Está se sentindo mais lento nos treinos? A culpa pode ser das redes sociais

Por Alex Hutchinson, da Outside USA

homem com celualr na mão usando as redes sociais na academia
Foto: Freepik

Novos dados exploram as conexões complexas entre redes sociais, a fadiga mental e o desempenho atlético.

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No que diz respeito a manchetes, “Redes sociais fazem mal” já não surpreende muita gente. Dizem que o TikTok e similares prejudicam a saúde mental, sufocam a criatividade, corroem a privacidade, alimentam a desinformação, comprometem a segurança nacional e por aí vai. Todos esses são problemas sérios e dignos de um debate cuidadoso. Mas há um risco mais específico e tangível que te pode interessar: e se as redes sociais estiverem nos deixando mais lentos?

Um estudo recente publicado no European Journal of Sport Science, conduzido por Carlos Freitas-Junior, da Universidade Federal da Paraíba, e seus colegas, apresenta dados sobre o que acontece quando atletas passam um tempo rolando a tela do celular antes dos treinos. Surpreendentemente, isso não afeta apenas aquela sessão específica de exercícios. Com o tempo, os atletas apresentam ganhos menores de desempenho. As descobertas nos dizem algo sobre as redes sociais — e também sugerem que os benefícios de um treino podem depender, em parte, do estado mental em que estamos ao realizá-lo.

Os problemas das redes sociais

Diversos estudos ao longo dos anos analisaram o uso das redes sociais por atletas. O mais famoso, de 2019, foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Stony Brook, nos Estados Unidos, que encontraram uma relação entre tweets publicados tarde da noite (como eram chamados na época) e o desempenho no dia seguinte de jogadores da NBA. Se os atletas tuitavam depois das 23h, no dia seguinte tendiam a marcar menos pontos, pegar menos rebotes e ter menor precisão nos arremessos.

Pode-se argumentar — corretamente — que o problema aqui é a privação de sono, e não as redes sociais em si. Mas outros estudos encontraram relações diretas entre o uso de aplicativos como o TikTok e os padrões de sono de jovens atletas, sugerindo que a raiz do problema está nos próprios apps. Pesquisas também associaram o uso de redes sociais ao bem-estar mental e até a transtornos alimentares em atletas, fatores que impactam diretamente o desempenho esportivo.

Esses impactos indiretos nem sempre são óbvios: o estudo que apontou que o TikTok prejudica o sono também descobriu que o Instagram estava associado a uma maior sensação de calma, por exemplo. Mas há uma preocupação mais imediata: os aplicativos de redes sociais nos deixam mentalmente fatigados, o que compromete diretamente nossa resistência e capacidade de tomar decisões.

O debate sobre fadiga mental

O estudo que deu início à discussão moderna sobre fadiga mental no esporte foi um experimento de 2009, conduzido pelo pesquisador Samuele Marcora. Ele mostrou que 90 minutos de uma tarefa cognitiva desafiadora em um computador reduziam a resistência no ciclismo em cerca de 15%, em comparação com 90 minutos assistindo a um documentário.

Outros estudos vieram depois, investigando diferentes tipos de fadiga mental e seus efeitos em diferentes modalidades esportivas. Muitos confirmaram os resultados de Marcora, mas nem todos. Uma das grandes questões em aberto é até que ponto essas descobertas se aplicam à vida real. Se alguém tiver que fazer uma prova ou declarar impostos antes de correr uma maratona, isso provavelmente será prejudicial. Mas e as atividades normais do dia a dia — como rolar o feed das redes sociais? Elas causam fadiga mental suficiente para afetar o desempenho?

