Vida marinha

A bióloga carioca Cláudia Bethlem passou a vida trabalhando em projetos que tinham a conservação da vida marinha como objetivo comum. Hoje, ela transformou seu amor em um roteiro de barco pela costa do Rio de Janeiro, no qual meditação e contato extremo com a natureza ajudam na conscientização sobre questões ambientais

Por Fernanda Beck

O CAMINHO DA CARIOCA Cláudia Bethlem foi traçado cedo. Aos 13 anos, depois de realizar seu primeiro mergulho com snorkel, a menina sabia que seu destino seria dedicar a vida ao mar. “Desde aquele momento, senti que pertencia muito mais ao universo marinho do que ao terrestre. Nunca tive dúvidas do que queria fazer”, diz. Graduada em biologia e mestra em oceanografia, Cláudia foi a fundo em sua paixão pelo meio ambiente marítimo, dedicando muitos de seus 46 anos à sua proteção dos mares. A “primeira escola” não-oficial foi o projeto Tamar, em Fernando de Noronha (PE). Lá passou um bom tempo ajudando a tirar da zona de risco populações de baleias jubarte e tartarugas marinhas. Depois partiu para a Antártida, onde viveu quatro anos no estreito de Gerlache trabalhando como pesquisadora no Programa Antártico Brasileiro. Cláudia também contabiliza experiências em projetos ambientais na Grécia e no Parque Nacional Marinho de Abrolhos, na Bahia.


NUMA BOA: Cláudia em momento descontraído (Foto: Arquivo pessoal Cláudia)

O acúmulo de conhecimento acabou levando a carioca para funções ligadas ao oceano, porém longe dele, em salas de reunião e lugares fechados. Só que a distância do mar não combinava com seu espírito aventureiro. Assim decidiu ela mesma criar um roteiro turístico na Ilha Grande (RJ), ao qual batizou de Immerse, de imersão tanto na água quanto na ideia de proteção à natureza. O passeio combina barco a vela em torno da ilha com uma vivência intensa de proximidade com a fauna e a flora locais, esportes aquáticos e meditação – tudo dentro de um veleiro de 50 pés. “O Immerse foi criado para despertar a consciência ambiental, corporal e pessoal, sob o disfarce de turismo”, diz Cláudia.


A BORDO: Detalhe de um dos veleiros do Immerse (Foto: Divulgação Immerse)

É difícil não ficar fascinado por tudo o que a vivência dentro e fora da embarcação tem a oferecer. No pacote básico, são dois dias e meio velejando em torno da Ilha Grande e curtindo momentos de intenso contato com as águas, seja remando de stand-up paddle ou mergulhando de snorkel. No programa, há também espaço para caminhadas até a praia de Lopes Mendes, considerada uma das mais bonitas do Brasil, e à cachoeira da Feiticeira. O roteiro inclui ainda meditações guiadas, complementadas por comida boa – o chef Leo Meyer usa ingredientes locais frescos, e refrigerante não entra no cardápio. À noite, é hora de bebericar uma cerveja gelada e aproveitar o barulho dos grilos e outros insetos.

A ideia do roteiro, no entanto, vai muito além de divertir e relaxar os visitantes. “O passeio foi criado para trazer as pessoas para perto da realidade do oceano, conscientizando-as por meio do amor e do exemplo”, diz Cláudia. Sua teoria é de que a conscientização ambiental acontece quase que espontaneamente após a participação no Immerse: “Aprendi que a melhor maneira de ensinar as pessoas sobre o respeito à natureza é deixar que elas vejam e sintam por si próprias. Não me importo que me chamem de hippie, de maluca ou idealista. Quero que as pessoas percebam que não existe jogar algo ‘fora’, pois não existe ‘fora’ no nosso planeta”.


NATURAL: Cláudia se prepara para um mergulho na Ilha Grande, no Rio de Janeiro (Foto: Divulgação Immerse)

A política de proteção ambiental no Brasil é alvo de críticas ferrenhas por parte da bióloga, que não acredita que exista uma peocupação real com o tema no país. “Meio ambiente no Brasil se resume a licenciamento ambiental, que é a coisa mais emperrada que existe. Não há uma visão coletiva e do todo por aqui.” Mas o desgosto com o governo é contrabalanceado pela felicidade vivida em iniciativas independentes, onde Cláudia encontrou e presenciou sucesso em empreitadas ecológicas. “Tive o prazer de assistir, com meus próprios olhos, a várias espécies se recuperando a partir dos esforços e da persistência de indivíduos que, sem dinheiro, arregaçaram as mangas. Pude acompanhar a criação dos parques marinhos de Abrolhos e de Noronha, onde presenciei o retorno de peixes grandes e o esforço de iniciativas como a do Tamar”, conta. “Fiz a primeira estimativa da população de baleias jubarte no Brasil em 1990: eram apenas 750 indivíduos. Hoje já são cerca de 15 mil.”

O IMMERSE APROXIMA AOS POUCOS os visitantes da beleza da Ilha Grande. Durante um mergulho guiado, Cláudia aponta diversas espécies marinhas, dando detalhes sobre seu comportamento. Raias, golfinhos, tartarugas, lulas e diversos cardumes de peixes podem ser vistos de pertinho. Quando o mergulho termina, há no barco uma cartela com ilustrações dos animais da região – procurar no papel o que foi visto embaixo d’água é passatempo divertido para quem volta a bordo. “Acredito que o relaxamento e a meditação deixam o corpo com boas energias, e os animais captam isso. Quanto mais relaxados estamos, maiores as chances de observar uma variedade grande de fauna”, diz a bióloga Cláudia.

O comandante do veleiro, José Maria Fialho, contribui para o aprendizado de todos, ensinando noções básicas de astronomia e navegação aos convidados. Quem preferir pode deixar de lado as meditações, mergulhos e práticas aquáticas: “Aprendi que o caminho da acusação e da culpa, que é a forma que a conscientização ambiental costuma tomar, só cria resistência”, explica. A missão de Cláudia tem um objetivo claro, porém não divide o mundo entre agressores e salvadores.“Não acho que o ser humano destrói o planeta de propósito. Acredito, sim, que existe uma desconexão muito grande entre alguns seres humanos e a natureza. Nosso trabalho pretende retomar um pouco essa ligação.”


DESDE SEMPRE: Cláudia no projeto Tamar, em Fernando de Noronha, em 1990
(Foto: Arquivo pessoal Cláudia)

A bióloga crê em efeitos inegáveis, como as mudanças climáticas que chegam com cada vez mais força ao nosso dia-a-dia. “Não importa se você mora em São Paulo, Nova York ou em Tóquio. Uma hora todos perceberão que os fenômenos do planeta estão interligados. Vamos nos conscientizar de que acima de classes sociais, raças e credos todos somos um só.” Enquanto ela filosofa sobre o destino do planeta, o Immerse se deixa levar pelas águas, como se a cada momento pertencesse mais e mais a toda aquela imensidão azul.

VÁ LÁ:

Immerse Expeditions

Pacotes de dois dias e duas noites velejando em torno da Ilha Grande, com tudo incluso (alimentação, mergulho e meditação), custam a partir de US$ 850 por pessoa em cabine dupla, ou US$ 1.200 em cabine individual. immersexpeditions.com

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