Dia Mundial do Turismo e a emancipação das mulheres na estrada

Foto: Reprodução / Rawpixel

Como o turismo virou ferramenta de autoconhecimento e empoderamento para as mulheres ao longo dos anos.

Por Evelyn Rachid

Durante séculos, a mulher viveu limitada a cuidar do lar e se dedicar com certa exclusivamente à maternidade. Foi considerada frágil, inapta para cuidar dos seus próprios bens, a ter a tutela dos filhos ou ter acesso à educação. E acredito que não é preciso nem mencionar sua exclusão nas questões políticas como direito ao voto e sua independência financeira e sexual.

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Foi somente durante a I e II Guerra Mundial que as mulheres começaram a ocupar espaços no mercado de trabalho. Enquanto os homens iam para a guerra, as mulheres passaram a assumir os negócios de família e cargos administrados anteriormente por homens.

Mas isso não foi suficiente para que elas pudessem ter sua emancipação completa.

O Brasil é o quinto país mais populoso do mundo e as mulheres são mais da metade da população. Ainda assim, os dados de representatividade e igualdade não são nada animadores.

Elas ocupam apenas 15% dos assentos no congresso, ainda ganham 23% a menos que os homens e o Brasil está na 5° posição do ranking mundial de feminicídio.

Antigamente, para que uma mulher desfrutar do turismo, era necessário que seu marido apresentasse um passaporte com identificação de ambos, ou seja, era importante mostrar que a mulher em questão estava acompanhada de seu marido durante a viagem, independente de qual fosse o destino.

Em uma entrevista ao National Geographic, o historiador em media da Universidade de Northwestern e autor do livro The Passaport in America, Craig Robertson, contou que independente do estado civil da mulher, fazer uma viagem sozinha era algo bem “atípico e fugia às normas convencionadas à época”.

como as mulheres viajavam antigamente
Uma mulher detém-se a observar o funcionário de um posto de abastecimento de combustível em Washington D.C., em 1920. Embora algumas mulheres brancas recorressem ao automóvel particular como alternativa às normas rígidas que regulavam o uso do transporte público, as mulheres negras tinham de se fazer valer do Livro Verde do Automobilista Negro, publicado em 1936, para saber quais os locais onde lhes era permitido parar em segurança para abastecer o depósito do veículo, em Jim Crow South. FOTOGRAFIA DE EDWIN L. WISHERD.

Mas já em 1920 haviam mulheres que gostavam de fazer seus roteiros sozinhas, principalmente porque elas não queriam ter um passaporte em nome do marido. Uma das mulheres que marcou esse período foi a jornalista Ruth Hale, fundadora da organização Lucy Stone League em 1921, que lutava pelos direitos das mulheres. O lema da organização era:

“Uma esposa não deve usar o nome de seu marido mais do que ele deve ter o dela. Meu nome é minha identidade e não deve ser perdida.”

Uma outra história registrada na linha do tempo é a de Ida B. Wells, uma jornalista afro-americana, sufragista, feminista e socióloga, que realizava viagens sozinha de forma regular. Em 1880 ela processou uma companhia de caminhos de ferro após ser rechaçada de uma carruagem de primeira classe exclusiva para mulheres. Ela ganhou a ação, mas o Supremo Tribunal do Tennessee anulou a sentença. E em 1890, quando os passaportes começaram a ser obrigatórios, Ida acabou tendo o seu negado pelos Estados Unidos, por conta da sua fama de “agitadora racial”.

Livro America: First, Fast and Furious de Letitia Stockett. Foto – Reprodução

Assim como o direito ao voto, viajar não era uma realidade igualitária entre mulheres brancas e negras. As mulheres de classe média nos anos 1920, tinham acesso a automóveis e podiam percorrer o país com as amigas, por exemplo.

A escritora Letitia Stockett chegou a lançar um livro na época, sobre as aventuras ao volante, que acabou recebendo o título America: First, Fast and Furious – até parece que ela teve um presságio sobre uma das maiores sequências do audiovisual sobre carros da atualidade, né?!

Apesar da diferença de séculos, atualmente as mulheres ainda são criticadas por fazerem suas próprias escolhas.

Recentemente, a modelo Cíntia Dicker, foi criticada nas redes sociais depois que compartilhou com os seguidores que estava viajando sozinha a trabalho para o México, sem o marido, o surfista Pedro Scooby, e os enteados.

Algumas mensagens que Cíntia Dicker recebeu em seu Instagram. Foto: Reprodução / Arquivo pessoal.

