Sem amarras

O mineiro Lucas Marques* encara ascensões dificílimas pelo país no estilo mais puro da escalada: em free solo, sem nenhum equipamento de proteção

Por Mario Mele; Fotos Bruno Graciano

A SERRA DO CIPÓ, em Minas Gerais, é um dos setores de escalada mais famosos do Brasil, por seus incomparáveis desafios e pela beleza natural que pode ser contemplada do alto daqueles paredões rochosos. Todas as rotas por lá se tornaram clássicas, e rola até certo misticismo. Os melhores escaladores sonham por em prática ali o estilo mais puro e destemido da modalidade: o free solo, no qual nenhum equipamento de segurança é utilizado durante a ascensão. Nos últimos tempos, o mineiro Lucas Marques, de 33 anos, tem transformado esse sonho em realidade.


FREE SOLO: Lucas escala a via Sinos de Aldebaran no estilo mais puro

Atualmente Lucas é a cara do free solo brasileiro: nenhum outro nome nacional tem se aventurado tanto e conquistado tantas vias nesse estilo. Em outubro do ano passado, à la Alex Honnold (o norte-americano que se tornou a estrela máxima desse tipo de escalada), ele botou para cima na via Sinos de Aldebaran, com absoluta perfeição. Trata-se de uma das linhas mais cobiçadas do Cipó, graduada em 8c pela tabela brasileira de dificuldade.

“É o meu maior êxito no free solo”, diz Lucas. “Lá fora, essa via poderia ser facilmente classificada como 9a”, garante ele, com a propriedade de quem tem no currículo três longas temporadas na Europa. Equipado apenas com sapatilhas e um saco de pó de magnésio (usado para absorver o suor das mãos e ajudar a mantê-las aderentes), Lucas se moveu verticalmente pela Sinos de Aldebaran como o Homem-Aranha. O vídeo da ascensão, disponibilizado em seu blog Loucos de Preda (o erro ortográfico é proposital), deixa a audiência tensa mesmo quando previamente avisada de que se trata de uma escalada bem-sucedida.

“Escalar uma via 8c em free solo!?”, escreveu o experiente montanhista brasileiro Pedro Hauck em seu site Alta Montanha, pasmo com o feito de Lucas. “Para mim, isso ultrapassa o limite do domínio espiritual dos próprios medos. Basta dizer que o menor erro faria com que ele nunca mais escalasse na vida. Lucas tem meu voto pela ‘escalada esportiva do ano’, além de todo o meu respeito”, elogiou Pedro.


PAUSA: Lucas encontra uma parada estratégica durante escalada free solo na Serra do Cipó

Apesar dos riscos e da tensão inerentes a essa vertente extrema da escalada, Lucas leva o free solo muito na boa. “Quando se está solando, as pernas ficam mais livres porque você não está usando uma cadeirinha e, naturalmente, a primeira sensação é de leveza”, explica. “À medida que se ganha altura, porém, a percepção aumenta, e você entra em um poderoso estado de alerta que te avisa sobre o perigo. É um sentimento à flor da pele, misto de liberdade e adrenalina.”

Para adeptos do estilo, parece que mais importante do que fortificar a coragem é entender os momentos de incertezas e saber que dias ruins existem. Em 2010, ele viveu uma experiência nesse estilo de escalada que o fez ver além. Prestes a solar a via Escamoso (7b+), também no Cipó, sentiu um mau presságio que o fez recuar. “Foi uma sensação estranha, inédita para mim”, lembra. “Preferi aceitar que não estava em um bom dia. Virei as costas e saí fora. No free solo, você tem que dominar a mente, senão ela brinca com você.”

Naquele mesmo dia, inacreditavelmente ele caiu andando na rua e torceu o tornozelo. E só no ano passado Lucas voltou para escalar a Escamoso sem corda. Dessa vez confiante, venceu lances negativos dando botes impressionantes na pedra, em movimentos que exigem força extrema e total consciência corporal.

Uns anos antes, o escalador norte-americano Cedar Wright, outro célebre expoente do free solo mundial, havia lhe dito algo até meio óbvio enquanto escalavam juntos pelo Brasil, mas que até hoje faz total sentido para Lucas: “Cara, apenas escale”. “No dia seguinte, eu tentei solar a via Lamúrias de um Viciado (7b)”, lembra o mineiro. Essa via é um dos “desejos coletivos do Cipó”, e ouvir aquilo o tranqüilizou: era tudo o que ele precisava para fluir com tranquilidade, do começo ao fim, rocha acima.

NATURAL DE UBERLÂNDIA (MG), Lucas descobriu a liberdade cedo. Aos 7 anos de idade, quando morava em Porto Seguro (BA), costumava passar o dia inteiro perambulando só de bermuda. “Eu era um moleque muito porra louca, daqueles que torcem pelo bandido no filme”, lembra. A escalada veio por acaso. Até os 17 anos, treinava triathlon, mas uma lesão no joelho o obrigou a dar uma pausa. “Foi quando passei em frente a um muro artificial de escalada e experimentei o esporte pela primeira vez.” Seu pai, porém, achou aquilo perigoso demais. E Lucas, que era menor de idade, teve que falsificar a assinatura dele para poder fazer o curso. “Mas logo desisti. Primeiro porque não existia realmente uma academia de escalada em Uberlândia; segundo porque eu estava naquela fase de curtir a farra com os amigos.”

