O guia austríaco Lukas Furtenbach vai liderar uma expedição de uma semana até o topo do Everest este ano. Antes da escalada, ele e seus clientes inalarão gás xenônio, que, segundo ele, acelerará a aclimatação.
Imagine-se no seu escritório. Seu celular vibra com uma mensagem de texto: “Hora de ir!”. Você desce correndo para pegar um táxi que já o aguarda e segue direto para o aeroporto, onde embarca em um voo noturno para Katmandu. Ao aterrissar, entra em um helicóptero e sobrevoa os Himalaias até o Acampamento Base do Everest, onde os Sherpas conectam você a um sistema de oxigênio. Então, junto com seus guias, você escala a Cascata de Gelo do Khumbu, atravessa o Western Cwm, sobe a Face do Lhotse e continua até o cume, onde tira uma selfie triunfante. Depois, desce 3.475 metros de volta ao Acampamento Base, onde um helicóptero o leva diretamente ao aeroporto. Uma semana depois de receber a mensagem de texto, você já está de volta ao seu escritório.
Parece cena de um filme de ficção científica, certo?
Em maio, o montanhista e guia austríaco Lukas Furtenbach levará quatro clientes pagantes em uma expedição ao Everest muito parecida com essa. Toda a viagem, do início ao fim, durará apenas sete dias — cerca de um terço do tempo das expedições mais rápidas ao Everest oferecidas atualmente por empresas de guia. E é significativamente mais curta do que a maioria das ascensões guiadas ao pico mais alto do mundo, que geralmente duram entre seis e oito semanas. Nessas expedições tradicionais, os alpinistas realizam várias subidas de aclimatação para se ajustar à altitude extrema.
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“Nossa expedição abre o Everest para pessoas que não têm tempo livre suficiente para a experiência tradicional”, disse Furtenbach à Outside. “Estamos confiantes de que eles chegarão ao cume. Nossa reputação está em jogo, e nosso negócio seria impactado se falhássemos.”
Todos os quatro clientes são do Reino Unido, o que significa que iniciarão sua jornada praticamente ao nível do mar. Segundo Furtenbach, cada cliente pagará US$ 153 mil (cerca de R$ 876 mil) pela expedição. O segredo para esta velocidade: gás xenônio
Algumas semanas antes de viajarem para o Nepal, seus clientes irão a um consultório médico na Alemanha, onde usarão uma máscara semelhante a um sino de mergulho e inalarão gás xenônio. Estudos sugerem que esse gás inodoro pode proteger órgãos vitais do mal da altitude, além de estimular a produção de eritropoetina (EPO), o hormônio que impulsiona a geração de glóbulos vermelhos. Segundo Furtenbach, quando combinado com métodos tradicionais de aclimatação em casa, o gás xenônio pode tornar o corpo humano capaz de suportar as altitudes extremas do Everest.
“Estamos fazendo isso principalmente por segurança, como forma de prevenir o mal da altitude”, diz Furtenbach. “Isso não é um método de melhora de desempenho.”
O anúncio da expedição experimental de Furtenbach causou um alvoroço no mundo do montanhismo quando ele a divulgou em janeiro. Nas semanas seguintes, toda a indústria de guias e operadores de expedições teve que lidar com essa nova abordagem. Alguns guias apoiaram o procedimento experimental, outros o criticaram e alguns levantaram preocupações sobre sua segurança. Em 22 de janeiro, a Federação Internacional de Escalada e Montanhismo, uma organização global que defende os interesses dos alpinistas, publicou uma declaração contundente condenando a prática.
O episódio reacendeu o debate sobre a ética —ou a falta dela — nas escaladas ao Everest, levando alpinistas e guias a se perguntarem até onde se pode ir para aumentar as chances de alcançar o cume e quem realmente pertence à montanha.
“O velho ditado ‘Só porque você pode, não significa que deve’ se aplica bem a este contexto”, afirma o alpinista e cronista veterano do Everest, Alan Arnette.
“Nossa modalidade de expedição permite que pessoas sem tempo livre suficiente para a experiência tradicional tenham acesso ao Monte Everest.” – Lukas Furtenbach
Quem é Lukas Furtenbach
Lukas Furtenbach, 47 anos, fundou sua própria empresa de expedições, a Furtenbach Adventures, em 2014. Ele fez sua primeira ascensão ao Everest dois anos depois. Atualmente, sua empresa lidera expedições para 12 dos 14 picos do mundo com mais de 8.000 metros, além dos Seven Summits, os pontos mais altos de cada um dos sete continentes.