Cíntia recebeu diversas críticas negativas para sua decisão, indicando que a atitude não estava correta. “Se toca, vai viver ao lado do marido e dos filhos. Tanto tempo longe de casa, tá maluca?”, disse uma seguidora, e outra ainda questionou “será que os enteados vão te reconhecer?”.

Para algumas pessoas (incluindo mulheres) o assunto ainda é um grande tabu, o que comprova que, mesmo que as mulheres tenham conquistado seus direitos básicos com muito sufoco e luta, elas estão longe de viver uma vida plena e sem julgamentos. Principalmente na era digital.

Mas, ainda que no meio de tanta desaprovação, barreiras e perigos que as cercam, elas preferiram não se esconder, e encontraram no turismo sua emancipação de outras amarras. Com o mochilão nas costas e o pé no mundo, elas foram se reconhecendo na sociedade e em si, ampliando suas escolhas de serem lembradas fazendo histórias ao invés de serem reduzidas apenas a tarefas domésticas, de procriação e submissão.

A criadora de conteúdo, Michelle Alves (27), dona do maior canal do YouTube sobre intercâmbio, contou que a vontade de viajar surgiu ainda na infância.

“A vontade de viajar veio desde sempre. Quando eu era mais novinha eu peguei uma caixa de sapatos, cortei algumas paisagens que achei em revistas antigas, fiz uma colagem e escrevi na caixa “me ajude a viajar”, e aí toda visita que aparecia em casa eu ia com a caixa pedir dinheiro pra pessoa”, relembrou ela com carinho. “Essa era a maneira que eu tinha encontrado para tentar juntar dinheiro de alguma forma”.

Mas o sonho só aconteceu anos depois, aos 21 anos, quando ela se viu meio sem propósito dentro da rotina que estava inserida. Foi no programa de intercâmbio de Au Pair que ela viu a oportunidade de se aventurar.

“Eu vi aquilo como, primeiramente, algo para me desligar um pouco da vida que eu estava levando, que tava numa rotina tipo, acorda, vai pro trabalho, vai pra faculdade, volta e um looping infinito. E eu meio que estava sem propósito e não estava vendo muita alegria naquilo. E aí quando veio a ideia do intercâmbio eu juntei todas as minhas forças, moedas e dinheiros, e consegui. E foi muito louco, porque já foi pra ficar um ano fora”, contou.

O programa de intercâmbio de Au Pair é voltado principalmente para mulheres, onde elas ganham a oportunidade de trabalhar, estudar e vivenciar outra cultura durante o período de um ano. Além das vantagens culturais, o programa conta com um bom custo-benefício para quem deseja viajar, mas não tem tanta grana para investir.

A criadora de conteúdo conta que, apesar da preocupação, a reação da sua família foi bem positiva quando ela contou que passaria um ano fora do país, realizando o intercâmbio.

“Meus pais são separados, então na época era só eu e minha mãe. Até ela conversar com a minha host family, até eu chegar lá e falar que estava tudo certo, acho que ela não sossegou. Mas eu vi mais um retorno positivo deles de tipo “cara, que legal que pela primeira vez alguém da nossa família está fazendo isso”, do que um “não, não vai” ou “não, não concordo”. Eles me deixaram bem livre para fazer as minhas escolhas”.

Depois de dezoito meses fazendo intercâmbio como Au Pair, Michelle já conheceu 20 países de lá pra cá e para ela, mesmo sempre focando em se divertir e viver novas experiências, se manter segura está sempre em primeiro lugar.

“Já entrei na imigração e o cara que estava lá ficou olhando pros lados e perguntando “tá, mas quem está com você?” e eu tipo “tô sozinha””, contou ela. “E já ouvi comentários tipo “por que uma menina tão bonita vai viajar sozinha” ou “tem certeza que você está sozinha?”, como se eu não pudesse curtir minha própria companhia, sabe?”

E ela ainda confessa que procura mudar um pouco seu comportamento, para manter sua segurança durante toda a viagem: “às vezes eu tento falar baixo, para que outras pessoas do voo não saibam se estou sozinha ou não. É difícil, por mais que eu ame viajar, eu tenho que ter esses cuidados, de tipo, com quem eu vou falar que estou ali sozinha, por mim mesma”.

Mulheres no turismo

O turismo é um setor que gera muita renda e empregos mundo a fora, e entre os brasileiros isso não seria diferente. Esse nicho movimenta diversas indústrias como as de aviação, hotelaria, gastronomia, entretenimento e entre outros. Em resumo, ele por si só consegue trazer grandes impactos para mais de 50 setores do mercado.

mulheres no turismo
Mulheres no turismo. Foto: Rawpixel

Ele também é preenchido na sua maioria por mulheres, mas é difícil vermos essa presença feminina em cargos superiores.

