Há algo profundamente poderoso em estar sozinho — só você, sua respiração, seus passos e a estrada. Não é apenas exercício; é um ritual.
Ao conversar com dezenas de corredores que preferem a solidão, padrões começaram a surgir entre os leitores do The Runner Journal. Alguns falam sobre paz. Outros, sobre dor. Mas quase todos falaram sobre cura.
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Correr sozinho, ao que parece, é mais do que movimento — é remédio. E embora não venha com receita, os benefícios são profundamente sentidos. É onde as pessoas processam o luto, a ansiedade, o esgotamento, términos e incertezas. Você começa a sentir que não está fugindo dos problemas, mas superando eles.
Para muitos, aquela corrida matinal é o único momento do dia em que não precisam estar “no modo ativo”. Você não é pai ou mãe, nem gerente, nem alguém tentando chegar a uma reunião — você é apenas um corpo em movimento.
É nesse espaço que as pessoas começam a respirar mais fundo. A bagunça mental vai se desfazendo, quilômetro após quilômetro. Existe um ritmo meditativo nisso: respira, passo, passo, respira. E às vezes, as melhores conversas são aquelas que você tem consigo mesmo.
Uma grande porcentagem dos corredores diz se sentir mais calma após uma corrida solo. Alguns compararam com uma meditação caminhando — só que com mais suor. Outros disseram que é o único momento em que realmente processam suas emoções. A ciência apoia essa sensação.
Estudos mostram que atividades aeróbicas, especialmente quando rítmicas e contínuas, aumentam os níveis de endorfinas e dopamina. É a combinação química muitas vezes chamada de “barato do corredor”. Mas não se trata só do barato — trata-se do alívio. Correr pode reduzir o cortisol, o principal hormônio do estresse no corpo. Isso significa menos tensão no corpo e na mente. Na verdade, correr regularmente tem mostrado diminuir sintomas de depressão e ansiedade.
Um corredor nos contou que não ouve música — prefere escutar os próprios pensamentos. Outro disse que às vezes chora durante a corrida, e tudo bem. Vários mencionaram que corridas longas e solitárias os ajudaram a lidar com grandes eventos da vida — divórcio, perda de emprego, morte. Nem toda corrida é uma revelação, mas às vezes elas acontecem quando você não está procurando.
Há também uma sensação de controle. Em um mundo que muitas vezes parece demais, correr oferece estrutura. Você escolhe o percurso, o ritmo, o horário. Essa autonomia fortalece a autoconfiança. Você não precisa explicar o que está sentindo enquanto corre — você apenas deixa os sentimentos fluírem.
Curiosamente, muitos corredores disseram que não começaram sozinhos. Começaram em grupos ou com parceiros, mas aos poucos se inclinaram para o silêncio. Quando descobriram o quão terapêutico isso era, passaram a buscar corridas solitárias. Eles não estavam solitários — estavam livres.
Uma mulher contou ao The Runner Journal que usa suas corridas solo para repassar conversas na cabeça — como um diário em movimento. Outra disse que correr é como colocar a ansiedade numa mochila e ir correr com ela. Um homem de 50 e poucos anos contou que correr sozinho o ajudou a parar de beber. Ele trocou o drinque da noite por uma corrida de cinco quilômetros. Após três semanas, disse que voltou a dormir bem.
A ciência também mostra que exercícios aeróbicos aumentam o fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), que melhora a saúde e a resiliência cerebral. Isso não é apenas um impulso para a saúde mental — é uma mudança neuroquímica. Correr favorece a neuroplasticidade, o que significa que seu cérebro se adapta melhor. E quando você corre sozinho, sem distrações, essas mudanças têm espaço para se enraizar.
Você pode começar uma corrida com raiva e terminá-la em paz. Pode começar ansioso e terminar centrado. Pode simplesmente não sentir nada — e até isso traz alívio.
Os benefícios vão além do humor. Correr sozinho melhora a saúde cardiovascular, que está diretamente ligada à função mental. Também reduz a inflamação, cada vez mais associada à depressão e à ansiedade. Ajuda a regular o ritmo circadiano, melhorando a qualidade do sono. E dormir melhor? Isso por si só já é uma forma de terapia.
Alguns corredores dizem que terminar uma corrida solo — especialmente em dias difíceis — era a vitória que precisavam. Lembrava a eles que ainda são capazes. Ainda estão em movimento. Ainda estão lutando.
Outros compartilharam como correr sozinhos os ajudou a ouvir melhor seus corpos. Sem a pressão de acompanhar o ritmo de outra pessoa, aprenderam a se sintonizar. A desacelerar quando necessário. A forçar quando prontos. A descansar sem culpa.
Para os introvertidos, correr sozinho nunca foi uma escolha — foi a única opção que fazia sentido. Mas até extrovertidos encontraram consolo na solitude. Tornou-se um botão de reset. Um lugar quieto. Uma fuga diária que, de alguma forma, os reconectava com eles mesmos.
Há relatos de pessoas que correm o mesmo percurso há anos e ainda descobrem algo novo. Uma curva que nunca haviam notado. Um nascer do sol que as fez parar. Um momento em que simplesmente souberam que tudo ficaria bem. Correr não dá respostas — mas ajuda a ouvir as perguntas com mais clareza.
Ensina paciência. Desconforto. Disciplina. Perdão. E talvez a maior lição: como continuar.
Então, quando alguém diz que “precisa” correr sozinho, acredite. Não é sobre performance. Não é sobre estatísticas. É sobre sanidade.
Elas não estão fugindo da vida. Estão correndo em direção a ela — um passo, uma respiração, um quilômetro silencioso de cada vez.
Matéria originalmente publicada por Diego Tobias no The Runner Journal.