Diário de um montanhista

O escalador Pedro Hauck relata o trabalho que teve nas montanhas nos últimos dois anos


TUDO NOSSO: Pedro no cume do Chachacomani (Fotos: AtaMontanha.com)

O montanhista paranaense Pedro Hauck é um conhecido colaborador da Go Outside. Este geógrafo especializado em geologia ambiental é uma verdadeira enciclopédia sobre a história da formação do planeta Terra e do montanhismo brasileiro. Além disso, Pedro é um dos sócios da agência de viagerns Gente de Montanha e fundador do portal Alta Montanha, referência do montanhismo no Brasil. A seguir, Pedro relata como foram os seus dois últimos anos nos Andes, um trabalho que lhe tomou tempo, dinheiro e extrema dedicação para se tornar o brasileiro que mais conquistou cumes acima dos seis mil metros. Leia seu relato a seguir e inspire-se para também passar mais tempo na montanha.

"OS ÚLTIMOS DOIS ANOS FORAM ESPECIAIS PARA MIM, pois foram os anos em que eu mais escalei. Foram quatro expedições aos Andes e uma grande viagem aos Estados Unidos. Nesse tempo, escalei 27 montanhas, sendo 22 com mais de 6 mil metros. De acordo com o pesquisador Rodrigo Granzotto Perón, um fiel historiador do montanhismo na América do Sul, oito montanhas foram conquistadas pela primeira vez por um brasileiro. Além disso, também fui o primeiro brasileiro a escalar todas as montanhas com mais de 6 mil metros na Bolívia (são 14, ao todo), um projeto que, no mundo, foi realizado somente por outras duas pessoas. Todas essas montanhas foram escaladas por conta própria, sem apoio logístico, sem guias, sem ajuda externa. Tudo realizado em carros 4×4 em locais extremamente remotos, em montanhas bem pouco frequentadas. O resultado é que, no final de tudo isso, acabei também me tornando o brasileiro com mais cumes de 6 mil metros no currículo: 32!

Tudo começou com um convite inesperado de Waldemar Niclevicz, que em minha opinião é o montanhista mais completo do Brasil. Waldemar me chamou para participar de uma das etapas de seu projeto Mundo Andino e, assim, no fim de 2012, fomos a bordo de sua caminhonete para os Andes de Salta, na Argentina.

Realizamos uma aclimatação no simpático vulcão Tuzgle, de 5.500 metros, na província de Jujuy, no norte do país. Após esta ascensão, seguimos até o Nevado de Cachi, uma montanha de 6.350 metros que é muito pouco frequentada. Fizemos o primeiro cume brasileiro no Cachi exatamente no dia de natal.

Dias depois, um pouco mais ao Sul, fizemos o cume do vulcão Antofalla, uma enorme e remota montanha de 6.470 metros – o Antofalla é a 17ª mais alta dos Andes. No cume, encontramos uma impressionante ruína inca de mais de 500 anos. Novamente, foi a primeira vez que brasileiros pisaram ali.

Após esta escalada, realizamos uma travessia 4×4 em um dos lugares mais remotos e desconhecidos dos Andes, entre o Salar de Antofalla e o Paso San Francisco. Foram três dias de muita tensão, pois não tínhamos equipe de apoio. Se algo desse errado, provavelmente estaríamos lá até hoje. Esta região é a mais seca do planeta e o terreno é extremamente hostil, com muita areia, pedras afiadas e até atoleiros perto dos salares.

Passamos o réveillon num lugar incrível, ao lado de uma lagoa salgada onde havia até uma piscina com água termal. Era quente por conta da atividade do Vulcão Peinado (5.800 m), que fica ao lado. No primeiro dia de 2013, já estávamos nas alturas, pois não resistimos à bela visão daquele vulcão e decidimos subi-lo. Mais tarde, descobri pelo montanhista argentino Marcelo Scanu que fizemos a quinta ascensão absoluta daquela montanha e, ainda por cima, por uma rota inédita.