Em 2021, um estudo com nadadores descobriu que 30 minutos de uso de redes sociais prejudicavam os tempos nos testes de 100 e 200 metros estilo livre, mas não nos 50 metros. Outro estudo apontou que boxeadores tomavam piores decisões após usar redes sociais, mas seu desempenho em saltos não era afetado. Já outra pesquisa não encontrou nenhum impacto do uso de redes sociais no desempenho de treinos de força. Esses resultados são consistentes com um padrão geral encontrado em pesquisas sobre fadiga mental e fatores relacionados, como a privação de sono: com motivação suficiente, ainda é possível exercer força máxima, mas a tomada de decisões e a resistência podem ser comprometidas.

O que mostram os novos dados

O novo estudo de Freitas-Junior analisou jogadores de vôlei, testando seu desempenho em saltos e sua “eficiência no ataque”, uma medida de quão forte e preciso um atleta consegue golpear a bola em uma sequência de ataques. O diferencial do estudo foi analisar os efeitos a longo prazo, em vez dos imediatos. Durante três semanas, 14 atletas passaram meia hora antes dos treinos usando Facebook, WhatsApp e Instagram ou assistindo a documentários sobre a história das Olimpíadas. Depois desse período, seu desempenho foi avaliado e, em seguida, os grupos foram trocados e o processo foi repetido por mais três semanas.

Ao final dos três períodos, o desempenho nos saltos não apresentou alterações em nenhuma das condições, mas a eficiência no ataque foi pior após as três semanas de uso de redes sociais. A diferença foi estatisticamente significativa, mas, para ser honesto, os dados não são muito convincentes.

Para começar, vejamos os dados sobre fadiga mental. Eles mostram o quanto, em média, a percepção subjetiva de fadiga mental (no eixo vertical) aumentou após assistir ao documentário (DOC) ou usar redes sociais (SMA).

A line graph quantifying athletes' mental fatigue
Fadiga mental dos atletas antes e depois de assistir a um documentário e antes e depois do uso de redes sociais. Ilustração: European Journal of Sports Medicine

Os dados são bem claros. Assistir ao documentário aumentou a fadiga mental percebida em quase todos os indivíduos. O uso de redes sociais aumentou ainda mais, com resultados igualmente consistentes entre os participantes. Podemos dizer com segurança que as redes sociais aumentam a fadiga mental em comparação com assistir a um documentário.

Agora, vejamos os dados sobre eficiência no ataque, medidos em unidades arbitrárias (quanto maior o número, melhor o desempenho).

A black and white line graph quantifying athletes' attack efficiency
Eficiência no ataque dos atletas antes e depois de assistir a um documentário e antes e depois de usar redes sociais. Ilustração: European Journal of Sports Medicine

Dessa vez, os dados individuais são bastante dispersos. A análise estatística indica que, em média, o grupo que usou redes sociais teve pior desempenho, enquanto o grupo que assistiu ao documentário melhorou. Esse efeito médio pode ser real ou não — apenas mais estudos, com amostras maiores, poderão confirmar. Com base nas pesquisas anteriores, eu apostaria que o efeito é real. No entanto, a variação individual é tão grande que eu hesitaria em usá-lo como base para recomendações a atletas. Alguns indivíduos melhoraram após o uso das redes sociais. Isso pode ser um acaso ou pode indicar que essas pessoas têm uma relação mais saudável com os aplicativos, a ponto de um tempo no celular antes do treino colocá-las em um melhor estado mental.

No fim das contas, a narrativa não é tão simples quanto gostaríamos. Não é que as redes sociais sejam sempre prejudiciais, que causem fadiga mental e automaticamente roubem os ganhos do treinamento. Ainda assim, há uma mensagem valiosa aqui. O que fazemos — seja usar redes sociais, interagir no mundo real, ler um livro, ouvir música, trabalhar, nos deslocar ou até sonhar acordado — afeta nosso estado mental e nossa prontidão para o desempenho. Cada pessoa responde de forma diferente, então não existe uma lista universal do que fazer ou evitar. Mas vale a pena descobrir o que te coloca no estado mental certo e te deixa energizado, para que você possa replicar isso quando realmente importa.