Waterwoman por natureza: os treinos da remadora brasileira Aline Adisaka

Por Alexandre Versiani

Aline viaja o mundo em busca de ondas perfeitas e precisa adaptar sua rotina de treinamentos. Na foto, ela dropa a rainha da série nas Maldivas. Foto: Hupa Ibrahim / Surf Maldives

As ondas, o remo e uma prancha. Para a paulista Aline Adisaka, a combinação desses três fatores já seria o suficiente para manter a saúde do corpo e da mente em dia. Mas, como uma atleta de alta performance, ela sabe que é preciso cumprir à risca uma exaustiva rotina de treinos e alimentação para brigar sempre pelo lugar mais alto do pódio.

Aos 31 anos, Aline vem de uma tradicional família de surfistas de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, mas se tornou referência mundial em outra modalidade de prancha, o stand up paddle (ou SUP), um dos esportes aquáticos que mais crescem no planeta.

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Acostumada a se aventurar pelo mundo em busca de ondas perfeitas, atualmente a heptacampeã brasileira e campeã sul-americana divide seu tempo entre Brasil, El Salvador e Havaí. No país da América Central, ela foi a anfitriã da equipe brasileira de surf no mundial da International Surfing Association (ISA) no evento que serviu como definição das últimas vagas para os Jogos Olímpicos de Tóquio.

Ao lado de profissionais do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), a remadora foi responsável por organizar toda a logística de estadia, alimentação e transportes, além do cronograma de treinos, competição e os testes de PCR da delegação, que contou com os campeões mundiais Gabriel Medina, Italo Ferreira, e outros nomes como Filipe Toledo, Silvana Lima, Tatiana Weston-Webb e Julia Santos.

Por estar sempre viajando, Aline Adisaka é obrigada a adaptar seus treinamentos ao lugar onde está hospedada. Assim, ela valoriza alternativas que não exigem equipamentos, como a ginástica natural, exercícios de mobilidade, funcionais e meditação, utilizando plataformas de aula online, como o aplicativo The Salty Club, da qual inclusive é embaixadora.

Aline Adisaka em momento descontraído no longboard. Foto: Ana Catarina.

A surfista também utiliza o Athlete Surf Performance, treinamento do preparador físico Allan Menache, o mesmo de Gabriel Medina. Dependendo de onde está, ainda complementa os treinos com SUP Race, corrida, natação, artes marciais, canoa polinésia e kitesurf. Aline também conta com o suporte de uma equipe multidisciplinar que inclui a nutricionista Larissa Castro, o preparador de musculação Allan Calmeda, o fisioterapeuta João Paulo e o endocrinologista Dr. Benjamin Rodrigues.

Única atleta do país a chegar à final no Mundial de SUP em três categorias diferentes (sprint, race e técnico) e com um currículo expressivo de conquistas no esporte, Aline tem a esperança de que a modalidade sprint (prova de velocidade em 200 metros), da qual é campeã sul-americana e tricampeã brasileira, entre em breve no cronograma olímpico. Há uma tentativa da ISA junto ao COI para que isso aconteça, já que os atletas poderiam utilizar a mesma raia da canoagem durante os Jogos.

Mas a brasileira não vive só de competição, ela faz parte de um seleto grupo de mulheres que dominam vários tipos de esportes com prancha, sendo considerada uma legítima “waterwoman”. Além de disposição para encarar ondas pesadas como Nazaré, Sunset e Laje da Avalanche, a top da elite mundial organiza viagens de treinamentos para compartilhar suas experiências em paraísos do surf, como as ilhas Maldivas e El Salvador.

Além disso, participa de expedições para ondas geladas e desconhecidas, como a travessia pioneira de 57 dias que fez de veleiro do extremo leste da Rússia até as ilhas Aleutas, no Alasca, que virou uma série no Canal Off chamada O Mundo Inexplorado. Há anos figurando entre as melhores surfistas de SUP do mundo, ela também se destaca na canoagem polinésia.

Enquanto torce para que as competições de stand up – bastante afetadas pela pandemia – voltem a preencher o calendário, Aline vem fazendo uma intensa pré-temporada em Ubatuba (SP), quintal de casa, onde também assumiu a responsabilidade de apoiar seu irmão mais novo, Daniel, de apenas 19 anos.