Continuando nossa odisseia, entramos no Chile para escalar o vulcão Incahuasi, de 6.640 metros (a 12ª montanha mais alta dos Andes). Foram mais de dois mil metros de puxada até o cume, mas mesmo cansados conseguimos pisar no topo num dia que ventava muito. E, mais uma vez, foi a primeira ascensão brasileira naquela montanha.

A montanha seguinte também foi um gigante andino: o Nevado Pissis, terceiro ponto mais alto da cordilheira, com 6.800 metros. Apesar da altitude, a ascensão foi facilitada pelo tempo perfeito, mas que infelizmente não durou muito tempo.

Foi a partir desta escalada que o tempo mudou em todo os Andes. Chegaram fortes nevascas, e as montanhas ficaram cobertas de neve. Estava difícil até mesmo para chegar às cidades base, pois com as chuvas houve diversos deslizamentos de terra e enchentes que bloquearam as estradas.

De olho nas previsões, fomos nos deslocando durante s dias ruins e aproveitando as janelas para escalar. Nesse esquema, conseguimos chegar à base do Mercedário (a 8ª montanha mais alta dos Andes, com 6.730m). Fizemos um dia de aproximação debaixo de uma tempestade com muitos raios e, no outro dia, com uma janela pela manhã, subimos ao cume e retornamos à base – um esforço de 24 horas ininterruptas de atividade.

Acreditando em melhores condições de tempo, chegamos à base do Nevado Las Tórtolas no Chile (6.160 metros). Novamente aproveitamos a janela de tempo bom e nos tornamos, junto com a Silvia Bonora Niclevicz, mulher do Waldemar, os primeiros brasileiros a chegar ao cume.

Atravessamos o deserto do Atacama e, após dificuldades devido ao acúmulo de neve, seguimos até a base do Ojos del Salado, a segunda montanha mais alta dos Andes ,com 6.890 metros. Usando a estratégia anterior, culminamos o vulcão e ainda aproveitamos o bom tempo para uma saideira no Nevado Três Cruces Sul, a quinta maior elevação dos Andes, com 6.745 metros de altitude.

Foi uma escalada muito difícil por conta do excesso de neve. Além disso, o argentino Ricardo Córdoba estava desaparecido na montanha. Acampamos ao lado da barraca dele e fomos os primeiros a chegar ao topo e verificar que ele não havia assinado o livro de cume. Ricardo nunca foi encontrado.

Meses mais tarde, retornei às montanhas, só que desta vez nas Rochosas dos Estados Unidos, onde escalei o Mount Baldy (3.000 metros) e o Middle Teton (3.900). Fiz uma viagem de 7 mil quilômetros pelo oeste americano passando pelos estados da Califórnia, Nevada, Idaho, Montana, Wyoming, Utah e Arizona.


CASA MÓVEL: De carro na base do vulcão Peinado

No entanto, quando o assunto é “montanhismo de exploração”, nada bate a região da Puna do Atacama e suas remotas e esquecidas montanhas. Foi para lá que eu segui em dezembro de 2013, na companhia de Luiz Antoniutti e seu filho Luca, de 15 anos.

Para aclimatar, escalei o Sairecabur, de 6.008 metros, e o Licancabur, de 5.940. Logo atravessamos a Puna de Salta para chegar à base do Vulcão LLullaillaco, de 6.740 metros (a sétima montanha mais alta dos Andes). Foram dias e mais dias para chegar lá. São mais de 400 km por caminhos onde só se passam veículos 4×4. Locais tão remotos que, se acontecesse algo com o carro provavelmente, viraríamos múmias do deserto, e talvez só seríamos descobertos por arqueólogos, daqui a uns 500 anos. Na verdade, o LLullallaico é conhecido pelas múmias! Em 1999, em seu cume foram descobertas três crianças incas mumificadas que foram supostamente sacrificadas em oferenda aos “deuses”, há mais de cinco séculos.

