Como o aquecimento global já impacta os grandes destinos de aventura

Por Alexandre Versiani

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Aretha Duarte em sua última expedição ao cume do Everest: montanhista tentou reduzir ao máximo o seu impacto no local. Foto: Gabriel Tarso

A CHEGADA DAS FÉRIAS de inverno deixou muitos argentinos ansiosos pelo início da temporada de esqui e snowboard em Las Leñas, Mendonza, um dos principais destinos de esportes na neve da América do Sul.

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As altas temperaturas e a falta de nevadas, no entanto, impediram a reabertura dessa e de muitas outras estações na Cordilheira dos Andes. Imagens de satélites divulgadas pela DEFIS, agência da União Europeia, comprovaram que a quantidade de neve acumulada na cordilheira foi a menor dos últimos 50 anos em vários pontos da cadeia montanhosa.

Na Patagônia, extremo sul do continente, atividades de alta montanha também tiveram que ser interrompidas por semanas pelo mesmo motivo: a frequente falta de neve, o que na prática aumenta os riscos de avalanches e deslocamento de rochas.

Já no Hemisfério Norte, o clima hostil do verão japonês castigou os atletas que participaram das Olimpíadas de Tóquio. Durante a maratona, duas dezenas de competidores tiveram que abandonar a corrida por causa do calor, um recorde negativo na história dos Jogos. Na Sibéria, uma das regiões mais geladas da Rússia, o pior incêndio já registrado no local devastou uma região equivalente ao território de Portugal.

De acordo com o recente relatório divulgado pelo Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (IPCC) criado pela ONU, esses não são fatos isolados. O estudo, realizado por cientistas de todo o mundo, revelou que as mudanças recentes no clima não têm precedentes ao longo dos últimos milênios, sendo os últimos oito anos os mais quentes já registrados em todos os tempos.

No topo das principais montanhas do planeta há quase 20 anos, o experiente guia e montanhista brasileiro Carlos Santalena, 35, já sentiu na pele os efeitos do aquecimento global. Ele destaca que as cadeias próximas à Linha do Equador são as que mais vêm sofrendo as consequências do aumento das temperaturas. “Temos Chacaltaya, na Bolívia, como exemplo. Há 15 anos estive lá, e o local era uma pista de esqui. Hoje em dia é só rocha. Mesmo a mais de 5.100 metros de altitude, o acúmulo de gelo é zero”, relata Carlos, o sul-americano mais jovem a escalar os 7 Cumes, as montanhas mais altas de cada continente.

“Minha experiência como montanhista tem me mostrado que nas grandes montanhas as principais mudanças estão no degelo, ou seja, na retração dos glaciares, abertura de novas gretas e nos iminentes riscos de avalanche”, afirma o montanhista, que já esteve no topo do Everest em três ocasiões.

No fim do ano passado, um estudo realizado pela Associação Suíça de Guias de Montanha apontou que a maior parte dos guias que trabalham com o montanhismo nos Alpes também se sente ameaçada ou preocupada com os efeitos das mudanças climáticas. Para 57% dos 600 entrevistados, o aquecimento global aumenta os perigos nas montanhas alpinas, com as quedas de rochas no topo da lista de preocupações. Outros 25% destacaram que as práticas deveriam ser adaptadas às estações do ano, enquanto 11% disseram que alguns acessos poderiam se tornar restritos.

“Uma das minhas maiores percepções foi no Denali, no Alasca, a montanha mais fria do mundo. Lá, quando chega o verão, a abertura de grandes gretas na parte de baixo acaba sendo uma questão bastante complexa. Em 2013, tive a oportunidade de estar lá em uma temporada quente, bem atípica. As gretas estavam imensas e muito mais abertas do que nos anos anteriores, impedindo o deslocamento até o primeiro acampamento”, ressalta Carlos.

Chacaltaya, na Bolívía. A estação de esqui mais alta do mundo está desativada há anos por falta de neve. Foto: Arquivo pessoal Carlos Santalena.

