O homem de gelo

Durante os últimos 35 anos, o holandês Wim Hof escalou o Kilimanjaro e o Everest usando apenas shorts, nadou embaixo de geleiras e correu uma maratona no deserto sem beber água nem uma vez – tudo isso sem alterar sua temperatura corporal

Por Fernanda Beck

O FRIO EXTREMO COSTUMA SER UM DESAFIO à maioria das pessoas, mas o holandês Wim Hof se sente em casa usando shorts dentro de lagos gelados e em montanhas nevadas. Há quase 40 anos, ele vem se dedicando a provar que o corpo humano pode enfrentar muito mais do que imaginamos, e, nesse intuito, costuma ser sua própria cobaia. Detentor de 20 recordes mundiais, Wim ficou famoso por aguentar longos períodos mergulhado em tanques de gelo, nadar em mares quase congelados e, para mostrar que não é só no frio que ele supera, por correr uma maratona no deserto da Namíbia em 2011 sem beber água durante todo o percurso. Em todas as ocasiões, manteve sua temperatura corporal estável por meio do controle da respiração e de meditação.


SOBRE-HUMANO: Wim mostra que também domina o equilíbrio e a força com o pensamento (Todas as fotos: Enahm Hof).

A habilidade de Wim é a própria definição da força da mente: ele influencia aspectos fisiológicos de seu corpo através da utilização consciente do cérebro. Em termos científicos, isso significa influenciar a resposta hormonal e as reações do sistema nervoso autônomo do corpo através de estímulos cerebrais. Em termos práticos, significa resistir melhor a infecções bacterianas, ou aguentar temperaturas extremas sem deixar que elas mexam com seu organismo. “Com a mente, podemos adaptar a maneira como nosso corpo responde a diferentes situações”, explica o holandês, conhecido como o Homem de Gelo.


QUENTINHO: Vestindo apenas gorro, shorts e botas durante caminhada na neve.

Atualmente com 55 anos, Wim nunca frequentou a faculdade e teve pouca instrução formal. Ele credita sua boa adaptação com as baixas temperaturas ao momento de seu nascimento, no corredor de um hospital em Sittard, na Holanda. Seu irmão gêmeo nascera pouco antes e a existência do segundo bebê era desconhecida. Quando o erro foi percebido, era tarde demais: Wim nasceu no corredor frio. “Minha mãe fez uma promessa quando nasci, para que eu sobrevivesse”, conta. “Ela me ofereceu a Deus como um missionário. A promessa se concretizou, eu sou um missionário. Minha missão é mostrar que todos estamos aptos a conectar mente, corpo, sistema nervoso e sistema hormonal. Se você se sente forte o suficiente, você pode concretizar seus objetivos”, completa.

Até se tornar mundialmente conhecido por seus feitos e recordes, o holandês trabalhava como pintor de paredes. “Foram décadas ouvindo piadas e gente me chamando de maluco, mas agora dou palestras para doutores renomados e multidões que querem ouvir o que tenho a dizer”, orgulha-se. “Sou um investigador da vida. Se você acredita e procura, encontrará o que busca. Todas as pessoas deveriam ter direito a afinar sua conexão entre mente e corpo.”


ZEN: Wim medita para aguentar o frio.

“AINDA CRIANÇA, EU SENTIA que havia algo mais a ser descoberto entre o céu e a terra”, conta Wim. Leitor ávido, desde os nove anos passou a se interessar por filosofia, yoga, budismo, japonês e sânscrito. Aos 17, caminhando por um parque em Amsterdã, olhou para a água congelante de um lago e decidiu entrar. “Olhei para os lados, tirei a roupa e entrei. No mesmo instante, senti que isto ia abrir as portas para mim. O frio era um caminho para o auto-controle, para o que eu estava buscando. E não parei mais.”

O holandês dá palestras e recebe turmas de interessados em aprender sua técnica. “Quero divulgar ao mundo uma ideia simples: a de que podemos controlar melhor o impacto das condições externas sobre nosso corpo. É uma técnica universal, que proporciona às pessoas um mergulho dentro de si mesmas. Ao saírem desse mergulho, elas recobram o controle sobre os próprios corpos”, explica. O método de treinamento consiste em três estágios principais: respiração, meditação e exposição voluntária ao frio. Os alunos aprendem diferentes exercícios e passam por sessões de contato direto com a neve (vestindo apenas shorts ou bermudas) e natação em águas a temperaturas gélidas (que variam entre 0° e 1°C). Pessoas de todos os tipos e idades frequentam as aulas: “Todos podem fazer isto. Temos muito mais energia dentro de nós do que estamos acostumados a usar. Isto não é especulação, está comprovado”, diz.


CORRIDA: Descalço na neve, Wim pratica o domínio mental sobre situações externas.

A prova científica que Wim cita são os estudos feitos em 2012 na Universidade de Radbould, em Nijmegen, na Holanda. Neles, dois grupos de treze pessoas cada submeteram-se a uma bateria de testes de auto-controle. Um dos grupos era formado por alunos dos cursos de Wim; o outro era um grupo controle. “Até então, considerava-se que tanto o sistema nervoso autônomo quanto o sistema imunológico inato não podiam ser influenciados voluntariamente. O estudo demonstra que, através da prática de técnicas aprendidas em um curso de curta-duração, ambos os sistemas podem, sim, ser voluntariamente influenciados”, diz a conclusão do estudo.

Wim se orgulha da descoberta científica que ajudou a fazer: “Fomos os primeiros a demonstrar isso, o que me deixa feliz. Mas a realidade é muito maior. Esta descoberta significa que podemos despertar uma capacidade de reagir a nosso meio ambiente muito maior do que a que estamos acostumados. O potencial existe dormente dentro de cada um de nós, só é preciso despertá-lo”, afirma.

O “missionário” afirma já ter ensinado mais de 3 mil pessoas a refinarem o próprio controle corporal. Segundo ele, leva mais ou menos uma semana até que seus alunos façam as primeiras adaptações físicas necessárias à transformação e passem a encarar as “tarefas” com facilidade. Um dos primeiros exercícios propostos pelo método de Wim é tomar banhos frios – sempre. As reações iniciais à ideia não costumam ser favoráveis, pois os alunos sentem dor encarando a água gelada. Após umas semana, no entanto, o sistema vascular dos aprendizes já está adaptado, e eles reagem de maneira diferente ao banho gélido.


CIÊNCIA: Wim tem sua biologia posta à prova em uma universidade na Holanda.

Os resultados obtidos pelos alunos são marcantes: no grupo submetido aos testes científicos de comparação, 12 dos alunos conseguiram produzir mais adrenalina deitados em camas do que os níveis encontrados em alguém que pula de bungee jump pela primeira vez. Outros 12 foram injetados com uma bactéria que normalmente deixa o corpo doente por cinco a oito horas, mas conseguiram reagir à presença da bactéria em 15 minutos. Wim não se espanta: “Qualquer um pode atingir este nível de controle”. “Meu próximo projeto é subir o Kilimanjaro em pouco mais de um dia, vestindo apenas shorts e botas. Meu aluno mais velho inscrito nessa expedição tem 77 anos e vai realizar uma coisa que montanhistas profissionais não conseguem fazer. Está tudo na mente.”

Para saber mais: icemanwimhof.com

Reportagem publicada originalmente na Go Outside 118, de maio de 2015.

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