O norte-americano Bob Troia, de 46 anos, é empreendedor na área de tecnologia em Nova York (EUA) e criador do blog Quantified Bob, que analisa, quantifica, mede e otimiza dados. Em 2014, ele começou a registrar sua glicemia. O teste de DNA do laboratório 23andMe mostrou que Bob tinha um risco acima da média de desenvolver diabetes tipo 2, embora não fosse um típico candidato a sofrer dessa doença. O empresário sempre manteve uma dieta equilibrada, dormia o suficiente e fazia exercícios físicos cinco dias por semana, incluindo musculação, corrida e futebol em nível avançado. Mesmo assim, descobriu alguns picos surpreendentes de glicemia em suas medições diárias.

“Eu me perguntei por que as pessoas não estavam monitorando isso de forma proativa”, diz. “Nós sabemos da proliferação do diabetes e estamos cientes de que a doença não começa do dia para a noite. Trata-se de um distúrbio que se desenvolve ao longo das décadas – ou seja, é algo que pode ser prevenido.”

A preocupação de Bob é compreensível. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, 30 milhões de estadunidenses são diabéticos, dos quais cerca de 28,5 milhões têm o tipo 2 e outros 84 milhões apresentam pré-diabetes. O Brasil é o quarto país com o maior número de diabéticos, com 12,5 milhões de pessoas nessa condição. A glicemia normal de um adulto é definida como valores em jejum menores de 100 mg por decilitro; o pré-diabetes é definido como valor em jejum entre 100 e 125 mg.

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Entretanto Bob não queria apenas prevenir uma doença crônica. Ele pretendia otimizar sua saúde. Para entender melhor o comportamento da sua glicemia, o empreendedor passou a usar um monitor de glicose em tempo integral. Esse tipo de equipamento foi aprovado para uso médico pelos órgãos competentes daquele país em 1999. Os monitores de glicose, como o G6, da Dexcom, e o FreeStyle Libre, da Abbott, usam sensores que aderem à pele juntamente a um leitor portátil para registrar os valores. Menos doloroso e mais conveniente que os medidores tradicionais, que em geral precisam de uma picada no dedo, os monitores contínuos de glicose proporcionam um panorama abrangente da glicemia ao longo do dia.

Os profissionais de saúde não estão preocupados apenas com a glicemia elevada de forma crônica, mas também com grandes variações, às vezes chamadas de variabilidade glicêmica, que podem ser ocasionadas pela ingestão de alguns alimentos, estresse e outros fatores do estilo de vida. Quando a glicemia aumenta em adultos sadios, o pâncreas secreta insulina, que ajuda o organismo a absorver a glicose extra. Mas picos frequentes e mantidos ao longo do tempo estão associados ao diabetes tipo 2 e à resistência à insulina, um sintoma da doença. Embora ainda não esteja claro o quanto os picos de glicemia podem levar a riscos específicos para a saúde, parece haver uma conexão entre eles.

Quanto mais dados Bob reunia – não apenas sobre a glicemia, mas também sobre sono, atividade física (com um Fitbit) e dieta alimentar (registrada em um aplicativo que ele mesmo desenvolveu) –, mais compreendia como seus hábitos semanais afetavam a saúde. Esse entendimento o ajudou a controlar melhor a glicemia mudando alguns alimentos que consumia. A glicemia varia naturalmente ao longo do dia, sobretudo após as refeições, mas pode reagir de modo diferente de uma pessoa para a outra, mesmo quando consomem os mesmos alimentos.

Num estudo de grande porte, porém controverso, publicado em 2015 pelo Instituto Weizmann de Ciência, em Israel, os pesquisadores monitoraram a glicemia de 800 participantes que consumiram, no total, 47.000 refeições ao longo de uma semana. Em um caso, um participante teve um pico de glicemia depois de comer biscoitos, mas não bananas, embora a quantidade total de calorias desses alimentos fosse semelhante. Outro participante do estudo teve resultados opostos.

