Menos é (realmente!) mais

Um manual para te ajudar a desentulhar a vida de tecnologia excessiva, coisas demais e comida duvidosa

Você é viciado em celular. Vive soterrado de bugigangas inúteis. E come um bando de porcaria. Não é de se estranhar que você não tenha tempo para curtir a vida ao ar livre, para ver o mundo de perto e para entrar em forma. Mas felizmente reestruturar sua rotina – e se divertir mais – é fácil: apenas faça menos coisas. A seguir, explicamos como

Por Jen Schwartz e a equipe da Outside EUA

1 >> Livre-se de tantas coisas
Por Christopher Keys, diretor de redação da Outside norte-americana

O primeiro móvel que eu comprei roubou meu sono. Eu estava com 25 anos de idade, e o duvidoso armário de madeira pesava uns 30 quilos, era cor de uísque e tinha o tamanho de uma geladeira. Minha angústia era resultado de seu preço trambolhão nem sua qualidade. Era fruto, isso, sim, do que o tal móvel representava. A partir daquele momento, eu passava a possuir algo que não cabia dentro do porta-malas do meu carro. Vi minha vida adulta começando ali, junto com uma implacável trajetória de acumulação de coisas. O armário significava a perda da minha liberdade. Dando uma olhada na minha casa quase 20 anos mais tarde, percebo que aquela visão foi premonitória. Ao longo dos anos, juntei mais coisas do que queria, e encontrar lugar para guardar tudo se tornou uma batalha diária.

A ansiedade dos meus 20 e poucos anos tampouco era infundada. Uma pesquisa recente revelou um inquietante paradoxo: não apenas a desordem é uma causa de estresse; livrar-se de coisas também é. Para algumas pessoas, o próprio ato de dar algo produz atividade no córtex cingulado anterior e no lobo da ínsula, as mesmas partes do cérebro que registram as dores físicas. Isso explica por que milhões de pessoas, inclusive eu, gastaram R$ 20 para comprar ainda mais uma coisa: o livro A Mágica da Arrumação – A Arte Japonesa de Colocar Ordem na sua Casa e na sua Vida, o best-seller da consultora de organização japonesa Marie Kondo (lançado no Brasil pela editora Sextante). De acordo com Marie, lidar com a desordem pode melhorar o bem-estar. “Uma reorganização dramática da casa causa mudanças igualmente dramáticas em seu estilo e em suas perspectivas de vida”, escreveu ela. “Enfim, transforma sua vida.”

Comprei um exemplar pensando que o livro seria um estímulo necessário para o projeto de limpeza da garagem que eu vinha adiando havia dois anos. Dentro desse espaço, está todo meu estoque de equipamentos, prova de uma vida inteira de aventuras e as únicas coisas que possuo que lamentaria perder em um incêndio. Crampões para neve que pisaram cumes de montanhas dos Estados Unidos até os Himalaias. Minha primeira bike de estrada. O carrinho de bebê que acumulou centenas de quilômetros enquanto eu treinava para ultramaratonas e trotava para que meus filhos pequenos dormissem. Não uso muitas dessas coisas faz anos, equipamentos que acabaram obsoletos diante de substitutos mais modernosos ou de minhas oscilantes paixões. A pilha aumentava. A questão chegou a um ponto crítico quando minha noiva veio morar comigo, trazendo junto os pertences que ela mesma havia acumulado. Qualquer esperança de que eu realizaria a mágica de Marie enfrentado as montanhas de sentimentos guardadas na minha garagem se extinguiram com a leitura das primeiras páginas de seu livro. Em termos rígidos, ela descreve uma “maratona organizacional”, um projeto total de meses de duração que fracassaria se não fosse completado. Se eu não encarasse a parafernália da casa inteira – armários, gavetas, estantes, tudo –, voltaria a um indesejado estado de desordem.

