Boa, paizão

Um guia para transformar seu filho em um grande parceiro outdoor


GRANDE PAI: O big rider Laird Hamilton com sua família

Por Tim Neville e Maria Fernanda Ribeiro

A LADAINHA É COMUM: “Eu costumava pedalar/esquiar/remar/viajar… Mas daí nasceram meus filhos”. A ideia de que virar pai significa desistir do esporte e da aventura pode até fazer sentido – simplesmente não dá tempo, né? Só que esse tipo de visão ajuda a destruir um dos maiores fatores de incentivo para que seu filho se torne um adulto ativo e saudável: o exemplo que você pode passar a ele como pai (ou mãe).

Um estudo realizado no ano passado pela Outdoor Foundation, uma organização norte-americana sem fins lucrativos, concluiu que 75% das crianças entre 6 e 12 anos que participam de esportes de aventura estão simplesmente copiando os hábitos dos pais. Em outras palavras, isso significa que a primeira atitude sensata como um pai outdoor é, claro, sair de casa. E depois? Siga as dicas abaixo e continue sendo um aventureiro – desta vez, com os pequenos a tiracolo.


1. Sempre leve os filhos junto

Porque carregar quilos extras vai te deixar mais forte

LOGO APÓS O NASCIMENTO DE SEU FILHO, você já pode começar a ensaiar os primeiros trekkings com o bebê. Para correr e pedalar, porém, as crianças primeiro precisam desenvolver os músculos do pescoço – isto é, a habilidade de segurar a cabeça com o capacete de bike –, o que geralmente acontece entre os 8 e 12 meses.

Trekking: Para saídas curtas com os bebês, uma boa opção é a mochila da Sling Tuiú (R$ 199; shoppingdosling.com.br). É superleve e respirável e você pode carregar o filhote na frente ou atrás. A marca oferece uma versão com “capuz”, que protege do sol.

Para passeios mais longos, a sugestão é a mochila Kid Comfort III, da Deuter (R$ 820, deuter.com.br), com dois compartimentos grandes para levar a bagagem do bebê e vários bolsos menores para guardar lanchinhos, mamadeira e agasalho extra. Possui fácil ajuste para as costas e vem ainda com um compartimento para sistema de hidratação. O parassol é vendido separadamente.

Corrida: Nesse caso, você precisa de um carrinho de bebê pró, que te livre dos perrengues enquanto dá sua corridinha a dois. O modelo GT3 Fortwo da Peg-Pérego (R$ 2 mil; pegperegobrasil.com.br) já vem com capa de chuva com abertura para facilitar a entrada de ar, uma bolsa que você pode usar para guardar a chave de casa, dinheiro ou protetor solar. O freio pode ser acionado com a mão.

Outra boa pedida é o Speedi Raven, da Quinny (R$ 2.390; quinny.com). É um dos mais leves do mercado, com sistema de freios que pode ser acionado pelas mãos, no guidão ou pelos pés. Ele dobra com facilidade para o transporte e já vem com parassol.

Bike: Para passeios curtos com pimpolhos de menos de 16 quilos, a cadeirinha Baby Bike da Kalf (R$ 150; kalf.com.br) pode ser instalada logo atrás do guidão da sua bike, permitindo à criança visão total da paisagem, em vez de deixá-la olhando suas costas.

Para crianças maiores e passeios mais longos, uma ótima invenção são os carrinhos que podem ser rebocados pela bicicleta dos pais. São mais seguros que as cadeirinhas de bike, pois ficam mais rentes ao chão, oferecem maior proteção e são fáceis de manobrar. O Baby Trailler (R$ 600; babytrailler.com.br) tem tudo isso e muito mais: protetor contra o sol, assento para duas crianças, amortecedores fortes e muito espaço para as compras do supermercado. Ele ainda pode ser convertido em carrinho de passeio sem a necessidade de ferramentas, desmonta facilmente e cabe no porta-malas do carro.

Multiesportes: Mova-se por aí com as crianças a bordo deste criativo carrinho da marca holandesa Taga (tagabikes.com). A novidade ainda não chegou ao Brasil, mas de repente pode ser uma boa compra em uma viagem ao exterior. Em alguns segundos a bike-carrinho se transforma em um triciclo para adultos e possibilita que você leve seu filho junto para pedalar – a criança é transportada confortavelmente na parte da frente. Como há diversos modelos de assento, é possível levar até duas crianças ao mesmo tempo. Chegou de bike no supermercado? Transforme-a num carrinho e vá às compras. A partir de US$ 1.500.