Quando Bob analisou o registro de sua glicemia, percebeu que arroz branco cozido a aumentava quase a níveis considerados como diabetes. Mas, se ele acrescentasse um pouco de óleo de coco, o impacto era perceptivelmente menor (a gordura deixa a digestão mais lenta). Após um voo longo, em que cruzou o país, ele também observou que sua glicemia ficou mais elevada que o normal por vários dias, provavelmente devido ao estresse relacionado à viagem. Nas manhãs após os jogos de futebol, que ele pratica duas vezes por semana, a glicemia se apresentou muito mais baixa do que nos outros dias, provavelmente devido ao exercício de alta intensidade.

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Em um estudo publicado em 2018, os pesquisadores da Universidade de Stanford, nos EUA, usaram monitores contínuos de glicose para avaliar a glicemia de 57 adultos, alguns diabéticos e outros não, de duas a quatro semanas. Os resultados mostraram que 25% dos participantes não diabéticos tiveram variabilidade severa da glicemia. O artigo sugere que monitorar a variabilidade da glicemia – que já mostrou que ajuda a prognosticar problemas como doenças cardiovasculares no longo prazo – pode trazer mais informações do que o exame de glicemia em jejum feito anualmente ou outros biomarcadores.

“Se você me perguntasse se acho que as pessoas sadias deveriam estar monitorando sua glicemia, eu responderia: ‘Com certeza’”, afirma Michael Snyder, presidente do departamento de genética de Stanford e um dos autores principais do estudo. “Há um número impressionante de pessoas que não têm um bom controle glicêmico e não fazem a menor ideia do assunto.”

Ben Greenfield, biohacker e autor do best-seller Beyond Training [Além do Treino, em tradução livre], acredita que a glicemia pode ser a medida de saúde mais importante que conseguimos monitorar de forma contínua. Isso porque ela serve como um indicador da saúde metabólica e do risco para algumas doenças crônicas. Triatleta e competidor de corrida de obstáculos, Ben vem monitorando sua glicemia desde 2014, embora não seja diabético. Ele acredita que entender a variabilidade glicêmica individual pode ajudar atletas sadios de várias maneiras: estabilizando os níveis energéticos, melhorando a energia em treinos e competições e fortalecendo a saúde celular (a resistência à insulina foi relacionada ao comprometimento da densidade e função mitocondrial).

A atividade física regular mantém uma glicemia saudável, mas os atletas raramente estão totalmente protegidos. Um estudo publicado em 2016 na revista científica Journal of Diabetes Science and Technology provocou um certo alarme ao mostrar que, apesar da atividade física regular, alguns atletas de resistência tinham glicemia na faixa do pré-diabetes, possivelmente devido às dietas ricas em carboidratos.

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Em geral, pessoas com risco de diabetes podem verificar a glicemia em jejum uma vez por ano, em exames de rotina. Isso pode ser o suficiente para sinalizar algum problema, mas o objetivo do uso de monitores contínuos de glicemia por pessoas sem diabetes – algo que não tem indicação médica, porém não é ilegal – é ajudar a prevenir problemas antes que eles apareçam.

Atualmente, nos Estados Unidos é necessária uma prescrição médica para comprar monitores contínuos de glicemia, mas alguns desses produtos podem ser encontrados na internet ou comprados livremente na Europa e mesmo no Brasil. A tecnologia talvez esteja disponível, em breve, em outros tipos de aparelhos. Em 2016, a Apple registrou uma patente que sugeriu que a empresa estaria desenvolvendo uma tecnologia com sensores de luz para identificar moléculas de glicose. E, no início do ano passado, a Fitbit investiu US$ 6 milhões na Sano, uma startup de São Francisco (EUA) que está desenvolvendo um monitor de glicose minimamente invasivo.

“Cerca de 90% das pessoas prédiabéticas não sabem disso, e até 70% terão diabetes tipo 2”, diz Michael, de Stanford, que é diabético do tipo 2. “Se pudermos checar o que está acontecendo antes de perdermos o controle da glicemia, conseguiremos descobrir maneiras de controlar a situação antes que seja tarde demais.”

*Reportagem publicada originalmente na Revista Go Outside, nº 160.

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