Este ano, governos e empresas de expedição prometem fazer mais para manter o Everest sem lixo. Mas a questão sobre o que fazer com os cadáveres está se tornando mais urgente

Por Alan Arnette, da Outside USA

Tudo está bem em ambos os lados do Monte Everest depois de três semanas inteiras da temporada de 2019.

Como previsto, há um número recorde de alpinistas este ano: o Nepal emitiu 374 autorizações de escalada para estrangeiros a partir de 16 de abril. Há 364 pessoas no lado tibetano, 208 sherpas nepaleses, 144 estrangeiros e 12 alpinistas chineses.

E as maiores manchetes até agora são sobre os esforços dos governos chineses e nepaleses para remover toneladas de lixo que está acumulado após décadas de escalada e o debate sobre o que fazer com os corpos de alpinistas que morreram na montanha e estão sendo exposto devido ao derretimento das geleiras.

A retirada dos corpos do Everest

Nenhum outro tópico atrai mais atenção ao redor do Monte Everest do que corpos mortos na montanha. Um total de 295 pessoas morreram em ambos os lados da montanha desde 1924. Tanto o Nepal quanto a China disseram que removerão os restos de mais alpinistas mortos este ano.

Pelo menos 200 corpos estão espalhados pela montanha em várias rotas. Alguns estão enterrados em fendas profundas. Outros agora descansam em lugares diferentes de onde morreram, devido ao movimento de geleiras, e alguns foram movidos intencionalmente. Em 2014, os chineses tiraram Tsewang Paljor, “Green Boots”, da trilha. Me disseram que seu corpo ainda é visível, mas difícil de localizar.

Remover corpos é um trabalho fisicamente exigente, porque com o tempo eles congelaram na encosta da montanha. Também é controverso, porque toca em diferentes tradições e crenças que muitas vezes estão em conflito umas com as outras.

Na minha experiência, a maioria dos alpinistas que pensam na possibilidade de morrer em uma escalada, preferem ter seu corpo deixado na montanha, fora de vista. No entanto, às vezes as famílias querem que o corpo seja recuperado para o enterro, e as comunidades sherpa e lama consideram a possibilidade de deixar os mortos no Everest desrespeitosos com os deuses das montanhas.

Um esforço de 2010 por uma empresa nepalesa para remover corpos do lado sul foi interrompido depois que famílias de alguns mortos intervieram para pedir que os restos de seus entes queridos ficassem onde morreram, de acordo com os desejos dos alpinistas. Naquele mesmo ano, um plano para espalhar as cinzas de Edmund Hillary no cume foi interrompido quando tanto o governo nepalês quanto os lamas locais intercederam, argumentando que o Everest não deveria ser usado para publicidade porque a montanha é sagrada.

Um planeta em aquecimento aumenta a urgência da questão. Corpos enterrados há muito tempo são expostos quando as geleiras derretem. Está acontecendo em todas as montanhas do mundo. Os cadáveres de três alpinistas que morreram há décadas na Orizaba, no México, foram expostos no alto das encostas glaciais do vulcão em 2015.

Remoção de lixo e equipamentos do Everest

Nos começo das expedições ao Everest, ninguém imaginava que haveria tantas pessoas na montanha a cada temporada, então os alpinistas deixavam barracas, cilindros de oxigênio e outros lixos na montanha.

Isso mudou nos anos 90. Quando a Adventure Consultants foi pioneira na orientação comercial do Everest, tendo mais cuidado na remoção do lixo gerado pela expedição. A ação virou uma tendência, mas os esforços foram ofuscados pelo volume de visitantes.

terremoto de 2015 foi um momento crucial para o acúmulo de lixo na montanha. Expedições foram forçadas a deixar barracas, comida, fogões e quase tudo o mais para trás quando ambos os governos fecharam seus respectivos lados do Everest. Quando estive lá em 2016, fiquei chocado com a visão no Acampamento II do Nepal. Os fortes ventos de inverno destruíram as barracas, expondo os suprimentos e espalhando-os por toda a área do acampamento no oeste de Cwm.

Infelizmente, nos últimos anos, outras equipes deixaram mais equipamentos no Acampamento II, e os alpinistas vão ver uma cena muito perturbadora quando chegarem lá este ano.

Aqueles que alcançam 8.000 metros em ambos os lados encontrarão um terreno baldio, literalmente. As fezes humanas não se degradam nessa altitude; elas simplesmente explodem ou ficam presas nas rochas. Algumas equipes ocidentais estão começando a usar os ‘shit tubes’ para reduzir os resíduos sólidos, semelhante a uma prática implementada recentemente no Denali, no Alasca.

A coleta começa no Nepal

Garrett Madison, do Madison Mountaineering, está supervisionando a equipe sherpa que consertou as cordas de escalada até o topo desta temporada. No fim de semana, helicópteros fizeram cinco voos para trazer mais de 680 kg de equipamento para o acampamento II . Equipes aproveitaram os helicópteros para retirar 180 kg de lixo.

Vários ministérios do governo nepalês, o exército e outras organizações estabeleceram uma meta para remover cerca de 5.000 kg de lixo do Everest e da área ao redor até o final da temporada. Este é um esforço conjunto de entidades públicas e privadas, com a Coca-Cola Company e o WWF Nepal fornecendo apoio financeiro significativo.

Haverá uma equipe de 12 pessoas paga para coletar lixo, além de um programa de dinheiro por lixo. O Asian Trekking tem programas similares há anos, mas é preciso mais de um time.

Um relatório encorajador disse que 1.180 kg de resíduos foram levados do aeroporto de Lukla para Katmandu para reciclagem no primeiro dia de coleta.

Chineses tomam medidas para manter o Everest limpo

Um esforço semelhante está em andamento no Tibete, impulsionado pelo governo chinês. No início deste ano, houve um anúncio altamente divulgado de que a China limitaria o número de escaladores nesta temporada e exigiria que as equipes coletassem seus resíduos como parte de um esforço para reduzir a quantidade de lixo.

Os chineses montaram estações para classificar, reciclar e triturar o lixo da montanha. Os alpinistas também são obrigados a pagar uma taxa de lixo de US$ 1.500 além da taxa de US$ 9.500 por sua permissão de escalada.

Para reduzir o acúmulo de lixo no acampamento-base do lado norte, as novas regras da China também proíbem qualquer um que não esteja com uma equipe de expedição de viajar para lá. Os turistas só podem ir até um monastério que fica a pouco mais de um quilômetro de distância daquele acampamento base.

Um problema de execução

Tanto a China quanto o Nepal exigem que os escaladores coletem vários quilos de lixo ou enfrentem multas, mas isso nunca foi cumprido.

Equipes comerciais no lado nepalês do Monte Everest pagam por um depósito de lixo de US$ 4.000. Mas o Comitê de Controle de Poluição de Sagarmatha, a organização que gerencia o depósito, também não foi eficaz na aplicação dessa política. Algumas equipes ainda deixam lixo nos campos altos, onde não há monitores.

Historicamente, nem a China nem o Nepal abordaram o crescente problema do lixo em suas montanhas e trilhas. Foi deixado para os operadores, guias, sherpas, tibetanos e visitantes. Espero que os crescentes esforços deste ano aumentem a conscientização de que manter nossas montanhas intactas é responsabilidade de todos.

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