A garagem teria que esperar. Comecei a agir seguindo a ordem de categorias prescrita por Marie: “Roupas primeiro, depois livros, papeis, objetos diversos e, por último, lembranças”. O processo me forçou a encarar aqueles incontáveis lugares que atraem lixo. Sempre havia uma pilha de correspondência e comunicados escolares sobre a bancada da cozinha. Os armários do banheiro estavam repletos de potinhos e frascos. E tinha ainda aquele maldito armário, onde encontrei uma incongruente coleção de castiçais, jogos de tabuleiro, jogos americanos, dois quebra-cabeças, uma extensão, um atlas do Novo México e uma filmadora antiga que gravava em uma coisa chamada MiniDisc. Enfrentei esses postos de coisas acumuladas com um saco de lixo (jogar fora) e uma caixa (dar). Livrei-me de coisas como se estivesse passando por um ritual de purificação. Durante vários dias, fui várias vezes à Cruz Vermelha, onde os funcionários começaram a me reconhecer. Roupas, livros, papeis – essa parte era fácil. Minha garagem veio por último, porque estava repleta de equipamentos high tech que tipos aventureiros como eu classificam como recordações. Foi nessa hora que minha confiança no método de Marie foi colocada à prova. Seu conselho para decidir quando guardar ou não alguma coisa: toque-a, preste atenção nos sentimentos que provoca e pergunte a si mesmo: “Isto me traz felicidade?”. Quando pensei nos meus queridos esquis, bikes e fogareiros (seis no total!), imaginei Marie me perguntando e eu respondendo insolente: “Claro que sim!”.

Em um domingo de manhã, apertei o controle remoto da porta da garagem e me senti nostálgico. Comecei pelos apetrechos de camping. Depois de uma meticulosa consideração, três fogareiros não despertaram nenhuma faísca de felicidade. Assim como várias lanternas de cabeça, sacos-estanques, kits de primeiros socorros e isolantes térmicos. A primeira coisa que realmente desafiou minha capacidade de julgamento foi o saco de dormir que usei em várias roadtrips familiares ao redor do país quando criança. Naquele sleeping bag eu tinha dormido profundamente no banco de trás da nossa perua enquanto meus pais dirigiam a noite inteira do extremo sul ao extremo norte do Grand Canyon para chegar com o nascer do sol. Passando as mãos por suas ensebadas costuras, senti uma poderosa e sensível alegria. Também me dei conta de que as lembranças que o saco evocava estavam dentro da minha cabeça, não em seu nylon deteriorado. Coloquei-o na caixa de doações. Possuía três pares de esquis de cross-country, todos haviam me transportado ao longo dos 65 km da competição Elk Mountain Grand Traverse. Sempre tinha gostado de vê-los encostados na parede, como uma prova de minhas conquistas. Mas alegria? Não me traziam exatamente alegria. Tentei estabelecer um limite com meu primeiro par de esquis. Não importava que fossem comicamente estreitos, pensei, eles arrasavam muito ainda. Mas agora eu avançava de vento em popa. Coloquei-os na caixa de doações, ao lado do saco de dormir.

Continuei assim durante várias semanas, desfazendo-me de bolas de futebol furadas, cadeiras de acampamento velhas e arcaicas rodas de bicicleta. Finalmente, reduzi meu tesouro a favoritos absolutos e comecei a reorganizar o espaço de acordo com as estritas instruções de Marie – nada de pilhas. Finalmente, uma tarde pouco tempo atrás, preparando-me para uma das primeiras esquiadas do inverno, senti um pouco da magia de seu método. O verdadeiro mal da desordem, aquela que eu temi aos 25 anos, era sua capacidade de te afundar. Será que eu realmente quero sair para esquiar às seis da manhã se todo o processo requer uma hora de busca em meio a um monte de coisas que estão no lugar errado? Não! Simplesmente continuarei dormindo. Aquela noite entrei no espaço recém-reformulado e tudo que eu precisava – bastões, capacete, luvas, esquis – estava exatamente onde deveria.