Na sociedade, no geral, as mulheres ocupam apenas 48,5% dos postos de trabalho no mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), e 43,8% no Brasil, de acordo com o IBGE.

Para Michelle esse setor ainda tem muito a crescer, principalmente para as mulheres. Para ela, o turismo precisa enxergar as mulheres como um dos públicos-alvo mais fortes.

“As mulheres são as que mais viajam e as que mais movimentam o turismo, porque querendo ou não, por mais que tenha muito tabu sobre isso, são as mulheres que querem viajar sozinhas para se descobrir, mais do que os caras”, apontou.

De acordo com a revista Harvard Business Review, o número de mulheres que viajam sozinhas aumentou em mais de 230% na última década e, segundo o relatório do World Travel Market, 8 em cada 10 mulheres latino-americanas estão dispostas a viajar sozinhas nos próximos anos.

Para ela seria incrível poder ver mulheres mais a frente dessa pauta, debatendo mais sobre o turismo para mulheres, junto com agências, Secretaria do Turismo, trazendo melhorias e pensando nas mulheres como viajantes, para que se possa ter mais segurança, acomodações adequadas e uma estrutura melhor.

“Eu acho que ainda tem muito para desenvolver. Por mais que eu veja que as mulheres viajantes em si já desenvolveram, acho que agora é o em torno que precisa acompanhar essa evolução.”

Aprendendo a lidar com a crise existencial

Nós crescemos, conhecemos e experimentamos coisas diferentes, e no meio do percurso acabamos ficando insatisfeitos, seja com a vida pessoal, profissional ou acadêmica. Estar insatisfeito significa querer desafios e aventuras (mesmo que nossa vida esteja organizada e tranquila), e tudo isso é consequência da crise existencial.

A psicóloga Jéssica Rosa (29), conta que isso acontece principalmente em momentos que podemos considerar como nossas “situações limites”, como por exemplo o desemprego ou quando não estamos satisfeitos com algum projeto que estejamos desenvolvendo.

A crise existencial pode atingir qualquer pessoa, sem distinção de idade ou gênero, mas não tem ligação necessariamente com a depressão. Essa é uma fase que pode ser até interessante, se você souber tirar bom proveito dela.

“A crise existencial é mais consequência das nossas experiências sociais, do que propriamente de um distúrbio psicológico. A depressão é um distúrbio afetivo, e tem como sintoma a tristeza, desânimo, pessimismo e também há alterações químicas no cérebro, por isso sempre é indicado que o tratamento seja realizado com um psicólogo e um psiquiatra”, explica.

“Qualquer pessoa está sujeita a passar por uma crise existencial, e acredito que os jovens sejam os que mais “sofrem” com isso, justamente pela quantidade de estímulos e possibilidades que temos hoje em dia. Temos o mundo muito mais próximo do que há 20 anos atrás”, conclui.

O turismo como ferramenta de autoconhecimento

Foi o tempo que viajar era algo apenas para curtir as férias e desligar um pouco a cabeça das preocupações e obrigações do dia a dia. Para além disso, a viagem virou uma ferramenta para quem deseja não apenas conhecer o mundo, mas também se encontrar de alguma forma nele, curar feridas, se desafiar e aprender a conviver com os próprios demônios.

No audiovisual temos vários filmes sobre a temática, com mulheres que acabaram de passar por um momento bem complicado, e tomam a decisão de viajar para se redescobrirem e entenderem seu propósito, como “Thelma & Louise”, “Comer, Rezar, Amar”, “Livre” e o recente “Nomadland”.

Esses são apenas alguns dos longas-metragens que marcam jornadas de mulheres da ficção e inspiram a jornada de mulheres da vida real.

A Thais Bellotto (27), fundadora da empresa de viagens para mulheres, Daya Trips, conta que o empreendimento surgiu da sua necessidade de autoconhecimento, em um momento em que ela tinha crises de ansiedade muito fortes, e estava na procura por ferramentas para ajudar a passar por esse processo.

A terapia, yoga e o surf foram algumas ferramentas que ela encontrou para iniciar seu processo de autoconhecimento durante aquele período de crise.

“As sensações que tudo isso foi me dando, foi mudando a perspectiva da minha própria vida. E eu falava ‘gente isso é muito bom e as pessoas precisam saber que essas ferramentas existem’ e que você pode fazer alguma coisa em relação ao que você está sentindo”, contou.

