Como uma ex-fumante paulistana não apenas mudou de vida ao largar o vício como decidiu se lançar em um dos mais duros desafios de trekking do planeta: desbravar toda a Pacific Crest Trail, nos EUA

Por Fernanda Beck

DURANTE MAIS DE 30 ANOS, a advogada paulistana Rose Eidman, 52, fumou cerca de dois maços de cigarro por dia. Aos 48, após uma conversa franca com o filho, que não se conformava com o vício da mãe, ela decidiu parar, sem remédios nem adesivos de nicotina. O término de sua relação com o tabaco foi o gatilho para uma mudança radical de vida. Parar de fumar transformou sua rotina. Ela, que hoje é aposentada, começou a fazer atividade física para não engordar, mas logo o exercício sem nenhum objetivo se tornou chato. Então teve a ideia de se propor um desafio: percorrer o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. “Era um sonho antigo que eu considerava inatingível por não ter preparo físico”, diz. Deu duro, esforçou-se para melhorar o fôlego e cumpriu o prometido, completando os mais de 800 km do caminho em 31 dias, no final de 2014.

CAMINHO DAS PEDRAS: Rose na Sierra Nevada, seguindo em direção à passagem Muir

Durante a peregrinação, Rose fez novas amizades e, com o novo grupo de colegas, foi para a Grécia, em 2015, explorar trilhas nas montanhas, acampar e praticar canionismo, atividades às quais ela não estava acostumada. “Era tudo novidade para mim. No começo, sentia medo, mas topava mesmo assim”, conta. “Parar de fumar me mostrou que eu posso fazer tudo. Algumas coisas exigem mais esforço do que outras, mas tudo é possível.”

Antes mesmo da Grécia, Rose já havia começado a pesquisar outras trilhas do mundo, especialmente nos Estados Unidos. Ficou particularmente intrigada por uma das mais difíceis, a Pacific Crest Trail (conhecida pela sigla PCT), que cruza a Costa Oeste do país. São cerca de 4.260 km, passando por três estados, com altitudes que variam do nível do mar a 4.009 metros e paisagens extremas como o deserto de Mojave. É essa a trilha que serve de pano de fundo para o livro “Livre”, best seller de Cheryl Strayed que virou sucesso de bilheteria no cinema.

E lá foi ela encarar um dos desafios mais tretas para quem curte trekking. E tudo isso sozinha. Rose passou o último verão do Hemisfério Norte caminhando pela PCT. Após andar as 700 milhas iniciais (1.126 km), teve uma infecção renal, resultado da falta de água associada ao esforço extremo, sendo obrigada a fazer uma pausa. Voltou para o Brasil, se tratou e partiu novamente para a trilha, para enfrentar mais 600 milhas (965 km). Parou novamente quando o frio a impediu de seguir em frente. Nos 101 dias em que caminhou, Rose cobriu 2.136 km. Em junho do ano que vem, pretende voltar aos EUA para completar o projeto.

MARCO: Rose posa ao lado do totem oficial da PCT em Campo, a 50 metros de distância da fronteira com o México

A seguir, ela fala sobre a vida na trilha, explica como foi seu planejamento e sua estratégia para vencer tantos quilômetros e garante: “É uma experiência que te faz crescer muito. A trilha ensina que as coisas ruins te fortalecem, os obstáculos te deixam mais perseverantes e que tudo tem uma razão de ser”.

EM PARTES
“Fazer a PCT por partes é a estratégia mais comum. Muita gente divide o projeto em dois anos, mas mesmo assim não deixa de ser uma empreitada dura. Há trechos lugares muito difíceis de percorrer. Comecei na parte mais ao sul da Califórnia, na fronteira com o México, aí foram 700 milhas de deserto até Kennedy Meadows, onde você entra na cadeia montanhosa da Sierra Nevada. Como ainda havia muita neve quando cheguei lá, seria impossível eu me embrenhar nas montanhas, então decidi pegar um ônibus e subir até a milha 1.500, de onde comecei a descer (para cima desse ponto, a trilha ainda segue pelos estados do Oregon e de Washington). Mas tive uma infecção renal e voltei para o Brasil para me tratar. Na volta, queria continuar de onde havia parado, porém fazia muito frio e tive dificuldade para dormir. Depois das três noites tentando, resolvi parar. A trilha é perigosa, e se você não estiver descansado e atento, o risco sobe muito. Há muita cobra e lugares escorregadios. Ficou para o ano que vem.”

