Batalha naval

Primeira edição da história com veleiros padronizados acirra ainda mais a disputa da cobiçada e perigosa Volvo Ocean Race, a incrível corrida de barcos que desembarca agora no Brasil.

Por Bruno Romano

UMA ÉPICA JORNADA AO REDOR DO MUNDO, superando a fúria do oceano e os limites físicos e psicológicos dos maiores navegadores do planeta – assim costuma ser descrita a tradicional Volvo Ocean Race (VOR). Mas a imponente competição, que rola a cada três anos, é muito mais que isso. Integrante do primeiro escalão da vela competitiva, ao lado de eventos como a America’s Cup e os Jogos Olímpicos, a VOR reúne estratégia, inteligência, ousadia e muito trabalho em equipe. De passagem pelo Brasil neste mês de abril depois de uma longa travessia do Pacífico que ligou Auckland, na Nova Zelândia, a Itajaí, em Santa Catariana, a edição 2014-2015 da competição em mar aberto tem provado que o eterno embate entre homem e natureza continua tão emocionante quanto imprevisível.


NOS MARES: O veleiro Alvimedica a caminho de Itajaí (Foto: Amory Ross).

Pela primeira vez em 42 anos de história de Volvo Ocean Race, todas as equipes estão usando embarcações idênticas, deixando ainda mais evidente o verdadeiro jogo de xadrez dos mares. Trata-se do Volvo Ocean 65, um enorme veleiro de 65 pés (pouco mais de 20 metros) desenhado nos EUA e construído em parceria com estaleiros na Itália, França, Suíça e Reino Unido. Cada barco abriga oito tripulantes – dois a menos do que na última edição da VOR, em 2011-2012 –, além de um repórter multimídia. Sete desses veleiros deixaram o porto de Alicante, na Espanha, em outubro de 2014, rumo a Gothenburg, na Suécia (veja no mapa), com previsão de chegada no fim de junho de 2015, nove meses e nove regatas (como é chamado cada um dos trechos) depois. Durante as oito paradas, as equipes têm cerca de duas semanas em terra firme para recuperar as energias, fazer reparos e se reabastecer.

Assim como os barcos, os desafios da Volvo Ocean Race são iguais para todos: saber dominar o veleiro, estudar o

comportamento do mar, aproveitar ao máximo o vento – único combustível disponível – e confiar nas escolhas dos navegadores. Vence quem combinar essas quatro missões da melhor forma. Na prática, trata-se de um jogo de caça e caçador, onde às vezes ser o líder não é tão bom negócio: os velejadores podem ver o posicionamento dos concorrentes no computador e, caso o primeiro colocado tenha feito uma escolha errada, quem está atrás tem tempo de mudar o rumo e sair na vantagem. Estamos falando de regatas como a que chegou a Itajaí, considerada a mais traiçoeira dessa edição não apenas por ser a mais longa (12.500 km), mas por contar com passagens perigosas, entre elas a do Cabo Horn, que contorna o extremo meridional da América do Sul. A travessia representou um quinto do total da prova e equivaleu a percorrer quase duas vezes o rio Nilo, o mais extenso do mundo.

ÚNICO BRASILEIRO NESSA DISPUTA, o catarinense André “Bochecha” Fonseca faz parte da equipe espanhola Mapfre. Aos 36 anos, ele já está em sua terceira Volvo Ocean Race. Bochecha foi tripulante do Brasil 1, terceiro colocado em 2005-2006 (liderado por Torben Grael) e embarcou no holandês Delta Lloyd, na VOR de 2008-2009. No Mapfre, ele é timoneiro e chefe de turno, o que significa coordenar e motivar toda a equipe, transformando em velocidade todas as informações de estratégia e meteorologia disponíveis naquele momento. São turnos de quatro horas no deck (parte de fora do barco) por quatro horas livres. “Se estivermos enfrentando condições complicadas, com muitas trocas de velas ou manobras, todos trabalham sem parar, não importa a hora”, relata André.


É DO BRASIL: O velejador André Fonseca (à esq.) se alimenta durante a regata (Foto: Francisco Vignale).

No tempo de “descanso”, os velejadores trocam de roupa, comem e, em caso de mar tranquilo, conseguem falar com a família ou descansar de verdade. “Quando isso acontece, você agradece a todos os santos”, brinca André, que começou a velejar aos 6 anos de idade na classe Optimist e já defendeu o Brasil em duas Olimpíadas (2004 e 2008), competindo na 49er. Sua experiência ajudou a equipe Mapfre a vencer a quarta etapa dessa edição, entre China e Nova Zelândia. Foram 20 dias, 2 horas e 30 minutos no mar, chegando apenas 4min25s à frente do segundo veleiro, o Azzam, da equipe Abu Dhabi Ocean Racing.

