Levar seu cão para se esbaldar junto com você em trilhas e aventuras é uma delícia

Por Mariana Sgarioni*
Foto por Douglas Moreira

Imagine a seguinte cena: o cão labrador e seu dono, no meio de uma trilha espetacular, mata fechada. Eles exploram lugares, desbravam os mais inóspitos buracos, até que finalmente chegam a uma cachoeira e nadam juntos. Quando o dono chama, o cão volta, e senta-se ao seu lado, bem quietinho. Um companheirão. Pois é, mas isto é cena de filme, caro leitor. Ou de propaganda de ração, no máximo. Uma cena de filme que é até possível de acontecer, mas não do dia pra noite. O cachorro da história acima precisa ser treinado, educado, vacinado e acostumado com o ambiente. Caso contrário, você pode expor seu amigão a perigos capazes até de causar sua morte.

Se você já está de malas e potes de ração prontos para levar seu cão no banco traseiro do carro, vale a pena repensar algumas coisas. Se for o caso, quem sabe, a melhor saída seja deixar seu amigo em casa, com alguém de confiança, ou em algum hotelzinho bem recomendado. Confira a seguir alguns cuidados e boa aventura aos dois.

ELE SABE VOLTAR?

A primeira coisa a se levar em consideração antes de se embrenhar no mato com seu cão é se ele está acostumado a andar solto. Se você mora em uma grande cidade e ele só vai passear com a guia, lembre-se que a floresta guarda uma infinidade de novos cheiros. Existe uma grande possibilidade dele sair correndo e farejando e não saber voltar.

Portanto, se você vai para uma trilha, treine seu cão a voltar sempre que chamar. “Comece com uma guia longa. Chame-o e sempre que ele obedecer, dê um petisco em recompensa. Mas tem que ser algo que ele não ganha nunca, um petisco novo e delicioso, que ele só vai ganhar se obedecer”, ensina a treinadora Cláudia Pizzolatto, especialista em comportamento animal da Lordcão, do Rio de Janeiro. Aos poucos, quando ele for se acostumando, você vai soltando da guia.

O HÁBITO

Se o seu cachorro só passeia uma vez ao dia no quarteirão da sua rua, então é melhor condicioná-lo fisicamente antes que ele pegue uma trilha. Procure aumentar a dose do passeio diariamente, de maneira leve e gradual – de um quarteirão, passe para dois, depois para três. Faça isto mais de uma vez ao dia. Outra coisa importante é tentar “engrossar” a sola da pata dele, caso contrário ele pode se machucar no mato. Leve-o para andar também na terra e na grama e não apenas no asfalto – nas cidades grandes, sempre há praças com áreas disponíveis para cachorros.

Este condicionamento deve durar pelo menos 30 dias. Caso pinte uma viagem de aventura de última hora e o seu cão for sedentário, então é melhor não levá-lo com você. Lembre-se que o cachorro não tem limites, não sabe dizer “eu não agüento mais”.

AS RAÇAS

Antes de qualquer coisa, é bom esclarecer: as raças que conhecemos foram moldadas de acordo com as necessidades do ser humano. “O cão vem sendo modificado pelos anseios de consumo do ser humano, e isso afeta tanto as características físicas quanto as comportamentais”, explica a psicóloga e veterinária Hannelore Fuchs, especialista na relação entre homens e animais. “Cachorros de caça ou que vão buscar as presas, por exemplo, fazem isso para satisfazer as necessidades dos homens que assim os adestraram, e não porque se trata de uma característica de sua raça”.

Portanto, tudo vai depender de como e o quê você ensinou para seu amigão, independentemente da raça. Isso quer dizer que um pequeno poodle pode ser um grande companheiro nas suas trilhas – se ele foi assim condicionado. Agora, claro, algumas raças têm lá suas características específicas. O beagle, schnauzzer e o paulistinha, por exemplo, são exímios caçadores de bichos em tocas. Já o labrador, golden retriever, pointer e weimaranner costumam buscar as presas e trazer de volta a seus donos.

COMPORTE-SE

É importante que você conheça bem o seu cachorro antes de colocá-lo numa aventura e em ambiente estranho a ele. Em alguns casos, é melhor que você o mantenha na guia ou use uma focinheira do tipo cesta (aquela que deixa espaço para que o cão abra a boca para respirar). Por exemplo: se ele tem o hábito de perseguir pequenos animais, como pombos, é melhor não soltá-lo durante a trilha. Se não, é capaz dele querer ir atrás de todo bicho que encontrar no caminho e não voltar mais.