Estaria mentindo se dissesse que isso transformou minha vida. Na verdade, tenho sentido mais angústia sobre os lugares que ainda preciso encarar. Mas, se organizar é realmente uma maratona, tenho fé na metáfora de Marie. Sei que, como perder peso e completar um desafio de longa distância, isso nos traz um tipo particular de euforia. Marie estima que as maratonas organizacionais durem cerca de seis meses. Eu continuarei correndo atrás. Mas ela terá que arrancar meu carrinho de bebê das minhas mãos mortas e congeladas no fundo da cova!

2 >> Deixe seu celular de lado
Você não precisa escrever um tuíte ou um post durante sua aventura, a não ser que seja um atleta patrocinado cujo sustento depende disso. Prometo a você que ninguém se importa de verdade. Adoro quando uma expedição começa ao mesmo tempo em que as barras da bateria do meu celular diminuem, até a inutilidade total. É um sinal infalível de que sigo no caminho certo.”
– Dave Hahn, guia norte-americano (nascido no Japão) que já pisou no cume do Everest 15 vezes.

3 >> Liquidifique seu almoço
“Sopas são um excelente truque nutricional”, diz Nicole Centeno, autora do livro de receitas Splendid Spoon (Colher Esplêndida, sem tradução no Brasil) e diretora da empresa de delivery de sopas de mesmo nome. “É uma opção eficiente e nutritiva, que te mantém alimentado durante horas ao ar livre sem pesar no estômago.” Também é fácil de fazer e suja apenas uma panela. Compre um monte de tupperwares do tamanho de porções individuais para armazenar sua sopa no congelador e vá descongelando de acordo com a necessidade. A sopa substanciosa favorita de Nicole, de couve e lentilhas, contém muita fibra e proteína e é feita com ingredientes que provavelmente você costuma ter em casa.

Sopa de couve e lentilha
Receita para quatro pessoas

1 colher de sopa de azeite de oliva
1 cebola pequena, picada
2 cenouras grandes, picadas
1 talo de aipo, picado
1 dente de alho, picado em pedaços pequenos
1 colher de sobremesa de pimenta do reino moída
1 colher de sopa de curry em pó
1 colher de sobremesa de canela em pó
450 gramas de lentilha vermelha cozida e escorrida
450 gramas de lentilha verde cozida e escorrida
2 litros de água
2 xícaras de couve cortada em fatias bem finas
Sal marinho a gosto

1. Em uma panela, aqueça o azeite em fogo médio. Cozinhe a cebola, a cenoura e o aipo, mexendo frequentemente por dez minutos ou até ficarem macios. Acrescente o alho, a pimenta, o curry e a canela, e deixe cozinhar por um minuto.
2. Aumente o fogo e adicione a lentilha e a água; espere ferver. Coloque a couve, tampe a panela, abaixe o fogo e deixe cozinhar lentamente por 30 minutos ou até que o caldo engrosse, a lentilha esteja macia e a couve murcha.
3. Coloque sal a gosto e sirva quente.

4 >> Celebre a vida
“Eu valorizo as celebrações, talvez mais do que deveria. Você tem que saber aproveitar suas conquistas e tirar uma folga. Também sou terrivelmente viciada em doces e não estou nem aí para isso. Continuarei comendo balas azedinhas. Costumo ter pacotes de um quilo na minha sala. Existe uma linha tênue entre estar na fase anal de Freud e ser uma pessoa decidida. Tudo que faço é com determinação.”
— Clare Gallagher, ultracorredora que ganhou a mítica LeadvilleTrail 100 de 2016, de 160 km, com um tempo 2 horas melhor que o da segunda colocada.

3 >> Escolha um uniforme
Steve Jobs usava camiseta preta de manga comprida e gola alta e calça jeans todos os dias. Mark Zuckerberg está sempre de moletom. Sim, eles são nerds da tecnologia – mas não ter que pensar em que roupa vestir canaliza vários tipos de energia mental para outras tarefas mais importantes. O que uma pessoa ativa e preocupada com o estilo deveria vestir? Tenha como base esta fórmula de Peter Buchanan-Smith, fundador da marca de roupas e equipamentos Best Made, de Nova York (EUA).