Acabei chegando ao topo sozinho. Foi a segunda ascensão brasileira nesta montanha e a primeira pelo lado argentino. No caminho, encontrei muitas ruínas incas e, posteriormente, escrevi um texto aprofundado sobre minhas interpretações do montanhismo arqueológico dos Incas.

Em julho do ano passado, recebi um convide de Maximo Kausch para ajudá-lo a ministrar um curso de escalada em gelo na Bolívia. Ensinamos a 17 pessoas todas as manhas do montanhismo de altitude, mas por alguns metros eu não cheguei, junto com o grupo, ao cume do Huayna Potosi. Com alguns desses alunos também estive no Sajama, mas infelizmente também não fizemos cume por conta do mau tempo.

Após nos despedirmos dos alunos, chegou a hora de Maximo e eu voltarmos a escalar montanhas juntos. A primeira foi o Chaupi Orco, de 6.045 metros, o ponto culminante da remota e desconhecida cordilheira de Apolobamba, localizada na fronteira com o Peru.

Só para chegar à base desta montanha foi uma grande aventura. Escalá-la, ainda mais, pois assim como as montanhas de Puna, estas, menos conhecidas da Bolívia, não têm trilhas e nenhuma informação a respeito. Para piorar, nestes rincões esquecidos daquele país indígena, as pessoas sequer falam espanhol – a língua oficial é o Aymará e o Quechua, e nem preciso dizer que é preciso ser excelente motorista e navegador para se chegar até lá.

Depois de conseguir culminar esta interessante montanha, comecei a despejar as cinzas de meu amigo Paulo Roberto “Parofes”, que falecera meses antes de leucemia. Fomos escalar outros dois gigantes, pouco frequentados e desconhecidos, o Chachacomani (6.078 metros) e o Chearoco (6.100 metros), localizados na porção norte da Cordilheira Real.


JAMAIS SERÁ ESQUECIDO: Pedro lança as cinzas do Parofes no Chaupi Orco

Novamente, o isolamento e a falta de informação disponível aumentaram as dificuldades. Fizemos um montanhismo exploratório e nos demos bem. Achamos um ótimo vale para se aproximar do Chachacomani e fizemos o cume da montanha. Após isso, ainda realizamos uma travessia para escalar o Chearoco – novamente a primeira ascensão brasileira na montanha.

Deixamos a Cordilheira Real e seguimos para uma longa viagem pela Bolívia, com a intenção de escalar outros picos de 6 mil e tantos metros quase nada conhecidos. Assim, fiz cume sozinho no Acotango (6.078 metros), e quebrei um recorde pessoal com meu jipe: dirigi nos 5.643 metros. Logo depois, escalei o super vulcão Guallatiri (6.089 metros), que está bem ativo, e o desconhecido Capurata, uma montanha que até pouco tempo atrás era classificada em 5 mil metros, ,mas que através da minha medição de GPS, consegui um forte indício de que ela tenha, na verdade, 6 mil. No cume, encontrei uma belíssima ruína incaica.


Atravessando o norte do Chile, voltamos à Bolívia pela região do Sud Lipez e, após intermináveis estradinhas de terra, chegamos ao superremoto Uturunco, de 6.008 metros, onde finalizamos a escalada de todas as montanhas bolivianas de seis mil metros.

Este é um projeto que comecei em 2002 e que, na nossa versão, são 14 cumes. Apenas eu, o Maximo Kausch e o montanhista equatoriano Santiago Quintero fizemos isso. Santiago, inclusive, decidiu realizar este projeto através de uma conversa com Maximo, que lhe forneceu vários dados. Este equatoriano é um dos melhores montanhistas da América Latina, e contou com amplo apoio. Ele tinha o patrocínio de uma marca de automóveis, que lhe deu uma caminhonete bem equipada. Até o governo de seu país lhe garantiu um apoio, ao contrário de mim, que fui com meu próprio carro e não ganhei sequer uma troca de óleo.


