 dias passando por isso”, disse Karina.

Fisicamente, não foi uma expedição nada fácil para Karina. No ano passado ela teve Doença de Lyme, uma doença transmitida por carrapatos causada pela bactéria Borrelia burgdorferi. Ela ainda estava tomando medicamentos até a expedição do K2. “Por conta da diminuição do oxigênio durante a escalada, praticamente não senti os efeitos da doença, pois o oxigênio alimenta a bactéria. Voltando para São Paulo, já tive que retornar com os meus medicamentos”, explica Karina, que é médica especializada em medicina de emergência e resgate em áreas remotas.

 

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Durante a expedição ela também teve alguns outros problemas de saúde. “Comecei a sentir que meu pulmão estava ‘começando alagar’, isto é, um início de edema pulmonar. Em medicina de montanha, o primeiro remédio a se tomar é o Viagra, pois ele ajuda as veias a relaxar evitando a contração provocada pela falta de oxigênio.”

Para Máximo, o K2 não é um lugar para principiantes e a mente é quem mais trabalha nesta situação. “Costumo dizer que em montanhas de alta altitude, 20% do sucesso é físico, e o restante é o seu psicológico. Em montanhas como o K2, você lida com muitos riscos de morte, com resgates, fica sem comunicação, sem muito o que fazer, e isso mina a sua mente.”

Ele e Karina tentaram levar a expedição em uma ‘vibe positiva’ e sem cobranças. “Nós tínhamos preocupações, claro, mas tentamos fazer tudo de forma tranquila, ver o que ia dar, sem cobrança. Vamos conseguir? Ótimo. Se não, tudo bem também. A expedição é muito mais que o cume. Passamos por paisagens lindas, vimos montanhas completamente desconhecidas, e isso vale muito”, relembra o guia.

Duas subidas

Os dois partiram para o ataque ao cume com outros escaladores durante a madrugada em 17 de julho. Mas neste dia, quando já estavam próximos ao topo, uma avalanche varreu a montanha, ferindo um Sherpa e levando duas das cordas fixas necessárias para prosseguir com o restante da escalada. A missão teve que ser abortada e todos retornaram ao campo base. A avalanche fez com que dos 120 alpinistas que iriam tentar o cume nesta temporada, apenas 15 decidissem continuar com a missão.

Mesmo exaustos, com roupas encharcadas, sem tempo suficiente para descansar, eles decidiram tentar a retomar a subida e fazer o cume na janela de tempo mais próxima. Para se ter uma noção do quão exaustivo é fazer uma escalada nestas condições, a mais de oito mil metros de altitude, faltando 600 metros para o cume, Karina e Maximo levaram mais de seis horas para chegar ao topo.

 

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“A gente sobe a uma altitude extrema carregando mochila pesada, com equipamento, em uma temperatura em que a média é -25Cº. Em muitos momentos você pensa em desistir, fica revoltada, diz que não quer mais escalar montanhas. Mas você pensa no que te levou até ali. Tenta focar até no mais simples que vem depois, como o leite condensado que eu iria comer depois de sete horas caminhando e escalando”, Karina relembra rindo. Durante a expedição, eles tiveram que consumir mais de 15 mil calorias por dia.

Para Karina, que se diz movida por desafios, estar conectada com a natureza é fundamental para a sua vida. “Somos parte da natureza, não sei porque nos distanciamos – ou alguns de nós, dela. Eu preciso dessa energia, desse contato. Em situações como esta me sinto muito mais viva.”

A pergunta que sempre fica para ela é: qual o próximo desafio? “Tem o outro lado do K2, o Chinês, mais difícil e perigoso, quem sabe não é o próximo…”. A aventura da dupla no K2 vai se tornar um documentário produzido pela Pitaya Filmes. O trailer foi divulgado no Festival de Filmes Outdoor Rocky Spirit, mas ainda não há data de lançamento.

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