2. Com a mão na massa

Deixe os outros pais no chinelo com estas duas sugestões para a hora da brincadeira

Slackline: Caminhar por uma slackline – modalidade estilo “corda-bamba” em que se usa um pedaço de fita larga, geralmente da largura de um cinto de segurança, esticado entre dois pontos de ancoragem – requer equilíbrio e consciência espacial, duas qualidades muito úteis quando a criançada começar a surfar ou andar de skate. A Funline da Gibbon (R$ 329; gibbonslacklines.com.br) é ótima para os pequenos: é bem larga e vem com tiras de borracha antiderrapantes.

Casa na árvore: Em vez de comprar uma estrutura plástica pré- fabricada, construa você mesmo uma legítima casa na árvore. Especializados em livros do tipo “faça-você-mesmo”, os escritores norte-americanos David e Jeanie Stiles lançaram recentemente Treehouses and Other Cool Stuff: 50 Projects You Can Build [Casas na Árvore e Outras Coisas Legais: 50 Projetos para Você Construir, ainda não publicado no Brasil]. Custa US$ 14 pela amazon.com [sem taxa de entrega] e vem com instruções bem simples e práticas.

3. Pé na estrada

Crianças conseguem caminhar por mais tempo e maior distância do que você imagina

PRIMEIRA REGRA para viajar com crianças: não lhes dê muita escolha. “É bem melhor dizer ‘viajaremos nas férias, então se preparem’”, recomenda o fotógrafo e escritor norte-americano Aaron Teasdale, que decidiu com a esposa, Jacqueline, levar seus dois meninos de 11 e 7 anos para uma odisséia de seis semanas de mountain bike de Montana até o Banff National Park, no Canadá. A segunda regra é ter certeza de que eles estão preparados. Aaron a Jacqueline treinaram os pequenos em uma série de viagens curtas de bike, algumas com duração de um dia e uma noite.

Outra valiosa dica é “não planejar nada com horário fixo”, pois é bem provável que não dará tempo de fazer tudo o que foi pré-imaginado. “O importante é ajudar as crianças a se sentirem à vontade no novo ambiente, estimular a curiosidade e interesse pelo que há em volta e prestar atencão no comportamento delas para sentir se estão curtindo o passeio ou querendo voltar logo para casa”, diz o jornalista brasileiro Caio Vilela, que viaja pelo menos uma vez por ano com os três filhos, Tomás, 7, e os gêmeos Martin e Artur, 5. Em 2011, por exemplo, eles vão para o Reino Unido, em uma viagem temática e medieval, rodando os castelos e lagos com monstros. Caio.

Michael Benanav, fotojornalista norte-americano que levou seu filho de 4 anos à Índia, República Dominicana e México, avisa que crianças “podem ficar assustadas com coisas pouco familiares”. Indo para regiões muito quentes e selvagens? Primeiro, faça com que eles se acostumem a dormir sob um mosquiteiro em casa. Vai pro Japão? Ofereça algas e sashimi algumas vezes antes da viagem.

Quando chegar lá, não fique tentando seguir um roteiro fixo e não force demais a criançada. “Nós pedalávamos no máximo 6 horas por dia”, diz Aaron. “A gente parava para colher frutinhas, pescar, explorar cavernas e seguir borboletas. A viagem não tinha um objetivo ou distância pré-definidos.” (Já seu filho de 11 anos pensou diferente durante a trip: “Ele queria continuar até o Alasca!”, conta Aaron.)

Resumindo: deixe-os fazer o que quiserem, dentro, claro, da medida do possível. Michael costuma levar uma câmera portátil para o filho, para que ele a use enquanto espera por um ônibus ou avião. “Crianças adoram tirar fotos”, conta. “O pior dos mundos é forçar a barra num passeio, pois isso pode criar um ‘bode’ na criança em relação àquele destino ou tipo de viagem”, aconselha Caio. “Deixe-as livres para brincar e curtir os dias fora de seu habitat.”


