A pequena cidade de Viana do Castelo, em Portugal, reserva surpresas outdoors que vão do kitesurf à bike

Texto e Imagens por Andrei Polessi*

A apenas 40 minutos ao norte da cidade do Porto, esconde-se um canto privilegiado para a prática dos esportes outdoor. Viana do Castelo, com apenas 40 mil habitantes, é cercada de mar, matas, rios, montanhas e vilarejos medievais que parecem ter saído de um episódio de Game of Thrones. Um destino ideal para quem quer aliar turismo e atividades físicas, mas sem deixar de lado o descanso, a gastronomia e a cultura.

Da igreja no ponto mais alto da cidade, o Monte de Santa Luzia, se vê toda a baía lá embaixo, além do centro antigo. Desde o século 13, os telhados vermelhos pintam a paisagem dessas ruas históricas, forradas de casarões e suas sacadas tradicionais, formadas por becos com cafés, restaurantes e bares a serem descobertos. Fazendo parte do conhecido Caminho Português que leva a Santiago de Compostela (a apenas 180 km dali), o lugar é invadido por peregrinos com suas mochilas – perambulando pelas esquinas, colorindo o povoado com um constante ar de “aventura” e uma intensa sensação de liberdade.

O importante rio Lima desce pela Espanha e entra em Portugal, estendendo seus braços pela cidade até desaguar no mar. Pelo caminho, vai fluindo por todo canto o gosto dessa gente pela cultura náutica, que desemboca em clubes de vela e remo, criando lugares como o Centro de Canoagem (uma referência de excelência no esporte) e o Surf Clube de Viana – a primeira escola de surf de Portugal.

Devido à baía aberta aos ventos do norte – mais incidentes principalmente durante o verão –, uma das maiores atrações da cidade é a praia do Cabedelo. Uma meca para os esportes náuticos, tem condições naturais excepcionais para a prática de vela, o que a levou a se tornar uma referência mundial, tanto que em junho deste ano a cidade vai sediar dois campeonatos mundiais: o de kitesurf e o de windsurf. Ali, o mar também privilegia os surfistas, em um dos picos mais procurados no país para altas ondas.

Encravado nessa praia, o Hotel Feel- Viana é uma ótima opção para quem curte esportes (e, claro, quer aproveitar todos os mimos de spa e gastronomia que um hotel quatro estrelas tem para oferecer). Localizado de frente para o mar, o empreendimento de arquitetura moderna e clima “descolado” fica em uma área cercada pela mata nativa de pinheiros. Na categoria “sports hotel”, oferece opções para todos os tipos e níveis de atletas – dos iniciantes aos casuais, até os avançados. Tudo é gerenciado através do seu Sports Center, que, além de alugar todos os equipamentos necessários para as atividades, conta com instrutores e guias (funcionando ainda como loja, onde você pode adquirir também roupas e acessórios).

Entre as possibilidades para desfrutar o mar, há kitesurf, windsurf, stand-up paddle, surf, barco a vela. Já para quem prefere a terra, dá para se jogar em belas sessões de corrida em trilha, trekking e ciclismo (o hotel disponibiliza bikes de todos os tipos, entre fatbikes, mountain, estrada e elétricas).

De mountain bike e SUP pelo rio Lima

Saindo da praia do Cabedelo, um dos passeios mais bonitos é seguir de bike margeando o rio Lima por aproximadamente 35 km, até alcançar Ponte de Lima – o vilarejo mais antigo de Portugal, com mais de 900 anos e que leva esse nome por conta da sua ponte, construída ainda pelos romanos. No caminho, trilhas e estradinhas de terra cruzam cenários lindos de povoados bucólicos, lagos, plantações e campos floridos. Sentindo o vento no rosto, você vai apreciando a cultura bem típica e tradicional do norte do país, com sua gente simples, que vive uma rotina muito saudável.

Passando a vila e seguindo por mais alguns quilômetros, há trechos de singletrack e mata fechada onde o rio invadiu o caminho, fazendo com que a travessia tenha de ser realizada com a “magrela” nos braços e água nas coxas. Um refresco perfeito depois de pouco mais de duas horas de pedal. Cerca de 20 minutos rio acima, há uma parada estratégica: lá o guia te espera com uma prancha de stand-up paddle e um “fato” (como se referem à roupa de neoprene lá na “terrinha”). Hora de trocar o guidão pelos remos e descer o rio Lima de volta ao vilarejo, contemplando sua margem de mata densa e de verde intenso. Em alguns trechos, a correnteza traça o ritmo, sem que seja preciso remar. A paz e o silêncio acompanham o viajante em momentos de meditação e contato com a natureza.

Fatbike em dunas, praias e marés altas

As fatbikes são uma diversão à parte. A única bike capaz de transpor trechos com areia fofa com seus pneus largos traz uma nova percepção à palavra estabilidade. Mas haja pernas para aguentar as trilhas de sobe e desce ao redor da praia do Cabedelo.

Em singletracks paralelos ao mar, rumamos no sentido sul até a praia da Amorosa entre dunas, passarelas de madeira e trechos de capim rasteiro. O sol se pondo bem à nossa frente desenha sombras compridas e transforma o cenário árido em um quadro surreal de Dalí.

A partir dali seguimos pela areia, retornando para Cabedelos e passando pela praia do Rodanho e de Luzia Mar. O trecho de volta, aparentemente curto, plano e de areia mais compacta, é uma boa “pegadinha” aos desavisados. Em dias de vento contra e maré alta, leva-se mais de uma hora pra cobrir a ridícula distância de 7 km, tendo que subir nos barrancos para desviar das ondas e muitas vezes “flutuando” literalmente com as bikes na maré. Mas tudo vale a pena diante da paisagem do Atlântico com o sol se deitando nas suas águas.

Kite e wind: tempo, persistência e vento

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Quando se olha esse trecho de mar português, vê-se frequentemente no horizonte o céu pintado de kites e as águas repletas de velas de windsurf. Pessoas totalmente imersas em um transe de felicidade e excitação. Dezenas delas. É fácil ficar empolgado, com vontade de se juntar logo à horda de felizardos. Mas os iniciantes devem controlar a animação: é preciso pelo menos uns quatro dias de treinamento com um instrutor para começar a pegar o jeito do kitesurf, por exemplo. Para quem não tem esse tempo disponível, não vale a pena gastar um dia inteiro tentando se habituar com os movimentos e equipamentos desse esporte – deixe para uma próxima.

Mas nada te impede de passar horas fotografando a dança dos kitesurfistas com o vento. Mesmo de longe, dá para sentir a paixão que move os praticantes desses esportes, que no fim do dia, com o sol já se pondo, parecem dizer para si mesmos: “Só mais uma, só mais uma…”.

Quitutes portugueses que dão água na boca

A região de Viana do Castelo é muito rica culturalmente. Cada vilarejo possui sua especialidade gastronômica, seu mosteiro, seu mirante ou alguma peculiaridade. Os pratos locais privilegiam ingredientes regionais, montados com perfeição. Em especial, o caldo verde com chouriço e broa de milho como entrada – uma maravilha que deixa saudade no turista por muito tempo após a viagem.

O lombinho de porco bísaro com pimentão e sopa seca certamente entrará para sua lista de melhores receitas provadas em terras portuguesas. Mas as opções são muitas: o famoso bacalhau, variedade de frutos do mar, carnes e opções vegetarianas. Outra dica fundamental é se hidratar bem, de preferência com as bebidas locais – talvez uma taça de vinho verde da região (ou duas).