Mantenha-o preso também se ele costuma estranhar outros cachorros ou pessoas. Faça que seu passeio seja agradável a todos, não apenas a você – tudo o que acontecer com as pessoas e animais à sua volta é de sua responsabilidade, lembre-se. Quando estamos com nosso cachorro, devemos nos comportar em dobro.

E não custa reforçar: leve saquinhos e recolha as fezes do seu cão.

PREPARE A “MOCHILA” DELE

Leve todos os apetrechos que seu cão vai precisar. Deixe sempre muita água limpa ao seu alcance (inclusive tenha uma garrafa para ele durante a caminhada) e não se esqueça de levar a quantidade de ração necessária para os dias de viagem, uma vez que a alimentação do animal não deve ser mudada neste período.

Não ofereça muita comida antes de fazer uma trilha ou qualquer exercício físico. Deixe-o comer, mas só um pouquinho. Se ele comer muito e se esforçar, corre o risco de ter uma torção gástrica, problema sério que pode levar à morte. Leve também algodões e toalhas (para secar os ouvidos) e não deixe de colocar na coleira o número de telefone fixo de alguém que não viajou – isto pode ser útil caso ele se perca e o seu celular não esteja pegando.

CONVERSE COM O VETERINÁRIO

Antes de viajar, é importante checar se as vacinas de seu amigo estão em dia. Veja também se está na época de dar um vermífugo e se há a necessidade de aplicar um produto antipulgas e anticarrapatos. Para uma trilha, isto é sempre uma boa idéia, já que alguns lugares são infestados por estes insetos, principalmente onde há mato úmido, cavalos e bois.

Outra boa medida é falar com o veterinário se é preciso dar o remédio contra o verme do coração. Este verme, transmitido pela picada de um mosquito, cresce em volta do coração e é fatal em cães.

NA ÁGUA

É uma delícia ver os cachorros nadando e poder nadar junto com eles. Mas não force o seu amigo, principalmente se ele não estiver acostumado. Nunca o atire na água. Entre você na cachoeira e chame-o. Se ele se sentir à vontade, entrará também. Tenha também o cuidado de alertar as pessoas que estiverem com você – alguns cachorros ficam aflitos ao nadar e acabam machucando e arranhando quem estiver ao redor.

POR ÚLTIMO: APRENDA COM ELE

“Os bichos de estimação nos colocam em contato com a natureza animal, uma dimensão elementar que a sociedade e nosso estilo de vida se empenham em suprimir”, diz Marty Becker, médico veterinário, autor do livro O Poder Curativo dos Bichos. “Por meio de um relacionamento íntimo com nossos animais, despertamos em nós características poderosas como lealdade, amor, instinto e jovialidade.”

Becker, dono de nada menos do que 15 bichos, entre cães, gatos, peixes e cavalos, conta que aprendeu com um de seus cachorros uma habilidade que os seres humanos tanto anseiam: a de viver plenamente o presente. “Quando caminhamos juntos no meio do mato, ele não fica pensando o que vai fazer no ano que vem ou como será quando voltarmos. Na verdade, ele nem pensa. Está fascinado demais pelo mundo diante de seu focinho.”

DOG MODEL

CÃO DO MATO: O border collie Sherpa, preparado para qualquer aventura

Sherpa. Não por acaso, esse é o nome do simpático border collie de 6 anos que ilustra esta reportagem. Seu dono, Eduardo Queiroz, 35, apaixonado por montanhas e trilhas, deu o nome como homenagem ao povo que vive nas montanhas do Himalaia. Típica raça de pastoreio de ovelhas, o border collie do Edu sempre se sentiu bastante à vontade no mato.

“Quando o Sherpa tinha 6 meses, fez a primeira trilha conosco. Ele saiu disparado na frente, explorando a trilha e voltando toda hora até nós”, conta Edu. Mesmo sem ter sido treinado para isso, a aptidão natural da raça, conhecida por ser muita ativa, ágil e obediente, aliada à correta aplicação das vacinas, fizeram o debut do Sherpa ser um sucesso. “O Sherpa também não pode ver uma cachoeira que logo se joga. Ele adora nadar”, complementa a esposa de Edu, Silene Moneta, 37.

Com tanta energia para gastar e morando em São Paulo, o Sherpa tem a sorte de viver num quintal grande, em companhia do labrador Klink, e de fazer passeios diários. “Ele precisa de atividade física. Ai de você se não jogar a bolinha para ele ir buscar! Ele fica estático, olhando para o objeto até você jogar”, ri Edu. E foi buscando centenas de vezes um pequeno galho que Sherpa se aqueceu para nossa sessão de fotos.

*Reportagem publicada originalmente na Go Outside de fevereiro de 2007 e atualizada em fevereiro de 2019