“Não esperava que fosse tão difícil aprender os detalhes do novo veleiro”, conta Bochecha. “Aqueles que começaram a preparação antes, como o Abu Dhabi, tiveram vantagem, pois fizeram mais testes e já sabem tirar um pouco mais do barco em condições específicas”, completa, mencionando um dos barcos mais rápidos até aqui. Apesar de levar o nome de Abu Dhabi e ter como principal patrocinador o governo dos Emirados Árabes Unidos, seu velejador líder é o britânico Ian Walker, e o único atleta “local” do time é o Adil Khalid.

Para entrar na VOR, os patrocinadores tiveram de desembolsar em torno de 15 milhões de euros cada um, somando todos os custos antes e durante a prova. Ao todo, 18 nacionalidades de velejadores se misturam nas embarcações – um número variável, já que as equipes contam com atletas reservas disponíveis para trocas em cada regata.


DE OLHO: Phil Hamer, do time Abud Dhabi, checa seus adversários (Foto: Corinna Halloran).

MESMO QUE NÃO SE FALE a mesma língua em uma equipe, a sintonia interna é fundamental para o sucesso dentro do veleiro. Errar na Volvo Ocean Race pode significar mais do que apenas uma perda de posição. No início da competição, um dos barcos desta edição, o Team Vestas Wind, de bandeira dinamarquesa, acabou atracado em um recife de corais no meio do oceano Índico durante uma tempestade noturna. Todos os tripulantes saíram com vida, mas não foi possível retomar a disputa – em 42 anos de prova, cinco velejadores já morreram durante as regatas.

“Estar em um veleiro destes é como entrar em uma montanha-russa ou tentar domar um touro bravo”, conta Francisco Vignale, argentino responsável pela cobertura jornalística do Mapfre. Por ser uma competição em busca do vento, fechadas e manobras arriscadas – como quando um barco passa tão perto que quase tira tinta do outro – também costumam acontecer, mesmo com tanto oceano disponível. “Quando mais competitiva e acirrada a prova, mais risco se tem. Porém qualquer rusga que surge na água termina ali mesmo”, diz Bochecha.

Por mais que a tecnologia siga evoluindo a cada edição, a Volvo segue seu rumo – sai do Brasil no próximo dia 19 de abril – como uma das mais incríveis batalhas homem contra homem, superando as surpresas da natureza. Quem antecipá-las pode se sair bem, ainda que chegar inteiro ao destino já seja um grande presente. Até porque não há nenhuma recompensa em dinheiro para os vencedores no porto de chegada – afinal, o grande prêmio para o atleta é ser convidado pela organização e por patrocinadores de peso para integrar equipes, com tudo pago durante os meses de competição. Fora a experiência de se dar a uma volta ao mundo com a força do vento – e em altíssima velocidade, claro. O veterano Andrew Cape, australiano com cinco participações de Volvo nas costas, desta vez integrando a equipe holandesa Team Brunel, nem liga para o fato de que não chegará ao pódio este ano: “Imagine que vida infeliz nós teríamos se só fossemos capazes de rir quando vencemos”. Claro que são os ventos que levam esses velejadores adiante, mas parece que o que os move durante a jornada são forças maiores.


PERRENGUE: Eric Peron, da equipe Dongfeng, e suas bolhas (Foto: Sam Greenfield).

Ventania feminina

Brasileiro campeão da Volvo é o atual técnico do único veleiro onde só embarcam mulheres

A BRITÂNICA SAM DAVIES, que já circunavegou a Terra sozinha, lidera como capitã o Team SCA, única equipe exclusivamente feminina desta edição da Volvo Ocean Race. A SCA conta com 11 tripulantes mulheres (três a mais que os homens), para dar igualdade de competição, segundo a organização. O time foi montado pelo treinador brasileiro Joca Signorini, participante de três VORs como velejador, chegando a vencer a regata 2008-2009 com o Ericsson 4, capitaneado por Torben Grael. “O fato de serem mulheres não as fazem menos capacitadas do que os homens, o que muda é a falta de experiência delas nesse tipo de barco em uma competição de tão alto nível”, diz Joca, que também defendeu o Brasil na Olimpíada de Atenas 2004 na classe finn.

Por dentro da frota

Destaques e números que ajudam a entender a edição atual da Volvo Ocean Race:

71.745 km Distância total percorrida por cada embarcação

9 meses é a duração total da edição 2014-15

2 semanas Tempo médio em terra firme entre as regatas

18 Nacionalidades diferentes tripulam os sete veleiros

13 Franceses: país mais representado nesta edição

1 Brasileiro compete nesta edição: André Fonseca (equipe Mapfre)

16 Participações brasileiras na história do evento

6 Edições de VOR tem o capitão holandês Bowne Bekking (Team Brunel), o mais experiente da competição

6.000 Calorias chegam a ser queimadas por dia por cada velejador

20,37 Metros de comprimento é o tamanho dos cascos do Volvo Ocean 65 (65 é o número que equivale ao tamanho em pés)

30,30 Metros: altura do mastro principal

36 Mil horas: tempo estimado para construir cada veleiro

15 milhões de euros foi o custo estimado por equipe para entrar na competição

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