Para Daniel ela atua como uma espécie de filmmaker, técnica, agente e empresária. Ele já coleciona diversos títulos importantes nas categorias de base e é um dos grandes talentos do surf brasileiro. Antes de iniciar a sua temporada de viagens, Aline Adisaka conversou com a reportagem da Go Outside de sua casa no litoral norte paulista e compartilhou alguns dos segredos do seu treinamento.

Brasileira também organiza surf trips às Maldivas. Foto: Erik Aeder.

CRIE UMA ROTINA DE TREINOS ATÉ QUANDO ESTIVER FORA DA SUA ROTINA

“Se estou num lugar que tem onda, o surf de SUP é prioridade. Depois vem a pranchinha, o longboard ou qualquer outro tipo de prancha que eu queira surfar, mas o treino na água é o mais importante. Agora, se estou numa situação sem ondas ou se ainda está longe de um campeonato, dá para pegar mais pesado nos treinamentos físicos. Estou aproveitando este momento de verão, por exemplo, que não tem muita onda em Ubatuba, para pegar mais firme na musculação, que no decorrer do ano é o treino que não faço quando estou viajando. Mas considero a musculação muito importante: é a base para evitar lesões e fortalecer. Arrisco dizer que é a base para qualquer esporte, fundamental por uma questão de saúde mesmo. Também alterno os treinos de surf com SUP race, artes marciais, canoa polinésia, natação, bike, corrida e, quando tem vento, kitesurf. Tudo depende de onde estou e qual é o foco do momento.”

TREINOS ONLINE: SEM MODERAÇÃO

“Tem alguns treinos online que gosto bastante de fazer. Eles misturam funcional, mobilidade, alongamento, ginástica natural e meditação, trabalhando agilidade e bastante movimento. É bem completo. Esses exercícios todos eu posso fazer em qualquer lugar, sem equipamento nenhum, usando apenas o peso do meu corpo. É mais para a manutenção física e mental porque o importante é sempre estar em movimento. Tem dois treinamentos online que fazem parte da minha vida: o do The Salty Club, plataforma cheia de conteúdos relacionados a saúde e bem-estar, que aborda funcional, mobilidade, meditação, dicas de alimentação, receitas e podcasts; e tem outro que é o do Allan Menache, meu preparador físico, que tem um programa de treinamento mais específico para o surf, com muita mobilidade, funcional e alongamento. É excelente, pois posso fazer esses treinos em qualquer lugar do mundo somente acompanhando os vídeos online. Allan é o nosso “head coach” e direciona os treinamentos a outros profissionais que trabalham com a gente.”

INCLUA O DESCANSO NA PLANILHA

“Considero o descanso tão importante quanto o treinamento. Mas isso é uma das minhas maiores dificuldades porque tenho energia demais, quero fazer tudo e mais um pouco. Poderia dormir muito mais cedo para render mais nos treinos, mas às vezes vou para cama tarde. Por causa disso, de vez em quando bate um cansaço absurdo nos treinos, a imunidade cai rápido, sinto que não rendo tanto ou adoeço muito fácil. Quando dou uma freada percebo o quanto o descanso é importante e vejo a grande diferença que faz na minha performance e qualidade de vida.

Um pouco de yoga, alongamento, exercícios de mobilidade são coisas que eu consigo usar mais no descanso, porque não exigem tanta potência. Também tenho momentos de meditação, nada muito aprofundado, mas gosto de ter momentos de oração, de cuidar da parte espiritual também, que para mim é tão importante quanto treinos e descanso. Escrever é outra paixão e uma forma de descanso mental que encontrei para meu equilíbrio, pois quando paro para esse momento consigo ficar muito presente física e mentalmente. Na verdade, a maioria das coisas que faço é ao ar livre, e isso é uma espécie de meditação natural, eu me sinto muito conectada com Deus, comigo mesma. É um privilégio desfrutar da natureza e me sentir parte dela.”

