Tudo sobre a escalada nas Olimpíadas de 2020

Desde que foi anunciado que a escalada vai estrear nas Olimpíadas de Tóquio, em 2020, os holofotes para o esporte têm crescido, inclusive no Brasil. Ainda que não garanta automaticamente vagas para nomes nacionais nos próximos Jogos, o simples fato de a modalidade ter se tornado olímpica representa uma grande virada para nossos atletas. “Com esse reconhecimento, conseguimos dar mais um passo para profissionalizar a seleção e os escaladores. Readequamos o estatuto para ter o reconhecimento do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e enviamos a documentação para o Ministério do Esporte”, explica Janine Cardoso, diretora técnica e de planejamento da Associação Brasileira de Escalada Esportiva (ABEE), a entidade local que organiza o esporte e que é filiada à International Federation of Sport Climbing (IFSC).

Na prática, essa profissionalização dos atletas dá uma perspectiva totalmente nova à escalada de competição nacional. A ABEE já vinha mantendo um calendário de provas constante, com um ranking brasileiro estruturado e staff treinado (com ações como a formação de juízes de competição de escalada, de acordo com as regras da IFSC, por exemplo) e investindo na qualificação de profissionais como route setters – responsáveis por criar a via a ser escalada competitivamente na parede.

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Contudo, como em outros esportes menos badalados que o futebol, os atletas brasileiros, de modo geral, treinavam com recursos similares aos de um amador, dividindo os treinos com trabalhos em outras áreas como fonte de renda, cursando faculdade e quase sempre com pouco suporte de preparação física. E, muitas vezes, organizando vaquinhas e rifas para competir, já que não havia verba institucional para isso. “Antes, 75% dos atletas não tinham ninguém ajudando na sua preparação específica. Hoje quase todos já contam com algum tipo de suporte”, diz Arthur Gáspari, analista de desempenho da ABEE e um dos responsáveis pela preparação dos atletas da seleção brasileira.

Antes do aporte de verba do COB, a ABEE se sustentava apenas com anuidades dos atletas profissionais e amadores e inscrições de campeonatos – valor quase sempre consumido na própria organização das competições e no pagamento da anuidade da IFSC. “Agora estamos conseguindo investir mais em gestão, na parte técnica e em tecnologia. Como a escalada ainda vai estrear, recebemos o piso dos esportes novos, que é metade do dos esportes fixos nos Jogos”, explica Janine. Só para ilustrar, a verba que o boxe recebe é mais de seis vezes a da escalada. Mas já é suficiente para cobrir questões fundamentais, como suporte financeiro mínimo aos atletas. Os escaladores da seleção recebem Bolsa Atleta, e a ABEE, por meio da verba do COB, consegue repassar ao time A, de melhor rendimento, uma ajuda de custo para despesas relativas a treino e alimentação, além de terem custos de viagem cobertos em algumas competições.

Outro upgrade de respeito passou a ser o acesso ao Laboratório Olímpico do próprio COB, no Parque Aquático Maria Lenk, no Rio de Janeiro. A estrutura é super moderna e traz a possibilidade de fazer diagnósticos precisos, prevenção de lesões e mapear “vícios” de treinamento. “Agora eles passam por uma avaliação bem mais completa de desempenho físico: aeróbico, força máxima e outras variáveis. Pelo menos uma vez por ano a gente tem feito eventos de avaliação conjunta do time principal e do time de base juvenil”, conta Janine. Com essa avaliação, é possível desenvolver um treinamento com metas mais precisas e detectar pontos vulneráveis.

Como analista de desempenho da seleção, Arthur é tão otimista quanto “pé no chão”. “Nosso maior desafio é o tempo hábil entre a chegada do investimento e o tempo de preparação até Tóquio. Para as Olimpíadas da França, em 2024, nós teremos melhores chances de colocar alguns atletas lá. Sou bem sincero: estamos lutando com unhas e dentes por uma vaga para Tóquio, mas uma vaga para a França é mais realista, se o investimento continuar acontecendo”, acredita. São apenas 20 vagas para 2020, disputadas com outros países que já fazem esse investimento há décadas. Na avaliação de Janine, nações como Áustria, Eslovênia, Japão, Polônia e Rússia são algumas com as melhores chances. “E há alguns países com forte potencial, como a República Tcheca, não por causa de uma equipe sólida, mas porque eles têm o Adam Ondra, um talento único fora da curva”, comenta Janine.

