Adriano Sampaio vive para caçar rios. Salvar cursos d’água, resgatar o conhecimento ancestral de populações indígenas e encontrar formas de driblar o massacre da urbanização de uma megalópole como São Paulo são parte de seu dia a dia. Atualmente ele é permacultor e um dos maiores ativistas pela causa da água na região. Graças a ele, a capital tem visto renascer pedaços importantes de sua natureza.

Por muitos anos, esse paulistano de 48 anos com raízes familiares no interior do Brasil trabalhou como corretor. “Eu vendia seguro de saúde, fui ótimo nisso, mas cansei. Não trazia mais alegria. Abri mão de tudo.” A transição não se deu de forma repentina – na verdade, foi quase um reencontro com as origens, já que a família é toda da Chapada Diamantina, na Bahia. “Meu avô era pescador. Quando minha família tinha terra na Chapada, meu pai já fazia captação de água de rio. Quando criança, eu já fazia meus laguinhos no quintal da avó, mas por muito tempo achei que na cidade não tinha como praticar isso.”

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Em 2013, o ativista morava no bairro da Pompeia, perto da praça Homero da Silva, na zona oeste de São Paulo. Na época, a praça estava abandonada, tomada por matagal e lixo. Ele já fazia parte do coletivo Ocupe e Abrace, responsável por uma porção de iniciativas chamando a atenção para as questões ambientais na cidade. “Foi quando fiz meu primeiro lago com uns amigos. Aconteceu meio que como um estalo”, conta o ativista ambiental.

Moradores antigos do bairro já sabiam da existência da nascente na praça, mas, com o processo de urbanização, a água era perdida, e os funcionários da secretaria do meio ambiente se mostravam um pouco resistentes a intervenções ambientais. “Eu e um amigo fizemos o lago na surdina, em dois dias. Quando viram pronto, aceitaram a ideia”, conta. Hoje o cenário lá é totalmente diferente: o espaço de 12.000 metros quadrados tem um lago com peixes, alimentado por algumas das 13 nascentes do córrego Água Preta, além do retorno de pássaros e biodiversidade. Foi totalmente regenerado com o trabalho da comunidade e apoio do poder público. E tudo começou com o laguinho cavado à base de enxada, intuição e paciência até a natureza reaver seus cursos e fluxos.

TERRA RENOVADA: Ao trabalhar com índios guaranis na recuperação de nascentes no Pico do Jaraguá, Adriano mostrou que mudanças profundas são possíveis mesmo em cidades como São Paulo

Quase profeticamente, Adriano começou a achar nascentes pela cidade um ano antes da gravíssima crise hídrica que assolou o estado de São Paulo entre 2014 e 2016. Ao mesmo tempo que uma seca severa baixava os níveis das reservas do Sistema Cantareira, junto com a falta de providências de infraestrutura – o que poderia afetar o abastecimento de cerca de 20 milhões de pessoas – ele começou um trabalho de caça de nascentes, formação de lagos e revitalização de cursos d’água.

“Logo depois da recuperação da praça, que hoje é mais conhecida como Praça da Nascente do que pelo nome original, nosso coletivo já estava caçando os caminhos da água e comecei a me interessar cada vez mais.” Para dar uma ideia da importância desse resgate, um estudo feito com uma das 13 nascentes identificou vazão de 1.360 litros por hora – a quantidade mínima por pessoa, segundo a ONU, é de 110 litros/dia. Um estudo da SOS Mata Atlântica sobre nascentes e córregos, em 2015, identificou que na região metropolitana de São Paulo o único local com IQA (Índice de Qualidade da Água) classificado como “bom” era justamente o das nascentes da Praça Homero Silva. Dá para imaginar como seria a cidade se elas tivessem sido preservadas, ou se fosse decidido recuperar seus principais cursos d’água? Beber uma água pura que nasce da terra no mesmo bairro que você vive, em vez de ela viajar enterrada por centenas de quilômetros de encanamentos antigos e malcuidados?

O ativista já registrou mais de cem nascentes até então desconhecidas na cidade. O trabalho começou nos bairros centrais de São Paulo, mas com o tempo foi ficando evidente que nas áreas periféricas havia um potencial enorme de recuperação ambiental. Cada descoberta é filmada e fotografada, e os registros são compartilhados na página Existe Água em SP, no Facebook, que agrega uma comunidade de voluntários e interessados no tema. O projeto Rios & Ruas, criado pelo geógrafo Luiz de Campos Júnior e pelo arquiteto e urbanista José Bueno, estima entre 300 e 500 os rios soterrados pela urbanização.

