O skate feminino conquistou bowls e pistas

Já faz tempo que as pistas de skate não se restringem aos homens: nos últimos anos, as mulheres têm marcado presença cada vez maior nas várias vertentes do esporte. Mas lá se foi a época em que a participação feminina se resumia a algumas garotas tentando – quase sempre sem sucesso – fazer manobras em bowls e skate parks. O movimento delas dentro e fora das pistas nunca foi tão intenso, criativo, empoderado e divertido quanto agora.

 

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Impressiona a quantidade consistente de ótimas atletas, como a catarinense Yndiara Asp, 21 anos, e Dora Varella, 17 anos, que muito provavelmente representarão o Brasil nos Jogos de Tóquio, em 2020, nos quais o skate estreia como modalidade. Porém o boom feminino vai além. Em diversas regiões do país, há grupos de meninas descendo corrimões, pulando bancos de praças e encarando bowls íngremes – por pura diversão. A cena se completa em todos os aspectos do lifestyle desse esporte. Jovens fotógrafas vêm registrando manobras e outros momentos das amigas skatistas. Temos no Brasil marcas de roupas e equipamentos voltadas 100% para elas, como a Mary Jane. Criada em 1999, a empresa só faz tênis de skate femininos. Em 2012, lançou o primeiro modelo assinado por uma brasileira, da pioneira Karen Jonz. Em 2013, a Qix também lançou sua marca, Missy, para investir nesse público.

Multiplicam-se nas redes sociais coletivos que incentivam mais garotas a se aventurarem em quatro rodinhas. Um desses, por exemplo, é o Britney’s Crew, criado no Rio de Janeiro, em 2016, quando duas skatistas, Rayane Oliveira, a “Briti” – vem daí o nome do grupo –, e Thayná Gonçalves resolveram incentivar a cena do skate feminino carioca em um coletivo para, além de andar e se divertir, discutir o lugar da mulher no esporte e criar uma rede de apoio.

 

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“Incentivamos muito a auto-organização feminina dentro do nosso estilo de vida. O skate é nosso motivo de união, mas o Britney’s quer mais: desejamos mostrar o poder das mulheres e ajudar todas nós a ter mais visibilidade e apoio”, diz Rayane, sobre uma cena que, apesar de tudo, ainda é predominantemente masculina, com atletas homens recebendo bem mais atenção da mídia e de patrocinadores. Além de organizar rolês pela cidade, elas contam com um corajoso front de fotógrafas, designers, estilistas e videomakers para “fazer a cena acontecer”, como pode ser visto em sua conta no Instagram.

O mercado da fotografia de skate, que envolve um trabalho muitas vezes técnico, cansativo e metódico para captar as melhores manobras, também vê aumentar a participação de mulheres atrás das câmeras. Algumas se especializam mais no lado da moda de skate, a exemplo da catarinense Tauana Sofia, que fotografa para diversas marcas da área, enquanto outras curtem captar o momento preciso das manobras. Caso da fotógrafa paulistana Laura Dias, 17, que começou a andar de skate aos 9 anos de idade e que, aos poucos, foi se apaixonando por retratar os amigos e amigas em ação. Recentemente seu trabalho foi selecionado para a exposição “No Limite da Ação”, no Sesc Belezinho, em São Paulo, com direito a uma imagem de sua autoria estampada em uma janela de 18 metros de altura – provavelmente a maior fotografia de skate já exposta no Brasil. E quem protagonizava a foto? A skatista Letícia Gonçalves, 21, nascida em Mogi das Cruzes (SP) e que integra a seleção brasileira de skate de 2019. “Passei três anos só fotografando meninos. No ano passado é que meu olhar começou a incluir também mulheres. Estamos criando nosso jeito de dar rolê e de se envolver com todos os aspectos da cena”, conta.