Sua companhia se destaca pelo uso de inovações tecnológicas que aumentam a segurança e o sucesso na chegada ao cume. Durante as escaladas, seus clientes usam dispositivos que monitoram a frequência cardíaca e a saturação de oxigênio. Além disso, recebem altas doses de oxigênio—oito litros por minuto—nas ascensões em grandes altitudes. Em 2024, Furtenbach levou 40 clientes pagantes ao topo do Everest.
“Ele é um dos guias mais empreendedores do Everest”, diz o autor Will Cockerell, cujo livro Everest, Inc., lançado em 2024, investiga a indústria do montanhismo. “Ele é jovem, ambicioso e parece querer atrair um público mais amplo de alpinistas.”
Em 2017, Furtenbach lançou sua expedição FLASH, de três semanas, que exigia que os participantes usassem tendas hipóxicas em casa por oito semanas antes da escalada. Essas tendas simulam um ambiente com pouco oxigênio, ajudando os alpinistas a se prepararem para o ar rarefeito dos Himalaias.
O próprio Furtenbach atuou como cobaia para testar seus métodos, incluindo o mais recente, que envolve o uso de gás xenônio. Desde 2019, ele vem experimentando o gás em seu próprio corpo. Naquele ano, o médico alemão Michael Fries entrou em contato com Furtenbach e propôs que ele testasse o gás para avaliar seu impacto na escalada. Ele aceitou. Uma semana após o tratamento, viajou para a Argentina, pegou um helicóptero até o Acampamento Base do Aconcágua, com 6.961 metros de altitude, e chegou ao cume no dia seguinte.
“Foi surpreendente como funcionou bem — eu me senti muito bem na montanha”, conta Furtenbach. “Não tive problemas com a altitude.”
Furtenbach percebeu o potencial da técnica para expedições ao Everest. Em 2021, antes da temporada de primavera, ele fez novamente o tratamento com xenônio e planejou escalar o Everest junto com seus clientes da expedição FLASH. Ele subiu o Mera Peak, de 6.476 metros, sem dificuldades e então se preparou para o Everest. Mas um surto de COVID no Acampamento Base o obrigou a cancelar a escalada.
Em 2022, ele retornou após novos tratamentos com xenônio. Desta vez, não estava sozinho—um cinegrafista e um guia também fizeram o tratamento. O trio chegou ao topo do Mera Peak e do Everest sem dificuldades. O tempo total, de porta a porta, desde sua casa em Innsbruck, foi de apenas 16 dias. Foi então que Furtenbach teve a ideia da expedição de uma semana ao Everest.
“Minha frequência cardíaca e a saturação de oxigênio estavam iguais às dos guias que haviam se aclimatado com tendas de altitude”, disse ele. “Eu sabia que, com a logística certa e o suporte de oxigênio suplementar, uma semana era possível.”
Furtenbach planejava testar a expedição de uma semana no Everest em 2023, mas um projeto de filmagem no qual estava envolvido atrapalhou seus planos. Em 2024, enfrentou outro contratempo quando os dois clientes que fariam a viagem experimental desistiram por problemas de agenda. Assim, ele mais uma vez testou o método em si mesmo e escalou o Everest pelo lado tibetano.
“Foi meu quinto teste, e conseguimos observar um aumento de 10% no meu hematócrito”, diz Furtenbach, referindo-se à porcentagem de glóbulos vermelhos no sangue. “Isso é equivalente ao que se obteria passando oito semanas na altitude durante uma expedição tradicional ao Everest.”
“A ascensão tradicional e comprovada é uma jornada espiritual. Gostaria que as expedições pudessem durar mais.” – Garrett Madison
O gás xenônio pode melhorar o desempenho do corpo em altitude?
Durante um tratamento com xenônio, Lukas Furtenbach se senta em uma clínica e coloca uma máscara conectada a um ventilador. Inicialmente, o aparelho libera oxigênio puro, mas, ao longo de 30 minutos, começa a adicionar gradualmente o gás xenônio.
“Você começa a se sentir um pouco tonto, mas não é uma sensação ruim, e não há gosto nem cheiro”, diz Furtenbach. “Após cerca de 25 minutos, você desliga o aparelho e se sente perfeitamente normal, como se nada tivesse acontecido.”
No entanto, ainda há um debate sobre se o gás realmente ajuda o corpo humano a enfrentar as altitudes extremas das montanhas mais altas do mundo. A pesquisa sobre os efeitos do xenônio inalado em humanos ainda está em estágios iniciais.