Thais é formada em Comunicação e desde 2012 trabalha no setor, e foi quando ela começou a se sentir sufocada pela rotina, sentindo o ‘chamado’ para a mudança. Em março deste ano, em conversa com uma amiga, ela decidiu criar a agência de turismo, que unifica duas coisas que gosta muito: viagem e autoconhecimento.

“Eu sempre quis trabalhar com mulheres e ter um projeto voltado para mulheres, mas não sabia por onde começar, não sabia se eu tinha muito talento, não sabia o que eu podia fazer no mundo para ajudar” relembrou ela, “mas foi aí que a gente começou a pensar ‘e se a gente juntasse essas duas coisas, será que funciona?’ e foi quando começou a dar muito certo.”

agência de viagem só para mulheres
Agência de turismo Daya Trips. Foto: Reprodução / Arquivo pessoal.

A Daya Trips tem como foco principal ressignificar experiências de viagens para mulheres, unindo vivências incríveis à jornada de autoconhecimento de cada cliente. Tudo isso através de ferramentas como yoga, meditação, esportes e contato com a natureza. Os retiros são ligados com atividades que proporcionam acolhimento, transformação e empoderamento.

O propósito da Daya vem desde o nome, que em sânscrito significa “empatia, leveza”. A cor roxa vem para marcar a transmutação e transformação que cada retiro visa oferecer, e o solzinho reafirma a iluminação, vitalidade, espiritualidade e força que as mulheres podem encontrar durante a viagem.

Dentre as dinâmicas propostas para cada vivência, a astrologia se faz bem presente no conceito da empresa, e dentre uma dessas vivências com as mulheres, onde a astróloga fez o mapa astral de cada uma, Thais conta que também viveu um momento muito forte e emocionante durante o retiro.

“Todas as vivências são muitos especiais. Mas teve uma em específico que eu chorei muito, que foi a vivência “O Céu Fala Sobre o Seu Propósito”, e a gente trabalhou com astrologia. A astróloga fez o meu mapa e conversou comigo sobre ele, e as coisas casavam e faziam muito sentido”, relembra. “Inclusive ela falou que o meu propósito de vida e a minha missão é de fato trabalhar com mulheres nesse lugar de espiritualidade, e foi o momento que eu pensei ‘acho que eu tô no caminho certo'”.

Para quem deseja se aventurar nesse turismo de autoconhecimento, a Daya vem trazendo propostas diferenciadas do mercado, oferecendo um serviço feito por mulheres, para mulheres. Na sua página no Instagram, é possível conhecer um pouco melhor sobre cada dinâmica abordada, próximas vivências programadas e até registros de retiros anteriores.

Se joga no turismo, se joga no mundo!

Mulheres no mundo todo já buscaram sua independência em diversos âmbitos da vida, e aquelas que sentem o ‘chamado’ para a mudança, saem de suas casas para buscar isso na estrada, no turismo. As aventuras podem ser numerosas, e independente de onde elas estão, é impossível se sentirem sozinhas, porque quando as portas do mundo se abrem, é difícil não encontrar em cada canto uma ajuda quando se precisa, uma companhia, felicidade e sentimento de pertencimento a cada esquina.

“Tem muito mais gente legal do que gente ruim no mundo.”

Mas para a emancipação na estrada não é preciso ir muito longe, e um primeiro passo muito importante é aprender a lidar com a própria companhia, como ressaltou Michelle.

turismo de autoconhecimento
Criadora de conteúdo Michelle Alves. Foto: Reprodução / Instagram.

“Não veja a solidão como algo triste. Eu acho que a gente ter esses momentos sozinha é mais um privilégio pra ter essas sensações de liberdade. Então é importante ressignificar para realmente gostar da sua companhia, e você pode aprender isso estando na sua casa, na sua cidade; se levando para jantar, se levando para fazer um piquenique. Eu acho que a gente precisa aprender a se bastar primeiro.”

Para Thais, se jogar no mundo também é transformador, mas tem que ser feito com segurança.

“Não tenha medo. Quebrar barreiras é sempre desconfortável, mas faz a gente crescer. Ao mesmo tempo, faça isso de forma segura. A gente precisa entender a nossa realidade, não basta ter só cara e coragem pra viajar o mundo, a gente precisa entender qual contexto que a gente tá e fazer o que é preciso para estar segura e viver isso de forma positiva”, alertou Thais.

turismo de autoconhecimento
Fundadora da agência de viagens Daya Trips, Thais Bellotto. Foto: Reprodução / Instagram.

“Então se joga, vai viver porque cada vez o mundo é mais nosso, tem muito mais gente legal do que gente ruim no mundo. Você sempre acaba conhecendo muita gente legal durante o caminho, tem sempre outra mulher disposta a te ajudar”, finaliza.