Everest em transformação

Até mesmo o ponto mais alto da Terra não está livre dos efeitos das mudanças climáticas. A 8.848 metros acima do nível do mar, o pico do Everest possui uma atmosfera tão “fina” que testa os limites da sobrevivência humana. Além disso, imensas geleiras se estendem por quilômetros a fio. Mas, de acordo com um grupo de especialistas, esse cenário está mudando rapidamente.

Em maio de 2019, 34 climatologistas de todo o mundo foram recrutados para investigar os efeitos do aquecimento global no “teto do mundo”. Com o auxílio de sherpas, pesquisadores conseguiram instalar a estação meteorológica mais alta do planeta, a 8.430 metros de altitude, no ponto conhecido como The Balcony (A Varanda). A expedição resultou em dados inéditos e dois novos estudos, publicados pelas revistas científicas Science e One Earth. Assim como as geleiras estão derretendo a taxas sem precedentes, os cientistas concluíram que a pressão do ar perto do cume também está aumentando por causa das temperaturas mais altas. Ou seja, agora há mais oxigênio disponível para respirar no topo do Everest.

“É uma mudança sutil, mas suficiente para fazer a diferença entre a vida e a morte para um montanhista no pico do Everest”, escreveu Tom Matthews, um dos responsáveis pelo estudo. A explicação para isso está nas moléculas de ar, que esquentam, ganham mais energia e acabam se movimentando de forma mais rápida, criando mais oxigênio. Mas, se por um lado o aumento das temperaturas pode facilitar a questão da oxigenação no Everest, ela também traz uma série de outros problemas, principalmente em relação ao derretimento das geleiras e novos riscos de avalanches.

A equipe de cientistas estudou 79 geleiras – incluindo o imprevisível Khumbu – e descobriu que entre 2009 e 2018 elas diminuíram quase duas vezes mais do que na década de 1960. E estimativas sugerem que algumas geleiras têm áreas que provavelmente perderam metade de sua espessura desde os anos 1960. Além de incontáveis prejuízos para os moradores, já que o degelo desestabiliza o fluxo de rios e plantações, o aumento da temperatura também traz consequências sérias para quem vive do montanhismo.

“Em 2014 houve uma avalanche catastrófica no Everest, resultado de mais um ano bem quente e atípico, e isso acabou ceifando a vida de 16 sherpas que trabalhavam como guias locais na região”, diz Carlos Santalena, atualmente o brasileiro com mais experiência no Everest.

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A Pororoca do Rio Araguari, no Amapá, em todo o seu esplendor. Foto: Fabio Paradise.

Fim de um sonho na pororoca

Se nas montanhas a falta de neve e o derretimento das geleiras são uma triste ameaça para os alpinistas, aqui no Brasil – onde se vive a pior seca dos últimos 91 anos – a pecuária extensiva destruiu uma onda lendária, localizada no coração da selva amazônica.

No início do ano 2000, o surfista paranaense Serginho Laus, 41 anos, ficou intrigado ao ouvir rumores de uma onda perfeita, que se desenrolava por quilômetros no inóspito rio Araguari, no Amapá. Começava ali a trajetória do grande desbravador de pororocas do Brasil, hoje um bore rider (surfista de maré) profissional. “A onda do Araguari era única, podia chegar a 40 km/h, dependendo da profundidade do rio, com quatro a cinco metros de face. Era um ‘tsunami programado’, que acontecia somente nas luas cheias e novas”, relata o surfista.

Graças às expedições na pororoca, Serginho quebrou dois recordes mundiais com as ondas mais longas já surfadas em todos os tempos. Em 2005, ele percorreu 10,1 km surfando sem parar no rio Araguari, marca que foi superada por ele mesmo em 2009, ao fazer 11,8 km, por mais de 30 minutos na mesma onda. “O surfista tem sempre o objetivo de buscar a onda perfeita, e encontramos uma ali, bem na imensidão da floresta”, relembra Serginho.