ESCOLHA UMA DIETA QUE SE ENCAIXE NA SUA VIDA

“A minha nutricionista é a Larissa Castro, a mesma do Italo Ferreira. Ela é de Recife, e começamos a fazer um trabalho no fim do ano passado. Quando estou viajando, minha maior dificuldade é seguir a dieta à risca. Procuro o equilíbrio, mas quem me conhece sabe que eu gosto de comer tanto quanto gosto de surfar. Por isso o melhor dos mundos é esse período em que estou em casa, conseguindo focar, manter uma rotina, me alimentar bem, e aí é quando realmente consigo ter uma pré-temporada de qualidade. Normalmente faço uma dieta baseada na necessidade do momento.

Agora estou precisando baixar bem meu percentual de gordura, então a dieta é prescrita para este fim, mas sem cortar carboidratos, nada radical, já que preciso de energia para continuar treinando. Só tem um ajuste nas quantidades e distribuição equilibrada entre as refeições, adequada ao nosso objetivo. Estou fazendo uma dieta baseada nisso, mas nada que possa interferir na minha performance de treinamento e força. Eu também evito ao máximo comer carne vermelha, porque gosto e acredito muito na dieta à base de plantas, então sempre que posso optar minha escolha é vegana ou vegetariana.”

SE VOCÊ É DO MAR, TREINE APNEIA

“É um treinamento essencial e que eu até gostaria e deveria fazer mais. Mas apneia não dá para treinar sozinho, é necessário ter sempre alguém acompanhando de perto, por isso acabo não fazendo muito. No ano passado tive o prazer de passar o verão inteiro no Havaí, época de pouca onda no North Shore, então fiz muito treinamento com minha amiga havaiana Tiana Ahue, filha do Uncle Terry – o “chefão” dos guarda-vidas e do Hawaiian Water Patrol [equipe de segurança que atua em eventos aquáticos]. Nós, nossas amigas e até mesmo toda a comunidade do North Shore, como por exemplo John John Florence, Billy Kemper e Eli Olson, fazíamos os treinamentos dos salva-vidas em Waimea. É da cultura havaiana praticar apneia como treinamento no inverno. Ele consiste em nadar toda a baía de Waimea, correr pela areia e depois carregar uma pedra para o fundo do mar. Mas aí você nunca pode estar sozinho. No Havaí fiz bastante isso, foi uma experiência incrível; é bem divertido. Aqui no Brasil, agora no verão, gosto de nadar para o treino de cardio, quando não tem onda. Estou sempre ativa, nadando, remando e surfando, que é minha forma de me condicionar e meditar.”

INVISTA NAS ARTES MARCIAIS PARA TER MAIS CONCENTRAÇÃO

“Gosto muito de jiu-jitsu e muay thai, só não consigo fazer com muita constância a ponto de trocar de faixa. Lá no Havaí eu estava mais engajada, e sempre que tenho oportunidade faço no Brasil, porque é um treino que envolve não só o condicionamento físico, mas também muita concentração e agilidade. Para mim, concentração é um dos maiores desafios, e as artes marciais nos obrigam a estar muito concentrados, mas com agilidade ao mesmo tempo. Em Ubatuba tenho amigos que são lutadores e têm um programa de treinamento que mistura funcional e artes marciais, então eu gosto muito de treinar com eles.”

ENCONTRE SEUS MESTRES

“Há três anos, o Carlos Burle e o Alemão de Maresias me convidaram para passar uma temporada em Nazaré. Foi minha primeira vez por lá, e tive o suporte do Lucas Chumbo e da Maya Gabeira, que compartilharam grandes ensinamentos comigo. Foi extremamente especial essa primeira experiência em ondas grandes ao lado dos maiores surfistas dessa modalidade atualmente. Aprendi e continuo aprendendo muito com eles, que se tornaram meus mestres. Lá fiz tow-in e surfei de SUP. Foi a primeira vez que tive contato com ondas bem maiores mesmo.

Depois, no Havaí, peguei mares com um bom tamanho em Sunset e em Laje da Avalanche, que é um slab, bem diferente, desafiador, mas que eu gostei muito. Apesar de dar medo, eu amo surfar ondas grandes e slab, gostaria de poder me dedicar mais a isso, mas é necessário muito investimento financeiro e no momento estou focando na modalidade que tem chances de se tornar olímpica. Um dos meus maiores sonhos é me dedicar mais às ondas grandes. Quem sabe em breve, na hora certa, tudo no seu tempo.”

Trecho retirado da matéria “Um treino para chamar de seu”, originalmente publicada na revista Go Outside 172,

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