Nem a perda de um braço em um ataque de tubarão tirou a determinação da surfista Bethany Hamilton – agora mãe e estrela de um documentário

Por Susan Casey*

Palavras importam. Em especial quando se escreve sobre Bethany Hamilton. O mundo conhece bem a história de como um tubarão mudou a vida dessa havaiana em 2003, ao arrancar seu braço esquerdo enquanto ela surfava no North Shore de Kauai. A menina tinha 13 anos e era uma grommette (gíria para surfi stas bem jovens) talentosa e com uma promissora carreira. As descrições daquele encontro usam invariavelmente palavras como vítima e tragédia, mas Bethany declarou que nenhum dos rótulos se aplicava ao seu caso.

Inclusive quando a mídia se referia a ela como “a garota mordida pelo tubarão” e tentava categorizá-la como uma atleta de capacidade reduzida, Bethany, agora com 28 anos, nunca pensou em si mesma assim. “Eu era tão jovem e resiliente, um cavalo de batalha diante do que aparecesse no meu caminho, que a perda do meu braço se mostrou apenas um obstáculo um pouco mais difícil de superar.”

O que não quer dizer que tenha sido uma experiência fácil. Da próxima vez que você se sentir tentado a se jogar em um mar de lamentações, tenha isto em mente: Bethany perdeu 60% do sangue do seu corpo naquele dia. Menos de um mês depois do incidente, a garota já estava dentro do oceano novamente, reaprendendo a surfar – para compensar o fato de remar com apenas um braço, ela bate as pernas, e seu pai montou uma espécie de maçaneta na prancha que permite passar a arrebentação dando joelhadas. Em dois meses, ela voltou a competir. Bethany venceu um campeonato nacional em 2005 e se tornou profissional em 2007.

Ao longo dos últimos cinco anos, Bethany se casou; estrelou um reality show nos Estados Unidos chamado The Amazing Race junto com seu marido, Adam Dirks; venceu um campeonato profissional feminino em Pipeline, na ilha de Oahu, uma onda que já matou pelo menos 11 pessoas; e pegou tubos em Teahupoo, um break no Taiti ainda mais perigoso que Pipeline. Em 2014, voou até Bali para praticar técnicas de surf em Padang Padang – uma onda vertiginosa e veloz onde ela caiu e se ralou muitas vezes – e acabou mandando um front side air-reverse de 360 graus que ela chama de “a coisa mais desafiadora que já fiz”. O primeiro filho do casal, Tobias, nasceu em 2015; Wesley, em março de 2018.

A sequência de conquistas de Bethany é contada no documentário Unstoppable, recém lançado nos EUA. O filme alterna cenas épicas com pequenos momentos da rotina: amamentando Tobias entre as baterias das competições, surfando em breaks em Kauai, levantando peso grávida de Wesley.

O filme também revela o que realmente distingue Bethany: seu core de titânio. Ela faz até cinco horas por dia de cross-training, combinando surf, natação, intervalados de alta intensidade, cama elástica, pilates, tiros na praia e corrida debaixo da água carregando pedras. Talvez essa tenacidade venha da sua devota fé cristã ou talvez tenha sido conquistada com esforço. Mas o documentário deixa claro que Bethany é uma atleta determinada, que não tem medo da dor e é acostumada a alcançar os objetivos mais surpreendentes.

Em 2016, Bethany identificou um grande swell nos mapas meteorológicos e foi para Maui em busca de uma das ondas mais formidáveis do mundo: Jaws. Entrou no mar com a ajuda de um jet-ski, alcançando uma onda de mais de 12 metros. Depois aumentou o grau de dificuldade e entrou remando sozinha em outra onda gigante. Levou vacas memoráveis, mas voltou à arrebentação e pegou uma das melhores ondas do dia. Bethany ri ao descrevê-la: “Foi provavelmente uma das sessões de surf mais assustadoras de toda a minha vida, mas foi tão divertida ao mesmo tempo”.

Tobias não tinha nem um ano quando ele e seus pais desembarcaram em Fiji, após Bethany ter sido convidada a competir no Fiji Pro, evento da Liga Mundial de Surf. Poucos esperavam que ela aparecesse. Brigando pela 3ª colocação, Bethany superou Stephanie Gilmore, seis vezes campeã mundial, e Tyler Wright, competidora top do ranking pro tour feminino. “Isso realmente não era esperado”, escreveu a revista Sports Illustrated.

Depois do desempenho de Bethany em Fiji, o ícone do surf Kelly Slater declarou que “estava absurdamente impressionado”. A lenda do surf de ondas gigantes Laird Hamilton (nenhuma parentesco com ela) disse: “Bethany é uma surfi sta de alma, e seu desejo e amor pelo esporte permitem que ela faça coisas que nem surfi stas com todos os membros conseguem”.

Mesmo com filhos pequenos, Bethany não está desacelerando. “Quero turbinar meu surf aéreo, que me desafia e entusiasma”, diz. Recentemente, ela e Adam publicaram um livro infantil, Unstoppable Me. Em breve, ela lançará um app para mulheres com dicas de treinamento, nutrição e outros conselhos. O sistema industrial de alimentação dos Estados Unidos, segundo ela, devastou nosso bem-estar. “Precisamos saber o que estamos fazendo a nós mesmos e ao planeta ao comer.”

“É tipo assim… preciso ter sempre um desafio”, confessa, rindo. Talvez seja por isso que as pessoas ficam tão comovidas com a sua história. Todos precisamos de um desafi o de vez em quando, mas aqueles que os encaram com encanto e determinação nós costumamos chamar de heróis.Essa palavra combina perfeitamente com Bethany.

*Texto publicado originalmente na Revista Go Outside, edição nº 155, out/nov de 2018.

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