CAMINHO ÁRDUO
“A trilha é estreita, tem 40 cm de largura em média. Na maior parte do caminho, há montanha de um lado, e desfiladeiro de outro. Minha quilometragem diária era de 20 a 22 milhas por dia (32 a 35 km). Nas montanhas, a média caía um pouco, o que é normal, porque se tratam de subidas muito íngremes e descidas também acentuadas, reduzindo minha média para cerca de 12 milhas (pouco menos de 20 km).”

BÔNUS
“Como eu sabia que não teria chance de chegar até o fim da trilha neste ano, porque já estava começando a nevar, resolvi fazer a John Muir Trail [outra trilha célebre dos EUA, também na Sierra Nevada]. São 210 milhas (337 km), das quais 160 (257 km) fazem parte da PCT. É uma das trilhas mais lindas do mundo, entrecortando montanhas maravilhosas. Passa pelo Yosemite e pelo Sequoia Park, dois parques nacionais de visual deslumbrante. Vi muitos lagos, rios e cachoeiras, formados depois do degelo – na época de neve você não vê nada disso, pois está tudo congelado. Eu não tinha um objetivo definido, apenas andar até o frio ficar intenso demais. Meu primeiro objetivo era completar a parte das Sierras, pois era o momento ideal, sem neve, com menos perigos e problemas. Meu segundo objetivo passou a ser completar a JMT.”

ISOLAMENTO
“A trilha da PCT é totalmente dentro da natureza, não passa por nenhuma cidade. A logística é complicada, você manda caixas com comida e suprimentos para você mesmo, pelo correio, às vezes para uma agência do próprio correio, às vezes para algum motel ou hotel. É preciso saber quanta comida pôr na caixa, para onde mandá-la e quando. Eu só encontrava mais gente nestes momentos, quando ia buscar comida. Durante o dia, eu via pouquíssima gente. Cruzava com meia dúzia de pessoas, no máximo, e sempre as mesmas.”

IDÍLICO: O lago Cathedral, dentro da Sierra

MINIMALISMO
“Fazer uma trilha como a PCT te ensina a ser minimalista, e este é um ensinamento que você carrega para o resto da vida. Claro que fora da trilha é diferente, pois lá você está vivendo um extremo. Eu só tinha duas calcinhas, por exemplo. Depois cortei todos os exageros do meu dia a dia também. Não tenho duas sandálias pretas. Para quê? Posso ter quatro sandálias, mas uma tem que ser diferente da outra, coleção de coisas eu não faço mais. É muito lixo, as roupas são caras em um ano, no outro são lixo porque saíram de moda.”

NÉCESSAIRE VAZIA
“Meus itens de higiene pessoal eram bem reduzidos. Eu ficava vários dias sem tomar banho tranquilamente – meu recorde foram duas semanas. Não faz sentido levar desodorante. A gente acha que só fica fedido embaixo do braço, mas depois de uma semana sem banho o corpo inteiro cheira mal. Só tinha uma escova de dentes sem cabo, fio dental, uma minipasta e uma escova de cabelo também sem cabo. Além disso, remédios básicos, como analgésico e curativos. Espalhadas pelos arredores da trilha, existem as chamadas hiker boxes, que são caixas nas quais os trilheiros abandonam o que desistem de carregar. Todo mundo que passa pode usar. Nelas, sempre há itens como shampoo e condicionador. Você pega, usa e devolve o resto para a próxima pessoa encontrar. Essas caixas ficam em lugares onde há concentração de caminhantes. Peguei e deixei muita coisa nas tais caixas.”

SEM PATROCÍNIO
“Eu me preparei sozinha, sem a ajuda de nenhum patrocinador. E custeei tudo do meu bolso. Não foi um projeto milionário, mas certamente não é uma aventura baratinha. No Brasil, é raríssimo alguém conseguir apoio para esse tipo de expedição. Fiz algumas tentativas de patrocínio, fui atrás de permutas, e não de dinheiro, só que ninguém se interessou. O Instagram está cheio de gente patrocinada, mas que não faz nada além de malhar e escrever ‘Batata doce é vida’.”