Em 2014, a revista The Economist publicou um relatório inovador sobre o programa de doping russo durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi. O relatório afirmava que atletas russos inalavam gás xenônio para aumentar a capacidade do sangue de transportar oxigênio — o mesmo princípio usado por ciclistas profissionais que recorrem à eritropoetina (EPO) no Tour de France. No mesmo ano, a Agência Mundial Antidoping (WADA) incluiu oficialmente o xenônio na lista de substâncias proibidas para competições olímpicas.
Dois experimentos, conduzidos em 2016 e 2019, buscaram quantificar o quanto a inalação de xenônio poderia aumentar a capacidade do corpo de transportar oxigênio. Ambos os estudos mostraram que o gás aumentava a produção de EPO e de plasma sanguíneo em poucos dias. No entanto, nenhuma das pesquisas conseguiu comprovar se isso resultava em uma melhora real no desempenho físico.
O estudo de 2019 concluiu: “A inalação de xenônio não aumentou a aptidão física nem melhorou o desempenho atlético e, considerando os sintomas adversos associados à dosagem, nossos resultados não apoiam o uso do xenônio como um agente modulador da eritropoiese nos esportes.”
Xenônio contra os perigos da altitude
Furtenbach também aponta outro possível benefício do xenônio—o gás pode prevenir edema pulmonar de alta altitude (HAPE) e edema cerebral de alta altitude (HACE). A pesquisa do Dr. Michael Fries sugere que o xenônio protege o cérebro e os pulmões em ambientes de baixa oxigenação. No entanto, os experimentos de Fries foram realizados em animais, e críticos argumentam que esses testes ainda são inconclusivos.
“Os estudos dele são interessantes, mas nunca foram feitos em humanos para avaliar a proteção contra a hipóxia”, diz o Dr. Peter Hackett, montanhista e especialista em pesquisas sobre altitude. “Há uma grande diferença entre estudar roedores e porcos e aplicar esses resultados em seres humanos.”
Mesmo assim, Furtenbach afirma que os testes que realizou consigo mesmo o convenceram da eficácia do xenônio. Ele contou à revista Outside que, no dia seguinte à inalação do gás em 2019, fez sua escalada usual deski touring perto de sua casa, em Innsbruck. “Fui sete minutos mais rápido sem fazer nenhum esforço extra”, afirma. “Medimos meu hematócrito e vimos que o aumento dentro de cinco a oito dias foi dramático.”
Além disso, Furtenbach destaca que o tratamento com xenônio é apenas um complemento à aclimatação tradicional que seus clientes da expedição FLASH já realizam antes de encarar o Everest. Assim como os clientes do programa de três semanas, os participantes da expedição de uma semana passarão oito semanas dormindo em uma tenda de altitude antes da viagem. Eles também farão uma série de treinos atléticos em ambiente hipóxico antes da expedição.
“O xenônio é apenas um dos componentes”, diz Furtenbach. “Com a aclimatação por meio de sistemas hipóxicos, é possível alcançar um nível de adaptação igual ou até superior ao que ocorreria em altitude real na montanha.”
“Temos que fazer tudo o que for possível para tornar a escalada o mais segura possível. E se o uso de oxigênio ou outros gases torna o cliente mais seguro, então é isso que faremos.” – Lukas Furtenbach
Críticos se manifestam contra o oso de xenônio
Lukas Furtenbach conversou pela primeira vez com a Outside em dezembro de 2024 e previu que sua ideia provavelmente causaria controvérsia no pequeno mundo dos guias do Everest.
“Eu sei que haverá críticas”, disse ele. “As pessoas vão dizer que é doping. Vão dizer que isso não é mais montanhismo de verdade.”
A reação foi ainda mais dura e intensa do que ele imaginava. Em 22 de janeiro, a Federação Internacional de Escalada e Montanhismo divulgou uma declaração condenando o uso do xenônio. O comunicado questionava a ciência por trás da utilização do gás para aclimatação e também levantava um dilema ético sobre o uso de uma substância proibida pela Agência Mundial Antidoping (WADA).
“A aclimatação à altitude é um processo complexo que afeta diversos órgãos e sistemas, como o cérebro, os pulmões, o coração, os rins e o sangue, de maneiras diferentes e ainda não totalmente compreendidas”, dizia o comunicado. “Como as mudanças fisiológicas levam dias ou semanas para afetar o organismo, do ponto de vista fisiológico, um único medicamento administrado de uma só vez não pode ser a chave para uma melhor aclimatação ou aumento do desempenho.”
No entanto, nem todos no mundo do montanhismo são tão críticos. Em entrevista ao site austríaco Der Standard, a lenda do alpinismo Reinhold Messner — o primeiro a escalar o Everest sem oxigênio suplementar — chamou o método de “fantástico”.