A pororoca é um fenômeno totalmente ligado à natureza. No Araguari, ela se formou graças ao encontro das correntes fluviais com a maré do Oceano Atlântico em uma região de floresta totalmente preservada no Amapá.

No entanto, com o passar dos anos, o cenário começou a mudar por causa da criação de búfalos em uma das margens do rio. “Enquanto uma das margens do Araguari é uma reserva ambiental, totalmente preservada, a outra possui fazendeiros que ganham a vida com a criação do bubalino”, conta Serginho. “Eles não têm uma delimitação de área para o rebanho, e são milhares de cabeças. Como caminham em manada, os búfalos acabaram prejudicando o solo argiloso e criando novas canaletas no rio. Isso aos poucos acabou matando a pororoca”, lamenta.

De acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a criação de búfalos foi o principal motivo para o fim da onda em 2013, mas a Federação de Pecuária do Amapá alega que outros fatores deveriam ser considerados para explicar o fim da pororoca, como a construção de hidrelétricas na nascente do rio Araguari. Para Serginho, a destruição da onda mítica também significou o fim de um sonho, já que aquele fenômeno do Araguari foi responsável pelo seu crescimento profissional, além de ser uma fonte de sustento para muitos ribeirinhos da região.

“O sentimento de perda dessa onda foi profundo, muito perturbador. Fizemos centenas de expedições, produções enormes, reunimos pessoas do mundo inteiro e incentivamos o turismo sustentável no local. A pororoca do Araguari transformou a minha vida e a de muitas pessoas que viviam no entorno”, lamenta Serginho, que segue em busca de novas pororocas pela Amazônia.

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Em 2013, a pororoca secou por causa da agropecuária extensiva e da construção de hidrelétricas na nascente do rio Araguari. Foto: Serginho Laus.

Questão de sobrevivência

Para quem respira aventura, se preocupa com as consequências das mudanças climáticas e depende da natureza para praticar esportes como montanhismo, surf, trekking e tantos outros, preservar o meio ambiente virou mais do que uma questão de honra.

O ambientalista Caio Queiroz, 43, promove o turismo sustentável há mais de 20 anos, tendo criado uma empresa responsável por elaborar projetos de coleta seletiva em grandes cidades e reduzir os impactos ambientais em destinos paradisíacos. O resultado da ação foi o Guia de Comportamento Responsável na Montanha, uma cartilha produzida em parceria com a jornalista Mariana Britto, disponibilizada gratuitamente na internet e que promove o turismo sustentável na região do Parque Nacional do Sagarmatha, no Nepal.

“No trajeto de 90 km de ida e volta até o campo-base, a gente viu de tudo, muito lixo jogado pelo caminho”, conta Caio. “A ideia do guia é mostrar que é possível ter um comportamento responsável, não só na monta- nha, mas em todo lugar que você visita”, diz o ambientalista. A cartilha ganhou respaldo dos alpinistas brasileiros que subiram o Everest neste ano, como a paulista Aretha Duarte, que se tornou a primeira negra latino-americana a alcançar o cume da montanha e ainda viabilizou parte da viagem com dinheiro arrecadado através da coleta seletiva de materiais recicláveis.

“Os nepaleses, de uma maneira geral, acreditam que jogar um lixo no chão, por exemplo, não vai interferir no andamento do universo, mas isso está começando a mudar. Vi muitas pessoas ao longo do trajeto no Everest com consciência minimalista e tentando reduzir ao máximo o impacto na montanha, o que é bem legal”, conta Aretha.

“Mas ainda há muitos problemas, como o campo 4 do Everest, que é repleto de lixo. E a responsabilidade de cuidar disso é toda nossa. Por isso precisamos atuar de modo mais consciente e eficiente, com o pensa- mento de sempre deixar o local igual ou melhor do que o encontramos”, completa a montanhista brasileira.