PARTE DA EFERVESCÊNCIA feminina se deve à chegada de uma nova geração, que surgiu inspirada em nomes como o da santista Karen Jonz, 34, primeira brasileira a ganhar um mundial (levaria mais três deles ao longo da carreira) e a primeira a conquistar o ouro nos X Games, e o da paulistana Leticia Bufoni, 25, que, apesar de jovem, despontou bem cedo. Leticia já levou quatro ouros na modalidade street dos X Games e ocupa atualmente a 5ª colocação no ranking mundial. As duas se tornaram mais que atletas – são hoje celebridades com milhares (milhões, no caso de Leticia) de seguidores nas redes sociais.

“Nunca imaginei competir com nomes como e de Karen, que sempre admirei muito”, conta Dora, que também faz parte da seleção olímpica de 2019, disputa a categoria park e já dividiu pódios com Karen. Recém aceita na categoria profissional, ela colecionou títulos como amadora. É bicampeã pan-americana open e levou três vezes um dos campeonatos mais importantes na sua modalidade, o Vans Combi Pool Classic.

Terminando a temporada 2018 entre as dez melhores do mundo na sua categoria, Yndiara, a “Yndi”, é outro nome conhecido aqui e fora do país. Sua trajetória se deu bem rápida: mal havia começado no skate, aos 15 anos, e já foi ganhando várias competições e deixando a plateia boquiaberta com seu estilo fluido, porém de grande velocidade e força. Hoje é a brasileira mais bem colocada no ranking mundial na categoria park, em 7º lugar. Também foi a primeira skatista profissional do país patrocinada pela Vans, tradicional marca de skate da Califórnia. “A cena do skate feminino está em um momento ótimo, crescendo muito. Tanto as meninas estão evoluindo nas manobras como na quantidade de praticantes e competidoras. As premiações estão se igualando às dos homens nos campeonatos também”, diz Yndi.

Com os Jogos de 2020, a tendência deve se intensificar. A seleção deste ano (que não é a definitiva para disputar as Olimpíadas) conta com Yndi, Dora, Letícia, Isadora Pacheco, 13 anos, e Victoria Bassi, 11, na categoria park, além de Pâmela Rosa, Rayssa Leal, Virginia Fortes, Leticia Bufoni, Karen Feitosa e Gabriela Mazetto no street.

 

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Victoria Bassi – uma das mais novas do time, ao lado de Rayssa Leal, também com 11 anos – já conquistou o bicampeonato brasileiro de park. “Meu foco é treinar bastante para chegar às Olimpíadas e trazer uma medalha, que é o meu sonho”, diz. Victoria começou no skate muito cedo, quando ganhou um carrinho da família aos 4 anos e mostrou desenvoltura rápido. Rayssa é outro talento meteórico: foi descoberta por um vídeo no YouTube, andando nas ruas de Imperatriz (MA), que impressionou profissionais de longa data.

A tarefa da seleção olímpica não será fácil, ainda mais com rivais estrangeiros de peso. Os EUA, berço do skate, devem ter as duas melhores do mundo na categoria park, Brighton Zeuner e Jordyn Barratt. Lizzie Armanto, número 2 do mundo no ranking geral, deve competir pela Finlândia.

 

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No fim de 2018, em Nanquim, na China, aconteceu a primeira etapa do Mundial de Skate, na categoria park, chancelado pela federação reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional. Ficou conhecido como o primeiro “mundial de verdade” da história do esporte. “Foi um choque de realidade, porque vimos meninas fortes de países que nem imaginávamos. Umas atletas do Japão, por exemplo, andavam muito, e nós nunca havíamos ouvido falar delas”, conta Dora. O Brasil conseguiu colocar Isadora Pacheco nas baterias finais, terminando em 7º lugar. Yndi ficou em 10º, e Dora Varella, em 15º.

“O avanço para nós, skatistas mulheres, é visivelmente grande. Apesar de tudo, a evolução não pode parar. Queremos mais atletas profissionais, mais marcas com mulheres no time, mais prêmios para nós. Ainda falta muita coisa”, completa Rayane, da Britney’s Crew. Se depender da ousadia e vontade dessa geração, a gente chega lá – e nem vai demorar muito.