“Acho brilhante que Furtenbach tenha percebido o que o xenônio pode fazer pelo montanhismo em grande altitude”, disse Messner. “Parabenizo-o pelo sucesso.”
O uso do xenônio e a ética no montanhismo
Furtenbach minimizou as questões éticas envolvendo o uso da substância. As regras da WADA não se aplicam ao montanhismo, e clientes e guias já utilizam uma série de substâncias para melhorar artificialmente seu desempenho na montanha, sendo o oxigênio engarrafado o exemplo mais notável. Alguns alpinistas também levam dexametasona—ou DEX—um esteroide anti-inflamatório que ajuda a mitigar os sintomas do mal de altitude.
Furtenbach afirma que o xenônio não é doping, mas sim uma medida de proteção semelhante ao uso de oxigênio suplementar.
“Somos pagos para ser responsáveis e cuidar da vida de nossos clientes”, disse ele. “Precisamos fazer tudo o que for possível para tornar a escalada o mais segura possível. E se o uso de oxigênio ou outros gases tornar o cliente mais seguro, então é isso que faremos.”
Ainda assim, a federação de montanhismo não foi a única a criticar o uso do xenônio por Furtenbach. Ao longo de janeiro, outros guias do Everest também se manifestaram contra o novo método. O guia neozelandês Guy Cotter disse à Outside que considera o uso de xenônio para ascensões “nada mais do que uma jogada de marketing”.
“Minha opinião sobre essa proposta de usar xenônio para subir o Everest é: por que tanta pressa?” disse Cotter em um e-mail à Outside. “Uma ascensão ao Everest, quando feita corretamente, é uma das aventuras mais incríveis do planeta.”
O guia britânico Kenton Cool disse ao Financial Times que, embora respeite Furtenbach, não recomendaria o método aos seus clientes. “Talvez isso seja um reflexo da sociedade moderna, onde queremos tudo para ontem e ninguém está disposto a esperar”, afirmou.
O guia americano Garrett Madison fez coro a essa opinião. Madison também oferece expedições rápidas em outras montanhas, mas acredita que a jornada tradicional de seis semanas ao Everest oferece muito mais do que apenas o momento no cume.
“A ascensão tradicional é uma jornada espiritual”, disse Madison à Outside. “Você absorve a cultura do Nepal e do povo sherpa e realmente conhece esse ambiente incrível. Eu gostaria que as expedições pudessem durar ainda mais.”
Ascensões rápidas ao Everest: revolução ou risco?
Madison disse que a expedição de uma semana é apenas o próximo passo na evolução do Everest como um destino de viagem para a lista de desejos. “Por que não simplesmente voar até lá de helicóptero, tocar o topo e dizer que fez isso?”, ironizou.
Furtenbach rebateu as críticas em uma série de e-mails para a Outside: “Para aqueles que têm tempo e flexibilidade para passar oito ou dez semanas em uma expedição, eu os parabenizo pela oportunidade de se imergirem em uma nova cultura e ambiente no seu próprio ritmo”, escreveu. Ele também ressaltou que sua empresa, Furtenbach Adventures, oferece tanto a expedição tradicional de oito semanas ao Everest quanto as versões de três e, agora, de uma semana.
“Todos devem ser livres para escolher o estilo e a duração da expedição, com tolerância para diferentes abordagens, desde que ninguém mais seja prejudicado ou colocado em risco”, acrescentou.
Expedições rápidas aumentam os riscos?
Ainda assim, permanecem dúvidas sobre se as expedições rápidas ao Everest aumentam o risco para os alpinistas. Guias entrevistados pela Outside enfatizaram que paciência é uma virtude no Everest, especialmente em anos em que o clima apresenta desafios. Atualmente, centenas de alpinistas sobem a montanha ao mesmo tempo para aproveitar as estreitas janelas de bom tempo. Aqueles que fazem a expedição tradicional de oito semanas podem esperar a multidão diminuir antes de atacar o cume.
Os guias também destacam que as caminhadas de aclimatação no Everest ajudam os clientes a desenvolver o chamado mountain sense — uma percepção aguçada do ambiente da montanha, essencial em situações de emergência. “Há muito a ganhar ao passar mais tempo na montanha no que diz respeito à preparação geral”, disse Madison. “Você se adapta ao frio e ao vento. Aprende a rota. Ganha noção de onde está na montanha.”
Especialistas também expressaram preocupação de que os alpinistas em ascensões rápidas possam ter menos chances de sobrevivência caso percam acesso ao oxigênio engarrafado acima dos 8.000 metros—a chamada “zona da morte”. Nessa altitude, o corpo humano não consegue mais absorver oxigênio suficiente para se manter vivo.