Camisa de cambraia
“A cambraia é bem mais versátil que a flanela – pode ser usada com jeans e com calça social. É um tecido atemporal. Quando encontrar a camisa perfeita, compre imediatamente.”

Casaco
“Um suéter de pura lã e com gola grande é minha armadura. Uso-o para pescar, como jaqueta de frio na cidade e debaixo de um impermeável.”

Óculos tipo aviador
“É um modelo clássico. Não tem como errar.”

Cinto de qualidade
“Uso quase todos os dias.”

Jeans escuro
“Levi’s 501. O benefício é enorme pelo preço, e com o tempo eles vão ficando cada vez mais bonitos.”

Boas meias
“De lã. Nem muito grossas, nem muito finas.”

Botas resistentes
“Não acho um exagero usar botas de couro grosso e cano alto diariamente, mesmo em cidades grandes como Nova York. São tipo o Land Rover Defender das botas.”

6 >> Economize tempo na academia
Um dos pilares da visão moderna de “fitness” diz que treinos de força realizados dentro de uma academia são essenciais, até mesmo para atletas de endurance. O problema é que muita gente passa do limite. Eva Twardokens, que foi duas vezes campeã olímpica de esqui e atualmente é técnica de treinamento de força, faz parte do crescente grupo de profissionais do esporte que diz que atletas amadores não precisam passar mais de duas horas por semana treinando dentro de quatro paredes. O resultado: você pode passar bem mais tempo praticando atividades ao ar livre. “O perigo, para muita gente, é fazer exercício demais”, diz Eva. Ela estudou cautelosamente quantos treinos de academia precisava fazer para continuar tendo alta performance. “Reduzi a carga para chegar ao mínimo indispensável e criei a lei do ‘Dose Mínima, Efeito Máximo’”, diz ela. “A ideia é fazer a menor quantidade de treinos de força necessários para uma boa composição corporal e para ajudar nas atividades diárias sem desgastar as articulações.” Eva, campeã norte-americana de levantamento de peso na categoria máster, explica que sua filosofia geral de treino é “manter força e massa muscular com exercícios básicos como agachamento, levantamento terra, flexão de braços em barra fixa e mergulho. E isso também inclui vocês, atletas de endurance!” O resto do tempo? Saia e aproveite o esporte que você ama.

7 >> Traga suas roupas de volta à vida
Em 2011, a marca norte-americana de artigos esportivos Patagonia lançou a campanha Worn Wear – que permite que clientes enviem jaquetas e outras peças de vestuário à empresa para serem reparadas. Desde então, a companhia já fez 170 mil consertos. A seguir, um guia rápido para você mesmo resgatar suas coisas – e, antes de mais nada, cuidar melhor delas.

Mantenha-as limpas: Antes de guardar roupas tecnológicas no final de cada estação do ano, lave-as no ciclo frio da máquina de lavar e seque-as penduradas no varal, diz Lindsey Stone, norte-americana da Rainy Pass Repair, de Seattle, que conserta, recupera e renova todos os tipos de tecidos de roupas técnicas para atividades ao ar livre. “Quando alguma peça com Gore-Tex estiver seca ao toque, trate-a com um produto para reativar sua impermeabilidade”, acrescenta. “Depois, coloque-as na secadora de 10 a 20 minutos na função mínima.”

Evite erros comuns: “É muito mais difícil queimar lã do que tecidos sintéticos, por isso prefira usar uma camada exterior de lã enquanto estiver cuidando da fogueira”, diz Lindsey.

Faça um upgrade em seu kit de viagem: “Existem fitas feitas exclusivamente para consertar tecidos, tão resistentes quanto silver tape e que não deixam nenhum resíduo grudento depois”, diz Lindsey. “É uma ótima opção, que permite que depois você conserte o rasgo sem causar um estrago.”