4. Pule a fase das rodinhas

Já evoluímos muito desde aquelas boiazinhas de braço

Bike: Aposente as rodinhas. Em vez disso, arrume uma bike sem pedais, como a Skuut (US$ 92; skuut.com), feita de madeira, ou a Specialized Hot Walk (US$ 160; specialized.com), que é de alumínio e mais resistente. Uma versão feita no Brasil é a simpática Bichiclo (R$ 300; bichiclo.com.br). Esse tipo de bikezinha ajuda as crianças a entender como se equilibrar corrigindo a direção ou mudando o peso do corpo para se manter eretas. Quando seu filho estiver pronto para pedalar com os maiores, uma opção são as bikes infantis da Trek, desenhadas para permitir ajustes de tamanho em pontos-chave, como a altura do guidão e a posição dos pedais, para acomodar os estirões de crescimento (trekbikes.com.br).

Snowboard: Dez anos atrás, era comum dizer que não se ensinavam crianças a fazer snowboard antes dos 6 ou 7 anos, pois o controle motor nessa idade não estaria suficientemente desenvolvido. Não é mais assim. Graças às pranchas pequenas como a Hero Smalls da Burton (a partir de US$ 200; burton.com), que são mais curtas, macias e convexas (o que ajuda a não travar na neve), agora a molecada pode começar a praticar a partir dos 4 anos.

Remo: Curte canoagem? Aproveite o tempo com seu filho remando por aí. Não esqueça de comprar um colete salva-vidas infantil, como aconselha o atleta e treinador de canoa havaiana Alessandro Matero, o Amendoim. “O colete ideal é aquele que não fica solto no corpo e está de acordo com o peso do usuário. O colete solto sobe no pescoço e pode sufocar”, diz ele. Feito especialmente para os pequenos, o colete Acqua Baby da Hidro 2 (R$ 76; hidro2.com.br) tem fechamento fácil e é bem seguro, com um flutuador na região da cabeça. Seu filho parece forte o bastante para remar? Cuidado. Remos para adultos costumam ser muito grandes, o que pode causar sobrecarga nos ombros. Melhor você remar, enquanto a criança curte a paisagem. Quando ele estiver maiorzinho, compre um remo adequado ao tamanho dele.

5. Terceirize o treinamento deles

Tentar ensinar os próprios filhos é procurar problema

VOCÊ PODE ENCONTRAR ótimas escolinhas de esportes e de aventura para seus filhos. Um bom caminho para achar uma perto de você é perguntar em lojas especializadas em equipamentos outdoor, bicicletarias e academias. A Núcleo 16 fica em São Paulo e é uma escola de esportes de aventura para crianças e adolescentes, com aulas de canoagem, bicicleta e corrida. Além de você colocar seu filho para se exercitar, ele ainda se diverte com experiências ao ar livre.

No Rio de Janeiro, há várias opções de escolinha de mergulho para crianças a partir dos 8 anos, na piscina ou em águas abertas, como a DiversTec (diverstec.com.br). Há ainda outras especializadas em recreações ao ar livre, trilhas e escaladas, como a Kmon Adventure (kmonadventure.com.br) – junto com o treinamento, elas ainda têm noções de educação ambiental.

6. Liberte as ferinhas

Aceite: em algum momento, você vai precisar deixar seu filho se exercitar sozinho

PARA DEIXAR A SITUAÇÃO (um pouco) menos estressante, sua melhor estratégia é passar o maior tempo possível treinando lado a lado com o filho, para que os dois adquiram confiança nas habilidades dele. Então comece, devagarzinho, a lhe dar cada vez mais liberdade.

O norte-americano Eugene Buchanan, autor do livro Outdoor Parents, Outdoor Kids [Pais Outdoor, Crianças Outdoor, não publicado no Brasil] costumava deixar seu filho descer por uma pista de esqui, enquanto ele e sua esposa seguiam por outra, daí eles se encontravam na entrada do teleférico. Com o tempo, os pais começaram a soltar o menino, até que esquiar a manhã inteira sozinho passou a ser normal. “Essa liberdade progressiva não é boa só para as crianças”, diz o escritor. “Os pais também têm que aprender a soltar a meninada.”

Não há fórmula mágica para decidir quando seu filho está pronto para se aventurar sozinho. Uma pista é quando eles dizem que não estão totalmente preparados ainda para se virarem em determinada aventura. “É um sinal de maturidade a criança saber dizer ‘isto é perigoso’”, afirma a norte-americana Kristy Sturges, instrutora e dona de uma escola de caiaque nos EUA.

No fim das contas, filosofa o big rider Laird Hamilton – cuja filha Reece, agora com 7 anos, recentemente resolveu gostar de saltar de penhascos –, criar filhos aventureiros é mais ou menos como padecer no paraíso. “Mas uma hora você acaba se acostumando”, garante o surfista.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de agosto de 2011)