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Um hiking de 150 quilômetros pelas montanhas históricas da Escócia

Por Kami Queiroz

Minha aventura começou quando escolhi o Reino Unido para aprender inglês com um plano de imersão local e voluntariado. Ficar em Londres pareceu uma boa ideia, mas não sabia que me sufocaria em tão pouco tempo. Grandes cidades têm suas vantagens e desvantagens.

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Quando planejo qualquer viagem, meus focos sempre são: atividades outdoors, imersão cultural e voluntariado. Essas são minhas ferramentas para viver uma experiência transformadora.

Em 30 dias de vida na grande Londres, tracei um plano de conhecer a Escócia caminhando. Mapeei uma trilha de longa distância, chamada West Highland Way, que pode ser realizada em cinco ou até dez dias.

Foi preciso um mês de preparo para encarar os sete dias de caminhada explorando por debaixo das saias escocesas. Saí de Londres de ônibus, em direção à cidade de Glasgow, onde pegaria um trem para Milngavie, cidade que dá inicio ao hiking, o quilômetro 0 da West Highland Way.

Kami Queiroz relata dias de aprendizado ao longo da West Highland Way. Foto: Arquivo Pessoal.

O dia 1 começou às 13 horas em ponto. Mochila com 15 kg de equipamentos para sobreviver por seis noites de camping selvagem e 150 quilômetros de caminhada atravessando, sozinha, as montanhas e vilarejos históricos do Reino Unido.

Durante os dois primeiros dias, o corpo adaptava-se a difícil tarefa de caminhar constantemente por 9 a 11 horas durante o dia. Montar e desmontar camping, organizar a rota e próximos passos…

O grande lago Loch Lomond foi meu quintal durante esse longo hiking. Lago, cachoeiras, fauna e flora silvestres, sol brilhando, neve e vento frio, florestas pitorescas e montanhas cada vez maiores aproximando-se de mim.

No terceiro dia, chegando à base da fazenda e camping site Beinglas Farm, consegui recarregar todas as baterias dos equipamentos audiovisuais: câmera, drone, GoPro, powerbank e, de quebra, um banho quente que não faz mal a ninguém.

Após três dias caminhando, a mochila começa ficar mais leve, mas o corpo sente o cansaço do dia a dia. Continuando pela travessia, o quarto dia fica tão emocionante que parecia que eu já havia vivido uns dez anos neste período.

Fazendo amizades pelo caminho. Foto: Arquivo Pessoal.

É tão desafiador peregrinar sozinha, na natureza, e sentir, refletir e desconstruir tudo aquilo que achava que era certo. No quarto dia dormi literalmente entre as montanhas, com a vista mais linda do que qualquer hotel 5 estrelas pode ter. Na Escócia fui apelidada de “Lucky Girl with sun from Brazil”, por viver sete dias de sol e aventura nas terras altas e frias desse país.

Este foi um dia muito especial. Eu estava esgotada nos últimos quilômetros e desconfiava que poderia não chegar onde queria, mesmo sabendo que não existia uma chegada exata. Era feeling e escolhas, havia um vasto campo e montanhas onde eu poderia montar meu singelo camping selvagem. Mas, após insistir uns quilômetros, cheguei em um lugar muito especial e ali deleitei minha caminhada do dia. Glória!

Emoções, superações, cansaço, fome, dores, alegria e um filme inteiro que passa na cabeça o tempo todo. É tão intenso fazer um hiking de longo percurso e, sozinha, você tem muito mais tempo para lidar consigo.

No dia 5 eu já estava tão renascida que parecia que era o primeiro dia da minha vida. Continuei mais 20 km para o caderninho de histórias. Dessa vez subi e atravessei a Devil’s Staircase, em Glencoe, uma região que faz a gente se sentir em um frame de um filme.

Que dia incrível e cansativo. Caía a noite e não chegava pelo menos no ponto base para dormir e continuar o sexto dia.

No 23 km cheguei em Kinlochleven. Só pensava em um hambúrguer, mas evitei gastar qualquer dinheiro. Eram dias de desafios, inclusive financeiro. O objetivo era fazer a WHW com zero reais, ou pelo menos gastando o mínimo possível, afinal precisamos pagar o transporte para chegar ate o início de tudo, né?

Nesse lindo lugar, encontrei um bosque e ali fiz minha casa por uma noite à beira do rio.
No sexto dia saí às 8 horas, junto com o sol, iniciando a caminhada gostosa e calorosa de um dia que já nem existia mais no meu calendário. Dia um, dois três, seis… Tudo já era um dia só, sem fim.

Atravessando montanhas e mais montanhas, sobe e desce, aproveitando a caminhada, pensava em dormir por ali mais uma noite, mas incrivelmente eu já estava próxima do ponto final, e o cansaço pedia um pouco de regalias, como um banho quente e cama.

Estiquei a passada e cheguei no sexto dia no final da tarde à cidade de Fort William, destino onde se encerra a West Higland Way, uma travessia que com certeza, é recomendada para quem quer viver uma desconstrução interna e uma viagem para dentro.

A Escócia é incrível, sua gente, sua história, montanhas, animais, lagos e rios, mas com certeza conhecer metade desse país andando faz tudo isso ser absorvido da maneira mais enriquecedora que um viajante outdoor pode viver.

Voltei da Escócia com todos planos alterados, me mudei de Londres, iniciei uma nova jornada pela Inglaterra e agora as descobertas continuam, através de lugares pequenos, próximos à natureza, onde eu possa aprender inglês e mais sobre mim.

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