Dicas do maratonista aquático Samir Barel

Por Fernanda Beck

O CURRÍCULO DO NADADOR Samir Barel recebeu em 2015 uma de suas maiores glórias: em agosto, ele entrou para a seleta lista dos que conseguiram completar os 42 km da travessia do Canal da Mancha, que separa a França e a Inglaterra em seu ponto mais estreito. O percurso é duríssimo, com muito vento, ondas e correntes traiçoeiras. “Foi a maior experiência que tive como atleta e como ser humano, em um lugar onde você deve respeitar totalmente a natureza.”

O que pode parecer impensável para alguns é rotina para este nadador que também trabalha como treinador de natação na Elo, sua academia em Campinas (SP), cidade onde nasceu. Além do Canal da Mancha, Samir já concluiu a Volta da Ilha de Manhattan, em 2014, com 45 km de percurso, e pretende fazer em 2016 a Travessia de Catalina, de 36 km, que liga a ilha de mesmo nome a Los Angeles (EUA). Completará assim a chamada Tríplice Coroa da maratona aquática.

O campineiro revela abaixo alguns segredos sobre seus treinos e dicas para quem deseja se lançar nas travessias oceânicas.

1. Mergulhe na água salgada

É essencial amar a modalidade e se dedicar a ela. “A água do mar é um ambiente com o qual a maioria de nós tem pouco contato no dia a dia, portanto, quanto mais tempo você passar nela, maior será sua evolução”, diz. Considere sempre todas as variáveis que o mar aberto proporciona, como frio, ondas, correntes. Nadar no oceano é bem diferente de se preparar em piscinas, por isso treine especificamente para isso.

2. Procure ajuda de quem entende

Não é necessário ser um exímio nadador para começar a desbravar as águas abertas. “Saber nadar de forma rudimentar já é suficiente para experimentar e praticar”, garante Samir. Entretanto, se você quiser se aperfeiçoar, é importante contar com a supervisão de uma pessoa experiente, pelo menos na hora de começar. “Só depois disso preocupe-se com tempos e resultados.”

3. Aprenda a visualizar

A visão é muito importante na maratona aquática, para manter o senso de direção, já que não é possível enxergar o “fundo da piscina”. “A cada seis a dez braçadas, no máximo, o atleta deve olhar para frente e se localizar, para não correr o risco de desviar do trajeto e acabar nadando mais que o previsto”, diz Samir.

4. Treine a calma

“É natural que ocorra certo pânico quando não se sabe o que tem no fundo do mar nem para onde se está nadando”, diz Samir. Para evitar a sensação, dedique-se a treinamentos em águas calmas, como lagos e represas, para se acostumar com a situação antes de se inscrever para uma prova ou encarar o mar.

5. Respeite seus limites

Respeitar os limites do corpo é importante. Descanso (sono de qualidade), trabalhos regenerativos (treinos leves) e boa alimentação são elementos chave para um nadador. “Muitas vezes, achamos que se, pararmos com os treinos, nosso desempenho vai cair. Porém, a redução de volume, da intensidade ou até alguns dias de férias fazem com que o corpo se renove, voltando às atividades ainda mais forte”, aconselha o nadador.

6. Faça treinos de qualidade

O treino com flutuador é importante para isolar as pernas e focar a atenção nos braços. E trabalhos com pé de pato ajudam na resistência muscular dos membros inferiores. O uso de palmares pequenos e médios desenvolve a força muscular sem o risco de lesões por sobrecarga. Mas lembre-se: o uso de palmares grandes deve ser feito apenas em trabalhos específicos. “É muito comum achar que o palmar grande deixará seu braço mais forte, mas a má utilização desse equipamento pode gerar lesão e desequilíbrio técnico do nado”, explica o atleta. Samir ainda avisa: “Nas provas, não é permitido o uso de nenhum material auxiliar, assim é preciso achar um equilíbrio entre os treinos com e sem acessórios.”

7. Varie os estímulos

Exercícios aeróbicos e anaeróbicos devem ser muito bem distribuídos em sua rotina de treinos. “Nadar apenas volumes altos e intensidades baixas pode deixar o atleta mais lento”, diz Samir. “A variação de estímulo é crucial para a preparação do atleta e a adaptação do organismo.”

8. Fortaleça o corpo

Samir recomenda foco no trabalho abdominal, incluindo oblíquos, supra (que fortalecem a parte superior do abdômen) e infra (parte inferior). Além dos abdominais, exercícios isométricos também fazem parte da rotina do nadador: séries de 30 segundos em prancha trabalham os músculos da região do core, essenciais na natação. “O abdômen é fundamental para sustentação do quadril e tronco.”

9. Seja flexível

A flexibilidade do corpo todo é importantíssima para qualquer atleta. Para Samir, aulas de pilates e yoga foram a solução para deixar seus músculos mais protegidos contra lesões. “Também me ajudam muito na respiração”, diz.

10. Opte por refeições leves

Antes das provas, Samir aposta em pratos leves, porém calóricos: “Gosto de pão com azeite antes da refeição, salada de alface com tomate e cenoura, filé de frango grelhado e um prato grandão de espaguete ao sugo”, conta. Ele também evita comer doces por três dias antes de uma prova. Durante a natação, Samir ingere apenas isotônicos e água. Cerca de 30 minutos antes do treino, a pedida é uma tapioca ou um pão com queijo fresco e peito de peru. Após treinar, o cardápio é o mesmo, acrescentado de uma fruta.