Como Ilhabela pode se tornar um dos maiores polos de escalada de SP

Por Jade Rezende

Escalada em Ilhabela
Foto: Danilo Taino

Destino pouco explorado por escaladores, Ilhabela tem potencial para ser um dos maiores polos de escalada do estado de São Paulo e o mais seguro do litoral brasileiro. Mas há algumas pedras no caminho

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São Bento do Sapucaí, Pedra Bela, Paiol Grande ou outras cidades da Serra da Mantiqueira são, provavelmente, os destinos que vem à sua cabeça quando o assunto é escalada no estado de São Paulo. Pouco se fala sobre o esporte no litoral, a não ser alguns picos específicos, como o Morro do Maluf no Guarujá e boulders em Ubatuba.

Mas é pegando a balsa que se desvenda um tesouro desconhecido pelos escaladores brasileiros, com um relevo extremamente acidentado, de picos rochosos e montanhas que ultrapassam os 1.000 metros de altura: o município de Ilhabela tem potencial para se tornar um dos principais polos de escalada do estado. O destino tem uma quantidade e variedade de pedras que permitem a prática de várias disciplinas, como a esportiva, a clássica e o boulder – além do visual paradisíaco com algumas das praias mais bonitas do litoral paulista. A cidade já tem fama consolidada entre praticantes de outras modalidades: trail run, mountain bike, surf e vela são clássicos da região. 

A primeira via de escalada de Ilhabela foi aberta em 1989 no Pico do Baepi, de 1.048 metros de altitude, pelo Clube Alpino Paulista. Somente 20 anos depois, a tentativa de desenvolvimento da atividade começou, de fato, na cidade, com exploração, abertura de vias e catalogação de pedras e setores. A iniciativa partiu dos expedicionários, escaladores e documentaristas Márcio Bortolusso e Fernanda Lupo em 2009, financiados por seus patrocinadores, com o objetivo de consolidar Ilhabela como o “Arquipélago da Aventura”, explorando diversas atividades ao ar livre no município. Na época, o casal catalogou cerca de 180 pedras em áreas isoladas, além de estruturar alguns setores e vias, capacitar escaladores e divulgar o potencial da região para mídias, órgãos públicos e o trade turístico local. 

Passados 15 anos do esforço de desenvolver a escalada no arquipélago, o esporte ainda não é difundido no município e nem impulsionado por iniciativas públicas e privadas. Pouco do potencial da ilha foi explorado e apenas algumas vias estão estruturadas. Hoje, porém, Márcio propõe um desafio ainda maior do que desenvolver a modalidade: o intuito é transformar Ilhabela no “município mais seguro para se escalar no litoral brasileiro”. Isso porque grande parte das potenciais vias de escalada locais estão em regiões expostas à maresia, sol e chuva, ambiente que danifica com mais facilidade os atuais equipamentos das rochas feitos de aço inox. No passado, acreditava-se que esse era o material mais adequado para usar em rochas à beira-mar.

“Anos depois, provou-se que as chapeletas de aço inox estouravam com o peso do escalador em cinco anos de uso”, explica Márcio. “Após muitos estudos, passou a ser consenso para os especialistas em equipamentos que o inox já não é adequado para a beira-mar”.

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Segundo o expedicionista, esse é um problema que afeta todas as vias de escalada do nosso litoral. “Culturalmente, a comunidade ainda não percebeu que precisamos mudar nossa antiquada metodologia de abrir vias à beira-mar e o quanto estamos gerando risco ao espalhar milhares de proteções inadequadas por toda nossa extensa costa”, afirma. Por isso, seu objetivo hoje é substituir todas as proteções instaladas nas vias de escalada de Ilhabela por equipamentos mais modernos, duráveis e seguros, feitos de titânio, material usado há mais de 20 anos nas vias da Tailândia.

“A nossa vantagem é que não temos tantas vias de escalada como o Rio de Janeiro e Florianópolis. Com a modalidade ainda pouco desenvolvida na ilha, podemos começar do zero do jeito certo e torná-la o polo de escalada litorâneo mais seguro do Brasil”, diz Danilo Taino, escalador e idealizador do Portal Arquipélago Ilhabela, mídia de ecoturismo do destino, que se juntou ao projeto de Márcio.

Como nem tudo são flores, o ambicioso projeto custa caro. Sem apoio externo, Márcio e Danilo investiram dinheiro do próprio bolso no início, o que logo tornou-se inviável. “Para importar grampos de titânio, investe-se o equivalente a um salário mínimo para cada lote de apenas 13 grampos”, conta o documentarista. Para a reestruturação das vias na ilha, seriam necessários mais de 200 grampos, além das ancoragens e outros equipamentos. Após ter o pedido de custeio negado por órgãos públicos, a dupla criou um financiamento coletivo com meta de R$ 36.300 a serem arrecadados. Os recursos serão usados para “realizar a abertura e manutenção de 16 incríveis setores de escalada em Ilhabela totalmente equipados com seguros e duráveis grampos de titânio”, diz a página do financiamento online.

Para Márcio, a iniciativa pode proporcionar lazer para a cidade e fomentar a evolução de atletas regionais, além de incentivar o desenvolvimento econômico e social do município, que tem o turismo como principal indústria. “Abrir novas vias é a base. Depois surgem alguns guias, aparecem agências. O turismo e a comercialização vêm depois – foi assim em Yosemite e é assim em qualquer lugar do mundo. Mas a base é o mais importante, e é o que falta aqui”, completa.

Para ajudar, acesse o financiamento online neste link.







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