Bike parks e escolas de MTB ganham força no Brasil

Por Redação

Foto: @robelinky / @zoombikepark.

O MTB tem origem nas trilhas de terra da Califórnia (EUA). No final dos anos 60, adolescentes começaram a se jogar morro abaixo em velhas bicicletas.

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Chamadas de “clunkers”, essas bicicletas velhas usadas pelos garotos californianos acabaram por criar um novo esporte.

Crianças de todas as idades, de todas as partes do mundo, foram aos poucos descobrindo o MTB. Quando os anos 1990 chegaram o esporte já era tão popular que chegou aos Jogos Olímpicos.

Na última semana, o site Aliança Bike reuniu duas lendas do MTB no Brasil: Luciano “KDra” Lancellotti e Marcio Prado para falar um pouco sobre o esporte e a popularização dos bike parks no país.

Pioneiro do bike park no Brasil:

Marcio Prado, fundador do Zoom Bike Park.

O menino Marcio Prado descobriu o MTB aos 15 anos, ainda nos anos 1990. Sonhou em ser atleta, mas a necessidade de trabalhar cedo acabou mudando seus caminhos. A paixão pela bicicleta, no entanto, se manteve firme.

Morando em Campos do Jordão, Marcio viu que suas trilhas de fim de semana estavam cada vez mais ameaçadas. O excesso de motocicletas, o mau uso e até mesmo questões fundiárias se tornaram ameaças ao seu lazer. Sem muitas alternativas boas para praticar o MTB, reparou que muitos atletas amadores se inscreviam em competições atrás de trilhas seguras e agradáveis para se divertir.

Sem grana pra competições, foi curtir as trilhas da cidade. Conhecendo o manual técnico de  trilhas da International Mountain Bicycling Association (IMBA), Marcio tentou unir um grupo de pessoas ao redor da ideia da construção, manutenção e melhoria das trilhas na região de Campos do Jordão. A iniciativa não foi à frente.

Administrando uma fazenda com arvorismo e tirolesa, Marcio enxergou a oportunidade de criar um bike park. O primeiro modelo de precificação era insustentável só com as bicicletas, mas funcionou como projeto piloto. As outras atividades da fazenda cobriam os custos fixos enquanto o primeiro Zoom Bike Park funcionava como laboratório. Pagar para pedalar em trilhas era novidade para ciclistas no Brasil.

Em sua segunda casa, uma fazenda mais próxima do centro de Campos do Jordão, o Zoom Bike Park se consolidou. Hoje o espaço se mantém em função da bicicleta, num mix de trilhas e serviços que convidam a participação de todos os tipos de ciclistas. Aluguel de bicicletas, alimentação, loja e oficinas para os atletas compõem as operações.

MTB underground e o rolê duas rodas:

Luciano “Kdra” Lancellotti em ação.

Nos anos 1970, o menino Luciano Lancellotti já apavorava nas manobras em sua bicicleta infantil. Ao longo dos anos 1980 pulou no BMX e quando a década de 90 chegou, já estava apaixonado pelo MTB.

Entendeu rápido que para viver em função da sua paixão pelo esporte, a solução eram as competições. Foi a fundo nelas, profissionalizou-se como atleta e construiu um nome no esporte.

Com o passar dos anos, Luciano Kdra foi abrindo o olhar e se inspirando cada vez mais nas vertentes livres e não-competitivas de outros esportes. O surf e o BMX freeride já eram uma realidade, faltava essa opção no mundo do MTB. A melhor parte de usar a bicicleta sempre esteve na busca em evoluir sempre no rolê.

Kdra aos poucos conseguiu abrir espaços como comunicador, atuando para popularizar a cultura da bicicleta acima de tudo. Através das frases que cria, organiza para si e para os outros sua visão de mundo.

Sob o lema de “comandar o como andar”,  Kdra unifica duas de suas vertentes de atuação atualmente. É no CantareiraRide \o/ BikeSchool que ele transmite seus conhecimentos sobre os rolês em bicicleta. Da consciência de pilotagem ao flow e o air time.

No Fala Biker, a troca de informações e promoção da cultura das duas rodas é feita através de um canal no YouTube.

Tipos de ciclistas e qualificação no MTB

Na percepção de Kdra, o mercado brasileiro de bicicleta ainda é maior do que é a nossa cultura, e isso pode ser perigoso. Justamente por isso que acredita na importância de se dedicar à formação de novos ciclistas. Pelo prazer e também para melhorar o próprio mercado. Afinal, ciclistas bem formados e informados usam a bicicleta melhor e por mais tempo, fazendo girar mais recursos dentro do setor.