“O ativismo ambiental deve começar pelas bordas da cidade. É onde se encontra espaço físico para esse tipo de intervenção. É ali onde ainda existe um pouco de natureza, terrenos baldios, além de diversidade de gente. Na periferia, podemos achar rios que não foram canalizados, além de bicas e nascentes que a própria comunidade local cuida”, explica Adriano. Ele ainda acrescenta que, quando falta água, esses são os primeiros lugares a serem atingidos. “Um líder comunitário consciente acaba protegendo a nascente, porque sabe seu valor. Cabe ao poder público fazer a análise dessa água para garantir a qualidade para consumo, e não canalizar tudo para não ter que se responsabilizar, como é feito hoje.”

MUDANÇA DE VIDA: Permacultor e ativista ligado à água e a causa indígena, Adriano consegue atuar muito mais nas bordas da cidade, onde mora hoje, por ser um espaço anda mais maleável às transformações

Esse olhar para a margem se refletiu na mudança de endereço. Hoje ele mora no bairro de Vila Clarice, aos pés do Pico do Jaraguá, onde muitos paulistanos vão todos os fins de semana para treinar na bela subida em meio à mata atlântica, com flora preservada, macacos e jacus. Os moradores mais antigos de lá são os indígenas guarani, em uma aldeia ao lado do parque estadual do Jaraguá, ponto mais alto da cidade, com 1.135 metros. É com eles o maior vínculo de Adriano hoje. “Os povos indígenas se tornaram outra causa minha. A relação com os guaranis é de afeto. Não é só um trabalho, é uma relação de amizade”, conta. Adriano vem trabalhando em um sistema de lagos nas terras da aldeia, que abrigam dezenas de famílias. Apesar de estarem dentro da cidade, eles mantêm muito do seu modo de vida tradicional. As crianças, por exemplo, aprendem guarani antes do português, e a comunidade cultiva roças tradicionais de subsistência. Adriano conta que, certa vez, sonhou que estava andando com um guarani de cabelos brancos. “Ele me mostrou o lugar exato onde eu deveria procurar uma nascente. No dia seguinte fiz um buraco no exato local. Dei a primeira enxadada e já vi que era viável abrir o lago ali. Fui embora, e então choveu. Quando voltei, tinha guarus lá, peixinhos que se chegaram de outros riachos próximos”, conta. Segundo ele, é um processo lento explicar para a sociedade e para o poder público que dá para regenerar a cidade com estratégias que não sejam cimentar tudo, como as técnicas ancestrais indígenas. “Precisamos abrir a mente para aprender a ouvir e entender o fundamento de conhecimentos milenares e ancestrais.”

Antes da reintegração de posse da aldeia, boa parte da área foi desmatada para a plantação de eucaliptos, o que empobreceu o solo e assoreou os cursos d’água, que levarão alguns anos para serem completamente recuperados. “Criamos na aldeia um complexo de lagos interligados para a piscicultura. O rio estava totalmente assoreado, os peixes sumiram. O espaço físico do leito do rio foi ocupado por matéria orgânica, depois por capim e taboas”, conta Adriano, que começou a escavar com a orientação do cacique da aldeia. “Muita gente achou que seria impossível recuperar aqueles cursos d’água sem maquinário pesado, mas o cacique disse que, com técnicas ancestrais e observando o ciclo da água, seria possível.”

Quando os lagos estiverem prontos para isso, serão introduzidos peixes como lambaris, tambaquis, tilápias e pacus e plantas aquáticas, com dinheiro de uma vaquinha que arrecadou os fundos para esse objetivo em tempo recorde. A longo prazo, a meta é que esse sistema vivo de lagos sirva a todas as seis aldeias – os guaranis vivem em pequenos agrupamentos de algumas famílias por local, espaçados na região – até que as cerca de 800 pessoas possam usufruir da reconexão com os lagos e garantir o direito de manter a alimentação tradicional com pesca e hortas de milho, batata-doce e mandioca.

Para Adriano, o maior ganho vai muito além da recuperação dos lagos por si só e do objetivo de melhorar a segurança alimentar da aldeia com peixes que possam prover sustento diário. “Estamos nos reconectando com o ciclo da água. É preciso ter paciência, entender que se trata de um trabalho realizado com a mão, com a enxada. Para os guaranis é um trabalho muito espiritual. Água é um ser sagrado, é viva”, conta.

Um dos aspectos mais importantes do trabalho de ativismo com a água, com os indígenas e com a permacultura (sistema de princípios agrícolas e sociais que reproduz características de ecossistemas naturais) é o aspecto coletivo de transformação social. Só vendo o que o renascimento de rios e lagos faz é que as pessoas começam a entender a importância disso, a regeneração da vida na cidade. Quando chegam os bichos, os pássaros, os peixes, os sapos, quando muda microclima, as pessoas param para contemplar. “Os peixes reduzem a dengue porque comem as larvas do mosquito, as crianças se ligam ao lugar. É onde eu quero chegar: fazer com que as pessoas se sensibilizem e façam suas próprias contribuições para o meio ambiente”, diz Adriano. Cidades como São Paulo agradecem.

*Reportagem publicada originalmente na Revista Go Outside, edição nº 160