Como disse anteriormente, fiquei admirado pela região de Puna do Atacama e, ainda em 2014, voltei com a minha namorada, Maria Tereza Ulbrich. Passamos o réveillon na isolada cidade de Tolar Grande e, já no dia seguinte, escalamos o Nevado Macon, de 5.525 metros. Para firmar nossa aclimatação, ainda escalamos o Nevado Acay, de 5.570 metros.


MAIS UM PRA CONTA: No cume do Pissis

Prontos para uma maior altitude, fomos escalar o pouco conhecido Quewar, de 6.150 metros, no qual fizemos cume após uma noite de tempestade que deixou o deserto branco. Foi maravilhoso poder levar a Maria para escalar sua primeira montanha de 6 mil metros. No cume da montanha, ainda nos deparamos com mais uma ruína incaica, o que mostra que estas montanhas do norte da argentina eram mais escaladas há 500 anos do que hoje. Nem preciso dizer que não encontrei ninguém em todo o tempo em que estivemos na montanha. Também fomos os primeiros brasileiros que fizeram cume na montanha.


Finalizando nossa “romântica” viagem, atravessamos Puna em perigosas estradinhas 4×4, e chegamos à base do vulcão Socompa, de 6.058 metros. Fizemos uma ascensão longa, de mais de dois mil metros. Foi muito difícil, mas com esta escalada escalei minha 30ª montanha de 6 mil metros! Foi a segunda montanha da Maria, e a primeira ascensão brasileira por lá também.

Fiquei algum tempo em casa e logo fui chamado novamente pelo Maximo para ajudá-lo em mais algums expedições guiadas.

Assim, ainda guiei no Mercedário (6.770), ajudando a levar quatro de cinco clientes ao topo. Logo após esta montanha, voltamos à região do Paso San Francisco e, junto com Edu Tonetti, fizemos o cume do Três Cruces Central, a décima primeira montanha dos Andes, com 6.629 metros e ainda ajudei a levar clientes ao topo do Vicuñas, de 6.088 metros, e também realizei minha segunda ascensão ao vulcão mais alto do mundo, o Ojos del Salado, com outros cinco clientes.


Infelizmente, uma forte tempestade impediu de realizarmos mais ascensões. Esta tormenta, pouco noticiada no Brasil, destruiu a cidade de Copiapó, no meio do Atacama. E o montanhista indiano Malli Mastan Babu morreu no campo base do Três Cruces, onde eu havia estado com o Edu alguns dias antes. O forte vento destruiu a barraca de Malli, que morreu congelado. Por pouco não fomos nós.


Com todas estas montanhas escaladas, cheguei à incrível marca de 32 cumes em montanhas com mais de seis mil metros nos Andes, ultrapassando meu amigo Waldemar Niclevicz e me tornando o brasileiro com mais experiência em montanhas desta altitude naquela cordilheira.


Estes dois últimos anos foram maravilhosos em termos de realizações ‘montanhísticas’. Escalei montanhas pouco usuais, que exigem, além de muita experiência, grande conhecimento logístico, uma vez que quase todas elas estão localizadas nos lugares mais remotos do planeta. Agradeço muito meus companheiros, em especial o Maximo Kausch e o Waldemar Niclevicz, dois dos melhores montanhistas da atualidade, além da Maria, que tem se tornado uma ótima e completa montanhista, escalando desde montanhas de altitude até paredes grandes na rocha. Espero poder manter este ritmo nos próximos anos e dar continuidade ao projeto de escalar montanhas com mais de seis mil metros nos Andes. Em minha opinião, um projeto ousado, de grande dificuldade técnica e logística e nunca antes realizado. Devo admitir que esta é uma ideia do Maximo, que é meu grande amigo e o atual recordista mundial em ascensões a estas montanhas."