Quem assiste o documentário sobre a Barkley Marathon, pode pensar diversas coisas. Uma delas, é de que esta é uma ultramaratona insana e bizarra. Ou pode pensar como o atleta de corrida de aventura Enrico Frigeri, de 31 anos, que, quando assistiu pela primeira vez, desejou encarar este desafio. E, depois de muitas buscas na internet, leituras e sorte, ele conseguiu se inscrever e assim ser o primeiro brasileiro a participar da Barkley Marathon, que desde a primeira edição, em 1986, apenas 15 atletas conseguiram completar a prova de 160 km em menos de 60 horas.

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A Barkley Marathon não é uma competição comum, a começar pela sua idealização. A corrida foi inventada pelo norte-americano Gary “Lazarus Lake” Cantrell, que se inspirou no percurso de fuga de James Earl Ray, o assassino de Martin Luther King Jr. James escapou da Brushy Mountain State Penitentiary, mas foi recapturado 55 horas depois a 13 quilômetros de distância da prisão. Gary então satirizou: “neste tempo eu teria percorrido 160 km”.

Veja o trailer do documentário “The Barkley Marathons: The Race That Eats Its Young”:

Foi então que ele resolveu criar uma corrida que acontece na região de “Frozen Head State Park” na cidade de Wartburg, no Tennessee, nos Estados Unidos, em que os corredores são obrigados a completar cinco voltas em um percurso de 32 km, com bastante terra e extremamente acidentado. O tempo limite para realizar a prova são 60 horas.

Além disso, a competição possui um sistema secreto de inscrição, sem informações detalhadas publicamente. E a corrida é limitada a 40 participantes.

Em busca de informações

Desde o final de março Enrico estava tentando descobrir como participar da Barkley Marathon. “Como não tem um site oficial, busquei o máximo de informações em notícias, blogs e tentei entrar em contato com antigos participantes pelas redes sociais. A maioria não me respondeu. Acredito que, por ser uma corrida com vagas limitadas, eles não passam muitas informações com receio de perder lugar na prova”, conta Enrico, que desde 2014 compete em provas de corrida de aventura e trail running.

 

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Depois mais de um mês reunindo informações, o atleta conseguiu descobrir o contato para inscrição. Então, Enrico elaborou um ensaio sobre seus feitos e escreveu o porquê ele merecia ser selecionado. O atleta é de Jundiaí, interior de São Paulo, e é atualmente Campeão Brasileiro de Corrida de Aventura, junto com Frederico Frigeri. No seu ‘currículo’ também costa provas de triatlo como o Ironman, o XTerra World, entre outras. “Hoje em dia tenho me especializado em provas de longa distância, com mais de 100 km.”

Enrico e a carta de seleção para a Barkley Marathon – Foto: Arquivo Pessoal

Além de encontrar o contato, Enrico ainda teve que descobrir a data e horário certo para enviar sua inscrição. “Se você manda o e-mail fora da data determinada, o seu contato é automaticamente bloqueado”, disse. Na época, ele sabia de apenas duas possíveis datas e teve que contar com a sorte. “Eu tinha dúvida, mas eu não conseguia mais eliminar uma delas, então arrisquei”. No final de novembro veio a resposta em uma carta que dizia: “Tenha medo, tenha muito medo, porque você foi selecionado para a Barkley Marathon”.

Em seguida, ele precisou pagar o valor simbólico de inscrição, de US$ 1,60, e recebeu o pedido do organizador da prova de dar a ele uma camiseta do Brasil e levar uma placa de carro de seu estado/país. “Ele sempre pede alguma peça de roupa ou meias para os corredores, e a placa é exigida aos calouros.”

O único da América Latina

Enrico foi um dos 20 estrangeiros escolhidos, o único da América Latina, para a edição de 2020. Mais 20 norte-americanos devem ser selecionados neste mês. Devido a um contrato de confidencialidade, o brasileiro só pode dizer que a prova é em março. “O Gary diz que não quer espalhar informações da prova para não encherem a paciência dele no parque.”

E a notícia da seleção veio bem no fim da temporada de competições de Enrico. “Com a Barkley, tive que fazer um replanejamento. Agora vou pegar 15 dias para descanso e depois voltar treinando forte em janeiro”, explica o atleta.

 

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A altimetria do percurso da Barkley é de 18.000m de ascensão. A prova pode acontecer tanto à meia noite, quanto ao meio-dia e relógios com GPS e smartphones são proibidos. Entre as voltas, os corredores também precisam achar os checkpoints que estão em livros escondidos pelo trajeto e arrancar uma página para provar que passaram por ali.

“A expectativa está grande, pois apesar destas informações, você não sabe o que vai encontrar lá. Não tem foto do percurso, eles oferecem um mapa bem ruim, então a ansiedade aumenta bastante”, conta o competidor. Quer saber mais sobre a jornada de Enrico até o Barkley Marathon? Acompanhe-o nas redes sociais. Toda torcida é bem-vinda!