“Um alpinista que está no Everest há seis semanas e já fez múltiplas rotações até o Campo II ou III—se o oxigênio dele acabar, ele estará em apuros, mas não morrerá tão rapidamente”, explicou Dr. Hackett.
Furtenbach discorda dessa avaliação e argumenta que a aclimatação feita em casa é tão eficaz quanto aquela realizada na montanha. Ele afirma que seus clientes receberão oxigênio suplementar “assim que fizer sentido” e que a expedição de uma semana terá uma proporção de um guia para cada alpinista ou, no máximo, dois para um. Segundo ele, essa alta proporção garantirá que os clientes tenham acesso constante ao oxigênio e recebam a ajuda necessária em caso de emergência.
Além disso, Furtenbach minimiza os temores de que a rota do Everest possa, no futuro, ficar congestionada por alpinistas em expedições rápidas. Ele explica que essas viagens serão sempre um produto de nicho devido ao seu alto custo e à preparação intensiva que exigem.
“A expedição de uma semana sempre será um serviço exclusivo”, escreveu ele em um e-mail. “Definitivamente, não é adequada para todos e exige uma preparação tão extensa, além de recursos logísticos e financeiros tão significativos, que nunca poderá se tornar um produto de mercado de massa.”
“Os guias ocidentais sabem o quanto é difícil competir com os nepaleses. Eles precisam lutar para manter seu espaço na montanha, e uma forma de fazer isso é sendo mais inovadores.” – Will Cockerell
Por que as ascensões rápidas ao Everest estão se tornando populares?
A ascensão de uma semana proposta por Furtenbach representa o capítulo mais recente na história em constante evolução do montanhismo guiado na montanha mais alta do mundo.
No livro Everest Inc., Will Cockerell documentou a rápida ascensão das empresas nepalesas de expedição ao Everest e a outros picos de 8.000 metros. Empresas como 8K Expeditions, Asian Trekking e Seven Summit Treks agora dominam a indústria de guiamento no Everest, em parte porque oferecem alternativas mais acessíveis em comparação com expedições lideradas por guias europeus e norte-americanos.
Atualmente, um cliente pode tentar chegar ao cume do Everest por menos de US$ 40 mil com uma empresa nepalesa — metade do valor cobrado por guias ocidentais. Algumas dessas empresas chegam a levar entre 50 e 100 clientes ao Everest por temporada.
“Os guias ocidentais sabem como é difícil competir com os nepaleses”, diz Cockerell. “Eles precisam lutar por seu espaço na montanha, e uma das formas de fazer isso é sendo mais inovadores.”
Cockerell vê o crescimento das expedições rápidas como um reflexo da dinâmica do mercado. Furtenbach, assim como o guia britânico-americano Adrian Ballinger, foram alguns dos pioneiros na utilização de tecnologias de pré-aclimatação para ascensões aceleradas. Em 2006 e 2007, Furtenbach liderou expedições aos picos Cho Oyu (8.188m) e Broad Peak (8.051m), exigindo que os alpinistas usassem tendas hipóxicas para se prepararem. Em 2012, Ballinger organizou uma expedição ao Makalu (8.485m) que durou apenas um mês — um tempo notavelmente curto na época. Ele também usou tendas hipóxicas para aclimatação prévia. Depois, Ballinger começou a oferecer expedições rápidas ao Cho Oyu e, posteriormente, ao Everest. Outras empresas ocidentais seguiram a tendência.
“Os nepaleses estão movimentando números enormes nesses picos, então faz sentido que outras empresas passem a focar em clientes de alto padrão, oferecendo tipos diferentes de expedição”, explica Cockerell. “A inovação sempre será mais cara por natureza.”
Segundo Cockerell, a variedade crescente de durações e preços das expedições ao Everest mostra que a montanha está se tornando cada vez mais acessível para um público mais amplo. Os tempos em que apenas montanhistas experientes ou pessoas extremamente ricas tentavam escalar o pico—como nos anos 1980 e 1990—estão ficando para trás. Assim como aconteceu com as maratonas e o Ironman, escalar o Everest está rapidamente se tornando uma atividade mais popular.
“Ainda não existe um jeito fácil de escalar o Monte Everest—de uma forma ou de outra, os alpinistas vão sofrer para chegar ao topo”, diz Cockerell. “O que os guias e as empresas fizeram foi criar diferentes versões desse sofrimento. Agora, podem atender um público muito mais diverso.”
“Mas, independentemente do estilo da expedição, todos ainda precisam descer da montanha do mesmo jeito que Reinhold Messner fez”, conclui.