Salve sua sola: Não descarte aquelas desgastadas botas de trekking se o cabedal ainda estiver em boas condições. Dave Page, mago que conserta botas em Seattle, diz que dá para colocar solados novos em praticamente todos os calçados. Ele já recuperou uma bota da década de 1960 seis vezes. O dono dela tem mais de 80 anos.

8 >> Vá sozinho
“Sempre digo que se tivesse que esperar um amigo ainda estaria no escritório. É mais fácil viajar sozinho, e isso tem sido cada vez mais aceito socialmente.”
— Matt Kepnes, que escreve o blog Nomadiz Matt

9 >> Simplesmente diga não
“A maioria das pessoas superestima sua eficiência, então elas dizem sim a tudo que aparece em seu caminho. O resultado é que acabam se sentindo sobrecarregadas. Dizer não abre espaço para coisas mais importantes para você. Falar não com mais frequência pode ser libertador.”
— Leo Babauta, autor de Quanto Menos, Melhor (publicado no Brasil pela editora Sextante) e do blog Zen Habits.

Guerreiros de final de semana costumam ter muitos equipamentos porque isso faz com que eles se conectem com uma atividade sem ter que praticá-la com assiduidade.
—Foster Huntington, viajante, “celebridade” do Instagram e autor de Home Is Where You Park It

10 >> Compre menos, viva mais
Por Jonah Ogles, editor da Outside norte-americana

Costumamos contar essa piada aqui na Outside EUA: como você pode identificar um editor da Outside no começo de uma trilha? É aquele que está removendo as etiquetas de suas coisas. Dói porque é verdade. As salas de alguns dos editores estão tão abarrotadas de equipamentos que fica difícil encontrar um lugar para sentar. Eu não sou exceção. Quando decidi começar a fazer mountain bike dois anos atrás, comprei duas bikes: uma hardtail (suspensão só na frente) e uma full suspension. Atualmente, tenho seis varas de flyfishing – uma para lançar iscas em pequenos riachos, outra para rios maiores, outra para dias de vento, e assim por diante.

Quando li uma artigo recente sobre Yvon Chouinard, o fundador da marca Patagonia, afirmando que ele havia notado que a maior parte de seus equipamentos tinha sido feita no século anterior, comecei a questionar meus excessos. Sofri de uma doença comum entre os norte-americanos de classe média: um consumismo desenfreado. E não estou de brincadeira quando digo doença. Faz tempo que sabemos que comprar coisas libera dopamina em nosso cérebro – um estudo de 2012 publicado no Journal of Psychoactive Drugs sugere que a substância chega até mesmo a causar dependência. E é uma das responsáveis pelo prazer que sentimos ao clicar no botão “compre agora”.

Tampouco se trata de uma atração meramente biológica. Revistas, catálogos e websites – inclusive o da Outside – invadem a caixa de entrada do seu email, sua caixa de correio e seu Facebook com novos equipamentos. Eu decidi lutar contra isso: durante um mês eu não compraria nada além de comida (ok, e cerveja).

Na primeira semana, eu me senti como um alcóolatra de pé ao lado da vitrine de uma loja de bebidas. Senti uma forte necessidade de trapacear, de comprar alguma coisa pequena como um livro ou uma entrada para o cinema. Mas lá pelo meio do mês esse impulso consumista compulsivo diminuiu. Percebi que já tinha em casa uma jaqueta para a próxima temporada de esqui, na realidade tinha duas, embora o tecido delas não respirasse tão bem quanto eu gostaria. Comecei a olhar para coisas que antes tinha considerado no final de suas vidas úteis – calças jeans com furos, um laptop com alguns poucos anos de idade – e vê-las como perfeitamente funcionais. Passei menos tempo navegando em blogs de equipamentos e fantasiando sobre relógios smart e novos carreteis de pesca, o que resultou em mais tempo para as coisas que realmente me importavam: minha mulher, meus amigos, meus colegas – pessoas, não coisas.

