Pacífico no braço

Este francês de 48 anos quer completar a primeira travessia do Oceano Pacífico a nado, em uma ousada e arriscada aventura de 180 dias – sim, é isso mesmo que você leu

Por Bruno Romano

NÃO TORÇA O NARIZ para o ambicioso plano de Benoît Lecomte. Esse arquiteto e nadador amador (nascido na França, mas com cidadania norte-americana) foi a primeira pessoa a cruzar o Oceano Atlântico a braçadas, em 1998. Agora, aos 48 anos, Ben, como ele é mais conhecido, quer repetir a dose no Pacífico, ligando o Japão aos Estados Unidos em uma jornada de seis meses. Além de um barco de apoio, ele terá apenas a companhia de um snorkel e pés de pato, seus fiéis parceiros no trajeto de quase 9 mil quilômetros. A seguir, o nadador explica suas táticas e manhas para sobreviver a esse verdadeiro pesadelo dos mares – e conta o porquê de embarcar em tão corajosa missão.

O PLANO

Para unir Tóquio (Japão) a São Francisco (EUA), Ben terá de nadar uma média de oito horas diárias. A ideia é aproveitar o verão no Hemisfério Norte, entre os meses de julho e setembro, para começar a aventura, apostando nos bons padrões de tempo e em duas fortes correntes marinhas a seu favor. Enquanto não estiver nadando, irá comer e descansar no barco de apoio, retornando para a água no exato ponto em que saiu (registrado por GPS). Ele também pode tomar líquidos durante a travessia, repondo energias e aproveitando melhor o tempo.

BEN: “Nos últimos dois anos, dediquei-me totalmente a esta travessia. Treino de 3 a 5 horas por dia, variando entre natação, corrida e pedal. Nadar sempre foi mais que um hobby para mim: é uma paixão”.


NÁUFRAGO VOLUNTÁRIO: O francês Ben Lecomte posa para fotos nos EUA durante preparação para a inedita
travessia do PAcífico (Fotos: Gino Kalkanoglu)

O TIME

Um timoneiro, um engenheiro, um biólogo, um médico e uma equipe de mídia acompanharão a travessia de Ben a bordo do barco Rolano, um 80 pés (cerca de 25 metros) que pode ser movido a motor ou a vela. Eles cuidarão da logística e segurança da expedição.

BEN: “Evito ao máximo levantar a cabeça na água, para ganhar tempo. Quando preciso, tenho sinais já combinados para me comunicar com a tripulação. Eu ainda posso usar um aparelho conectado ao snorkel que me permite conversar com a equipe no mar e até com alguém em terra”.

OS PERIGOS

Ondas colossais são esperadas em algum momento da travessia. No entanto, desde que a formação não esteja muito mexida, com possibilidade de as ondas quebrarem em cima de Ben ou do barco, o nado seguirá normalmente. Como a água pode atingir temperaturas negativas, um macacão espesso de neoprene e camadas extras de roupa de borracha na região do tórax são necessários. Elas também protegerão Ben de grande parte das águas-vivas. O barco possui sonda para rastreamento de animais e um equipamento que emite um campo eletromagnético para afastar tubarões.

BEN: “A questão não é se vou cruzar com um tubarão. A dúvida é quando. Como os tubarões estão sendo dizimados dos mares, um encontro seria uma grande oportunidade de colocar o tema em pauta, contando essa história sem aquela ideia fixa do perigo que está associado a eles. Eu costumava andar de moto em Paris ou em Dallas e, na verdade, corria muito mais risco nas ruas do que no mar com um tubarão”.

OS SEGREDOS

Para driblar a monotonia do cenário, da sensação da água no corpo e dos movimentos repetitivos, Ben cria uma programação por escrito do que irá fazer em cada hora nadada. As atividades misturam contar em diferentes idiomas, pensar detalhadamente em experiências do passado (como um aniversário em família) e até fazer cálculos matemáticos. Dissociar a mente do corpo é a chave para esquecer um pouco da realidade na água salgada – já que até um pequeno corte na pele pode esgotar a paciência e o bom humor do dia.

BEN: “Meu grande obstáculo, para falar bem a verdade, será o acúmulo dos desafios de cada dia. Ao fazer a mesma coisa por cinco ou seis meses, suas chances de pirar aumentam bastante. A privação de sono, de conforto e a distância da família começam a pesar, mas eu tento colocar meu corpo em piloto automático e deixar a mente em algum outro lugar”.


TÁTICA: Ben usará snorkel e pés de pato durante todo o trajeto

O MOTIVO

A inspiração de Ben para cruzar o Oceano Atlântico em 1998, conectando os Estados Unidos à França em 73 dias, veio depois da morte de seu pai, vítima de câncer. A travessia levantou fundos para pesquisas da doença e para o tratamento de pacientes. No Pacífico, ele ajudará a divulgar o trabalho do Climate Group, entidade em prol da diminuição da emissão de dióxido de carbono no planeta. O desafio também pretende atrair a atenção das pessoas para questões ambientais ligadas ao oceano. Ben ainda busca inspirar seus dois filhos – e toda a nova geração –, levantando a bandeira de uma vida mais sustentável. Após a travessia, ele planeja circular por escolas falando com crianças, além de manter uma plataforma online sobre o assunto.

BEN: “A travessia foi a forma que encontrei para conectar pessoas e chamar a atenção para os cuidados que devemos ter com a natureza. Meu verdadeiro foco é colocar o tema da sustentabilidade nas escolas, promovendo uma ação imediata e abrindo os olhos da nova geração”.

No rastro de Ben

A travessia do Pacífico do francês Ben Lecomte faz parte do projeto The Longest Swim (thelongestswim.com), plataforma que trará transmissão online da aventura, via streaming, e seguirá tratando de temas ambientais após a expedição. A ideia é aproximar as pessoas do dia-a-dia do nadador no mar:

8.850 km entre o Japão e os EUA

180 dias ou 6 meses de travessia

8 horas de nado diário

8.000 calorias queimadas por dia

135 bpm média ideal de frequência cardíaca durante o nado

Vidas salgadas

Expedicionários que se arriscaram em longas e inusitadas aventuras em mar aberto

> Gérard d’Aboville

Este parisiense remou por toda a extensão do Oceano Atlântico, sozinho e sem apoio, em 1980. Onze anos depois, completou a travessia do Pacífico a remo, do Japão aos Estados Unidos, em 134 dias – feito que inspirou Ben Lecomte na adolescência.

> Kon-Tiki

O explorador holandês Thor Heyerdahl liderou uma expedição pelo Pacífico, entre o Peru e as ilhas polinésias, a bordo de um barco a vela artesanal. Thor e sua tripulação usaram técnicas ancestrais, com o objetivo de mostrar que foi da América do Sul que saíram os primeiros habitantes das ilhas do Pacífico.

> Alain Bombard

Usando apenas um bote inflável e pouquíssimos recursos (como uma vara de pesca rudimentar), o francês atravessou o Oceano Atlântico em 1952. Sua ideia era provar que é possível sobreviver em mar aberto com o mínimo de mantimentos – sua alimentação foi à base de peixes, água de chuva e até doses de água do mar.

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