Na busca pela participação em Tóquio, considerando as 20 vagas no total para o feminino e as 20 para o masculino, o Brasil terá três oportunidades de tentar classificar seus atletas. A primeira será no Campeonato Mundial de Escalada IFSC (que neste ano também será no Japão), em que os sete primeiros, combinadas as categorias masculina e feminina, garantem a vaga. A segunda oportunidade é uma seletiva olímpica em Toulouse, na França, em novembro, que dá vaga para os seis melhores colocados de cada sexo. Nessa seletiva, poderão participar 20 atletas de cada sexo que não se classificaram por meio do Mundial de Escalada e que tenham obtido as melhores pontuações em um ranking combinado das etapas do circuito da Copa do Mundo de 2019. Nesse circuito, haverá uma sucessão de etapas específicas ao longo do ano, de boulder, dificuldade e speed. Para pontuar no ranking combinado da Copa do Mundo, são somados os dois melhores resultados dos atletas em cada modalidade, totalizando pelo menos seis eventos da Copa do Mundo ao longo de 2019. Quanto mais etapas os atletas participarem, melhores suas chances.

 

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Por fim, a terceira maneira são os eventos continentais, que classificam para as cinco vagas restantes. Nessa última possibilidade, o Brasil está competindo como bloco da América, que inclui as seleções dos Estados Unidos e Canadá, o que torna a competição mais árdua para os brasileiros. As duas vagas restantes são: uma do país sede (uma para o masculino e uma para o feminino) e outra vaga indicada pelo critério de universalidade, conforme indicação de um conselho tripartite. Como o Japão tem grandes probabilidades de classificar seus atletas sem esse recurso, as vagas devem ser tratadas como universais, com o critério de se escolher um país em desenvolvimento que esteja fazendo uma boa gestão no esporte, mas que não tenha conseguido a vaga.

Para os atletas, isso gera uma mistura de ansiedade, fôlego novo para dar 100% e adaptação para algumas mudanças no treino que o formato olímpico exige [veja quadro com modalidades]. “Talvez a maior mudança para todos seja treinar para as três modalidades ao mesmo tempo. Eu sempre treinei só para lead ou boulder, agora treino também para speed”, diz Cesar Grosso, 34 anos, atleta do time A da seleção. Ele vive em Arco, na Itália, cidade que respira escalada e fica a poucas horas de Innsbruck, município austríaco com um dos ginásios mais completos para treino de escalada na Europa. “Eu acredito na vaga para Tóquio 2020. Será difícil, mas estou trabalhando duro sete dias por semana”, aposta Cesinha.

Para a atleta Thais Makino, o Brasil está melhorando muito – e rápido – na escalada. “Nunca tivemos a estrutura de agora. Vou fazer o que puder para conquistar o melhor resultado possível. Muita coisa pode acontecer até lá e, mesmo sendo uma competição dura, quero conseguir meu melhor resultado”, diz ela. “Ver o esporte evoluindo nessa velocidade é incrível. Nossas chances melhoram muito com apoio, inclusive financeiro, como o Bolsa Atleta. Isso nos ajuda a treinar sem tanta preocupação”, conta Thais. A escaladora Camila Macedo faz coro: “Os recursos são tudo neste atual momento de evolução da escalada competitiva no Brasil. Todo o nosso trabalho – da associação, atletas e profissionais envolvidos – não é somente para conquistar uma vaga para a próxima Olimpíada. Trabalhamos para isso, claro, porém mais ainda para ver muitos representantes brasileiros nos próximos Jogos.”

*Reportagem publicada na edição nº 158 da Revista Go Outside, da abril/maio de 2019