Uns anos depois, na idade de ingressar na faculdade, mudou-se para o Rio de Janeiro para cursar arquitetura. Lá conheceu os escaladores Hugo Langel e Fabiano Moraes, que lhe mostraram uns vídeos que imediatamente remeteram às primeiras experiências em sua cidade natal. “Voltei a ficar fissurado pela rocha”, recorda. Depois que subiu o Dedo de Deus [formação rochosa de 1.692 metros que se destaca na paisagem da Serra dos Órgãos] com os amigos, percebeu que a escalada era mesmo um caminho sem volta.

Naquela época, Lucas foi apelidado de “Jah” (a entidade divina máxima na cultura rastafári) pela galera com quem andava. “Na verdade, era comum nos chamarmos assim, um pouco por brincadeira, um pouco por respeito e reconhecimento em enxergar Jah no próximo”, diz

Ainda no Rio, a vontade de evoluir foi tão incontrolável que ele chegou ao ponto de trancar a faculdade e terminar com a namorada para se mandar para a Europa. “Pensaram que eu tinha ficado louco”, lembra, rindo. Mas era uma ideia que estava bem lúcida em sua cabeça: passaria três meses no Velho Continente para escalar o quanto conseguisse. Porém o garoto foi com muita sede ao pote: devido ao ritmo intenso em que escalava, teve epicondilite, inflamação do tendão na região do cotovelo. Impossibilitado de continuar, viu seu sonho ficar com cara de pesadelo. “Senti um vazio total, uma decepção difícil de explicar.”

No entanto, não cogitou voltar ao Brasil nem quando atrofiou o braço por excesso de escalada. Foi o momento de “baixar a bola” e refletir sobre as próprias escolhas. Ir à Europa tinha sido uma grande missão, e a conclusão a que chegou foi a de que a escalada se transformara na grande paixão de sua vida. Lucas voltou ao Brasil para terminar a faculdade nove meses depois de ter deixado o país. E apenas duas semanas após a formatura estava embarcando para a segunda temporada de escalada na Europa, desta vez bem mais ligeiro.


TRANQUILO: Lucas no topo da Sinos de Aldebaran

NOS ÚLTIMOS CINCO ANOS, a dedicação de Lucas à escalada tem sido plena. Voltou a encadenar vias na Espanha e na França e também escalou com Chris Sharma e Dani Andrada, duas lendas máximas desse esporte. No Brasil, em Ouro Preto (MG), resolveu difíceis projetos (v10 e v11) de boulder – outra vertente da escalada que pratica muito. Em 2011, inclusive, foi campeão da primeira edição do Red Bull Psicobloc Brasil, disputado no sertão alagoano, derrotando nomes importantes da cena competitiva, como os brasileiros Cesar Grosso e Felipe Camargo.

“Os estilos de escalada se complementam: por eu também ser um escalador de big wall, estou acostumado com a exposição, com a sensação de vazio em razão da altura”, conta Lucas, que também já colhe resultados desse cruzamento. Em 2014, com Sérgio Ricardo, outro escalador mineiro, ele fez a repetição da mítica via big wall Place of Happiness, na Pedra Riscada (MG), em estilo livre (usando corda e proteções móveis para se proteger em caso de queda, mas nenhum mecanismo para auxiliar a ascensão). Essa via foi aberta em 2009 pelo alemão Stefan Glowacz e pelo paranaense Edmilson Padilha. Mas o replay de Lucas e Sérgio foi extraordinário pelo tempo que a dupla levou para chegar ao topo daquele paredão de 900 metros: apenas dez horas.

Lucas pretende curtir os próximos dois anos do jeito que mais ama: escalando em livre e em free solo. Também quer passar a limpo os principais big walls do Brasil, um trabalho que já está em andamento. Recentemente, ele concluiu longas cordadas em livre nas vias Smoke on the Water (9c) e Hidro no Topo (9a), ambas na Serra do Cipó (MG). Seus planos se estendem também para a Pedra do Sino, na Serra dos Órgãos (RJ) e para o Vale do Yosemite, na Califórnia. No berço da escalada big wall da América do Norte, o plano é escalar em estilo puro as desafiadoras Nose e a Salathé Wall – duas vias clássicas e extremamente técnicas do monólito El Capital –, coisa que nenhum brasileiro fez até hoje.

“Tenho paz interna e paciência para me dedicar a todos os estilos”, diz. Segundo ele, é esse dinamismo que o leva além e o torna apto a conquistar vias na rocha de um jeito até então considerado “coisa de louco”. Para Lucas, a escalada é, sem dúvida, um esporte sem limites.

Estilo livre
Confira o roteiro de Lucas pelos big walls brasileiros que nunca foram escalados em estilo livre (sem auxílio de equipamentos artificiais de ascensão):

> Parque Nacional da Serra dos Órgãos (RJ)

As vias de big wall na mira são a Nova Era (9c), na Pedra do Sino, e a Crazy Muzungus (6º grau), no Garrafão. Só nessa primeira parte do projeto serão mais de mil metros de escalada, em alto nível de dificuldade e exposição.

> Pedra Riscada (MG)

No monolito de granito de 1.260 metros de altura, Lucas quer escalar a via Planeta dos Macacos (9º grau) em um dia, além de abrir uma inédita escalada numa torre na parte interna da Pedra.

> Serra do Cipó (MG)

Depois de mandar a primeira escalada em livre na Cachoeira do Tabuleiro (via Hidro no Topo), Lucas tem planos de inaugurar outras no mesmo estilo, entre elas a Linda de Morrer e a O Que Sobrou do Céu.

* Lucas tem apoio da loja Adrena Esporte e Aventura.

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