Como a gentileza é importante no mundo outdoor

Um "obrigado" ou "por favor" pode despertar ótimas sensações e tornar o nosso dia muito mais feliz - e saudável

Por Erika Sallum*

Dia destes, eu estava pedalando na ciclovia da Marginal Pinheiros, em São Paulo. Inaugurada em 2010, hoje o trecho reservado para bicicletas que percorre nosso rio imundo se tornou um dos raríssimos lugares da capital para quem quer treinar ou curtir um rolê em duas rodas sem a encheção de paciência que é o trânsito da megalópole. Pois a “Ciclocapivara” – chamada assim pela comunidade ciclística paulistana por causa desses animais, vistos lá com frequência – é um microcosmo de tudo o que pode ser ótimo e, ao mesmo tempo, abominável no comportamento de esportistas outdoor, amadores ou não. Ali se repetem hábitos e atitudes, boas e más, também vistas em sessions de surf, tardes de skate, corridas em trilhas e por aí vai.

Veja o que aconteceu não faz muito tempo: pedalávamos eu e minha amiga Talita Noguchi quando, do nada, um cara nos ultrapassou xingando – afinal estávamos “atrapalhando” seu treino em nossa velocidade de cruzeiro. Só que o dito-cujo, depois de nos passar, ficou a poucos metros na frente, sem forças para seguir mais rápido. Ultrajadas, pedalamos até emparelhar com o moço e começamos a falar coisas do tipo: “Tu passa todo grosso e depois para assim? Se é para ser mal-educado, pelo menos pedale rápido!”. Não, eu não me orgulho desse acesso de descontrole. Deveria ter “deixado para lá” ou ter ido falar com essa pessoa de forma educada, explicando que não se deve tratar colegas de bike com tamanha deselegância. Mas os gritos e as palavras agressivas do tal cara geraram em nós essa reação.

O contrário também é verdadeiro, como já dizia José Datrino, o “Poeta Gentileza” – autor da célebre frase, hoje espalhada em adesivos, canecas, camisetas e até cangas de praia, “Gentileza Gera Gentileza”. Uma série de estudos recentes já comprovou que a bondade, o ato de ser gentil com o outro e a compaixão (a capacidade de se colocar no lugar do próximo) têm impactos profundos não apenas em nossa mente, como em nosso organismo como um todo. Ritchie Davidson, pesquisador da Universidade de Wisconsin (Eua), afirma que a gentileza pode ser fortalecida em nós, basta treinar – como fazemos com nossos músculos em academias. “Nossas pesquisas sugerem que podemos, de fato, fortalecer nosso ‘músculo da compaixão’ e, assim, responder de forma positiva ao sofrimento do outro, com cuidado e desejo genuíno de ajudar”, diz ele.

Além disso, ser amável com as pessoas – ou mesmo apenas presenciar atos de afabilidade – ajuda nosso corpo a produzir oxitocina, o tal “hormônio do amor”. Produzida no hipotálamo, quando liberada, a oxitocina provoca uma diminuição nos níveis de cortisol (hormônio do estresse) e melhora a circulação sanguínea. A substância está também ligada à sensação de prazer e bem-estar físico e emocional. Ser gentil e bom com quem está à sua volta estimula a produção de serotonina, ajuda a liberar endorfinas e colabora para retardar o processo de envelhecimento.

Resumindo tudo o que foi relatado nos parágrafos acima, ser gentil ajuda principalmente a você mesmo. E torna o mundo um lugar mais acolhedor.

Não é preciso ser um estudioso de Harvard para entender isso na prática. Na mesma ciclovia da Marginal Pinheiros, outro encontro foi tão esclarecedor quanto o com o ciclista mal-educado. Estava concentrada em meu treino de intensidade moderada, olhando para frente, quando percebi que uma moça de mountain bike havia grudado em minha roda traseira – explicando para os não ciclistas, isso serve para “pegar o vácuo” e, desse modo, se proteger um pouco do vento contra. A mountain biker ficou ali um bom tempo, pedalando forte para me acompanhar em sua bicicleta bem mais pesada e menos aerodinâmica que a minha de estrada. Após uns 20 minutos, eu diminui o ritmo, e ela passou por mim, a caminho da saída. Não sem antes abrir um sorriso largo, daqueles de iluminar o coração da gente. “Valeu pela roda, super obrigada!”, disse, acenando. Foi embora toda serelepe, deixando para trás hormônios do amor, endorfinas liberadas e uma sensação de felicidade no peito.

*Parte da reportagem #5 Atitudes Positivas Para 2018, publicada an edição nº 148 da Go Outside, jan/fev de 2018.

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