O objetivo final sempre é ter em cada ciclista um bom comandante da bicicleta. Sejam cicloturistas que pilotem por si e pelos caminhões nas estradas, ou atletas nas trilhas sempre aptos a evoluir em vôos cada vez mais altos.

Na hierarquia criada por Kdra, existem os chamados “estatística/ambulância”, que passam mais tempo em recuperação do que nos rolês. Existem ainda os passageiros, que têm uma postura passiva diante da bicicleta.

Na vida e na condução da bicicleta, são cinco pontos principais para a evolução constante. Os primeiros são a base:

  • Visão – é a atenção a vários aspectos da pilotagem. No rolê, o agora é um tempo no espaço antes dele acontecer.
  • Posicionamento – é a atuação física em cima da bicicleta. São os controles de vetores de quem comanda.
  • Respiração – através dela se amplifica a visão e ela colabora no encaixe do posicionamento. Vide fisiologia, yoga.

Os últimos dois aspectos juntam os três principais.

  • Dinâmicas de movimento – é a velocidade natural. O ato de fazer a leitura de cenário através da visão e então se adequar ao posicionamento.
  • Comando de controle – une todos os aspectos. A arte do bem freiar, do bem tracionar a bicicleta. A dinâmica de encontrar um espaço para fazer uma ultrapassagem, saber buscar os espaços abertos.

Quem constrói trilhas recreativas de MTB no Brasil

Cesar Roberto, trailbuilder no Zoom Bike Park.

Com cada vez mais ciclistas buscando as trilhas, a profissionalização dos bike parks é um caminho natural. O pioneirismo de Marcio Prado acabou por abrir portas para que ele prestasse serviços de consultoria. No geral, são dois perfis de interessados.

Primeiro, quem pensa em implementar um bike park e que, de certa forma, repete a história do próprio Márcio. São pessoas apaixonadas pelo MTB, sem muito capital para investimento e que muitas vezes acabam desistindo de abraçar o sonho de criar seu próprio parque.

Outro perfil são pessoas que além da paixão por trilhas têm também capital suficiente para investir. De maneira geral, a força financeira torna esse tipo de investidor capaz de bancar uma operação deficitária por mais tempo. Ainda assim, quem tem dinheiro no bolso pode muitas vezes desistir por conta do baixo potencial de lucratividade diante do investimento necessário.

O futuro do MTB recreativo no Brasil

No geral, a visão de ciclistas no Brasil é de que no exterior, em especial nos EUA, o poder público apoia e constrói trilhas dedicadas ao MTB. Realidade distante da brasileira. A verdade é que os bons caminhos para pedalar na terra requerem esforço coletivo e apoio direto tanto do mercado quanto do poder público. O que não temos no Brasil, ainda, são formações estruturadas para construção de parques e trilhas e pequenos financiamentos pagos por marcas para construção e manutenção destas estruturas.

Com o boom que a bicicleta teve desde o início da pandemia e com um número cada vez maior de ciclistas querendo experimentar trilhas, pedalar ao ar livre e junto à natureza, o Brasil tem um grande desafio pela frente. As terras públicas e unidades de conservação (UCs), grandes espaços abertos para trilhas, ainda são extremamente restritivas para uso público por ciclistas ou não oferecem condições mínimas de uso.

Já nas áreas particulares, um fator que dificulta a prática do MTB é simplesmente o acesso. Fazendas e terras rurais se tornam menores, os usos comportam menos o lazer e a atividade física e as trilhas para bicicleta vão ficando mais raras. Um círculo vicioso.

Em um cenário de desafios e restrições, a existência dos bike parks privados é um caminho interessante e fundamental para a própria existência do nosso esporte.

Os melhores locais para o MTB recreativo no Brasil

A seguir indicamos alguns bike parks e escolas de MTB para que os leitores tenham uma ideia do que são estes espaços que combinam uma ampla área para pedalar, com espaço para aprendizado, inclusão e vários serviços e experiências combinadas em um mesmo local.

Acampamento de Aventura Go Outside:

Zoom Bike Park – Campos do Jordão, São Paulo

CantareiraRide \o/ BikeSchool – Mairiporã, São Paulo

Nore Bike Park – Itu, São Paulo

Bike Park Santa Teresinha, Bahia

Canal Aventura Bike Park – Piraquara, Paraná

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