No final do mês, no entanto, recaí. Minha mulher e eu tínhamos comprado uma casa recentemente e queríamos substituir o antigo detector de fumaça. “Eu não vou comprar todas as coisas que precisaremos para a casa este mês sozinha”, minha mulher falou, com um tom de desconfiança em sua voz, insinuando que meu compromisso de abandonar o consumismo como um recurso para arruiná-la. Na mesma hora entrei na internet e pedi dois. E no final daquele dia lhe comprei flores, apenas para garantir.

A verdade é que não comprar coisas não dá a mesma sensação instantaneamente boa de clicar sobre o botão “compre”, e não posso dizer que não comprarei coisas supérfluas no futuro. Mas me dei conta de que não preciso delas. De que na realidade minha vida pode ser mais intensa se eu não possuir muita coisa. Algumas semanas depois do final do meu experimento, fui até uma ONG para ver se precisavam de mochilas ou varas para seus projetos de pesca com jovens. Juntei meus chapéus, casacos e luvas extras para doá-los ao abrigo do bairro. Depois de anos doente, começo a me sentir melhor.

11 >> Não seja sempre épico
Por Sam Moulton, jornalista

Sou um pouco viking. Não tanto na parte dos ataques e saques, mas, sim, no que diz respeito à arraigada necessidade de explorar terras distantes. Durante anos meu modus operandi era este: economizar dinheiro, torrá-lo em alguma aventura em um canto remoto do mundo, voltar duro, repetir. Era divertido, porém estou mais maduro agora. Embora continue tentando me jogar em grandes viagens sempre que possível, aprendi que explorar regiões mais próximas de casa pode ser igualmente gratificante. Cresci no sudeste de Wisconsin, nos EUIA, e estava sempre ansioso para ir às montanhas e aos rios do Oeste do meu país. Agora, ao voltar a Wisconsin, estou descobrindo todas as coisas que havia subestimado. A um raio de 30 km da casa, onde passei minha infância, em Sheboygan, há dunas para explorar, rios para remar, ondas para surfar (é sério, dá um Google!) e trilhas esculpidas por glaciares para passear. Ter filhos também ajudou a mudar minha perspectiva. Em Santa Fé, uma infinidade de micro-aventuras ideais para famílias pode ser realizada praticamente no quintal de casa. No último outono, passamos um fim de semana fazendo rafting em um trecho do rio Grande, perto da cidade. Pode não ter sido uma remada heroica para os padrões Instagram, mas havia corredeiras, cascavéis, fontes de águas termais. As crianças não tiveram que perder nenhum dia de aula, e juro que senti meu viking interior se despertar.

12 >> Use papel
“Eu já experimentei todos os apps organizacionais, mas prefiro mil vezes colocar lápis sobre papel”, diz o legendário alpinista Conrad Anker, conhecido entre seus parceiros escaladores tanto por suas habilidades quanto por sua ótima preparação. “Gosto de usar blocos de notas Moleskine, os modelos pautados de 5 por 8 polegadas (12,7 por 20,3 centímetros). Todas as noites uso uma caneta tinteiro para anotar a lista de coisas que tenho que fazer no dia seguinte. No domingo faço a mesma coisa, mas para a semana seguinte inteira”. Conrad diz que deve ter um talento organizacional inabalável no sangue. “Minha irmã é organizadora profissional, então costumamos dizer de brincadeira que criar estruturas e ter disciplina é o que move nossa família. Às vezes folheio minhas anotações e as releio. Pesquisas mostraram que escrever ajuda a lembrar e a processar melhor as coisas, e eu concordo. Tenho feito isso desde 1998.”

>>> Mais dicas para uma vida simples aqui!

* Matéria publicada originalmente na Go Outside 140, de maio de 2017

 

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