Fitz Roy: brasileiros no topo de uma das montanhas mais perigosas do mundo

Por Alexandre Versiani

Arjuna Sundara e Marcelo Machado chegam ao cume do Cerro Fitz Roy. Foto: Arquivo Pessoal

No final de fevereiro, os escaladores Arjuna Sundara e Marcelo Machado fizeram a bandeira brasileira tremular no topo do Fitz Roy, em El Chalten, um dos cumes mais desejados por montanhistas de todo o mundo.

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Embora tenha menos da metade da altura do Aconcágua, o Fitz Roy, que fica na divisa entre Chile e Argentina, na província de Santa Cruz, é considerado um pico de extrema dificuldade por suas características.

Ele apresenta extensas rochas verticais, polidas e escorregadias sobre as quais batem constantemente ventos de enorme força, o que exige o máximo conhecimento técnico por parte do escalador.

Por isso, atacar o famoso cartão-postal da Patagônia exigiu paciência. Arjuna e Marcelo tiveram que esperar por quase um mês até aparecer a janela ideal para iniciar a subida de 3.405 metros.

“Escalar o Fitz Roy sempre foi o meu maior sonho”, conta Sundara, que é guia, professor de escalada e comanda a sua própria escola em São Bento do Sapucaí, no interior paulista.

“Ouvi falar dessa montanha há muito tempo, por volta dos anos 2000 através da Roberta Nunes, mas na época era algo muito distante para mim por questões financeiras. Eu era um moleque apaixonado por escalada, mas zerado de grana (risos)”, relembra o escalador de 40 anos.

Em 2020, na sua primeira tentativa no Fitz Roy, Sundara precisou desistir após o tempo fechar na via Afanacieff, uma assustadora e gigantesca parede de granito de 1.500 metros. No ano seguinte, foi a pandemia que o impediu de voltar à Patagônia para tentar atacar o cume novamente.

Desta vez, ao lado de Marcelo, Sundara encontrou a parceria ideal e conseguiu chegar ao topo de uma das montanhas mais icônicas da Patagônia depois de quatro dias de muito sacrifício em uma escalada recheada de perigos.

“Essa foi uma temporada atípica, mais quente. Esse calor deixa muitos trechos instáveis, com sérias possibilidades de avalanches, desmoronamento de pedras e gretas nos glaciares”, relata Sundara, que alcançou o topo às 18 horas do dia 23 de fevereiro.

“A felicidade explodiu no peito, a vista lá de cima é surreal, de uma beleza incomparável. Tiramos várias fotos, fizemos filmes, contemplamos o visual, estávamos bobos, felizes demais. Um sonho de longa data realizado naquele exato momento”, recorda Sundara.

Visual da icônica montanha da Patagônia. Foto: Arquivo Pessoal
Temporada fatal

Horas antes de Sundara e Marcelo iniciarem o arriscado trajeto de descida do Fitz Roy, o escalador norte-americano John Bolte, de apenas 26 anos, acabou morrendo um pouco mais abaixo, ao ser atingido por uma pedra na brecha de Los Italianos, uma canaleta com cerca de 300 metros e considerada muito perigosa.

“Ao chegar no primeiro rapel uma dupla que já estava fazendo os rapeis da brecha nos pediu para esperar, porque estava caindo pedras. Aguardamos eles fazerem todos os rapeis e aí sim iniciamos a descida. O que nos deixou curiosos foi que todos os rapeis estavam com cordas fixas, achamos isso incrível porque o tempo todo caía gelo e pedras, tínhamos descer o mais rápido possível, e foi o que fizemos”, relembra Sundara.

“Chegando no passo superior, mas aliviados por passar pela brecha ilesos, eu vi um corpo à minha esquerda. Não entendi muito bem, imaginei que fosse o corpo de um escalador de temporadas passadas que havia caído lá de cima, com o descongelamento da neve. Mas era o John. A sensação é de compaixão e respeito nesse momento. A montanha tem uma relação individual com cada indivíduo, e alguns acabam a sua jornada na montanha”, afirma o montanhista brasileiro.

Neste mesmo dia, um escalador colombiano também foi atingido na perna e sofreu uma luxação séria, precisando de resgate para descer o restante da aproximação.

O acidente com John Bolte foi o terceiro fatal em menos de dois meses em El Chalten. No dia 6 de janeiro, o guia alemão Robert Grasegger perdeu a vida em numa avalanche em Aguja Guillaumet. Já no dia 28 de janeiro, o experiente alpinista italiano, Corrado “Korra” Pesce, também não conseguiu sobreviver a uma nova avalanche no Cerro Torre.

“O Fitz Roy e as montanhas de El Chalten são coisa séria. Por isso não tem preço estar aqui em segurança”, diz Sundara.

De volta ao Brasil, Sundara agora foca em mais duas missões nas próximas temporadas de escalada na Patagônia. A primeira é escalar o Cerro Torre, já a outra será completar a travessia “Care Bear”, da Aguja Guillaumet até o Fitz Roy em uma mesma ventana. Há muito tempo essa escalada tem alimentado a imaginação dos montanhistas.

Cruzando as linhas icônicas do Cerro Fitz Roy e seus seis picos de satélites, ela se estende por 6,5 km a uma altitude máxima de 3.359 metros em travessia de neve e rocha coberta de gelo, com a conclusão em rapéis infinitos.

Mais Brasil no topo

No dia 25 de fevereiro, logo depois da ascensão de Sundara e Marcelo, foi vez de a alpinista brasileira Gisely Ferraz – que há muitos anos reside nos EUA – chegar ao topo do Fitz Roy.

Gisely foi a primeira brasileira a chegar no cume do Fitz Roy guiando todas as cordadas crux, também pela via Afanacieff.

“Estou muito grata por tudo. Não postei muito porque é difícil comemorar depois que John faleceu. Agradeço a todos os meus amigos que se preocuparam e também subiram até a geleira para nos ajudar em caso de uma avalanche. As montanhas da Patagônia são lindas e perigosas, mas adoramos estar lá. Estou voltando para casa em segurança e meus pensamentos estão com a família de John”, escreveu a montanhista, que dias depois acabou tendo o seu celular roubado em Buenos Aires e perdeu grande parte das fotos da escalada.

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