Histórias de (um grande) remador

Em 2014, o canadense Mike Ranta vendeu a casa, pegou seu inseparável cachorro e se lançou na maior expedição autossuficiente já realizada a remo – e nem se importou em tentar incluir seu feito no Livro dos Recordes

Por Mario Mele

“SE VOCÊ ACHA QUE EU SOU um cara místico, então minha igreja é o mato”, responde por email o canadense Mike Ranta, de 43 anos. Em 2014, ele atravessou o próprio país, de oeste a leste, remando um caiaque de 5,50 metros de comprimento da marca Souris River Canoe, feito em kevlar e fibra de carbono. Durante sete meses, Mike e seu cão Spitzii (um legítimo spitz finlandês) navegaram por inúmeros rios de oito das dez províncias do Canadá e também se aventuraram em um trecho do Golfo de São Lourenço, já no oceano Atlântico. Uma peregrinação aquática autossuficiente de 7.650 km, finalizada 300 km antes do destino programado porque o canadense seguiu o conselho de uma menina de 5 anos. “Fiquei dias pensando no que ela me disse até finalmente decidir parar”, admitiu, satisfeito com sua escolha.


CANGAÇO CANADENSE: Mike usando um chapéu de casca
de bétula que ele mesmo fez, posando ao lado de seu
inseparável Spitzii (Todas as fotos: Mike Ranta).

Mesmo assim, a distância concluída é mais que o dobro do atual recorde mundial para uma expedição a remo desse tipo, solo e feita numa tacada só (em 2010, a apresentadora britânica Helen Skelton remou 3.234 quilômetros pela Amazônia). Mike, no entanto, não parece estar interessado na audiência e nem quis enviar à editora do Guinness Book seu diário de viagem, uma das comprovações exigidas para ter o feito homologado. “Esses relatos significam muito para mim, e não quero me desfazer deles assim”, justificou o canadense, que agora dificilmente terá o nome impresso na próxima edição do Livro dos Recordes. “As pessoas que me conhecem sabem da minha conquista e, para mim, isso é o que importa.”

No momento, o desafio de Mike é transformar suas anotações em um livro, que contará em detalhes a travessia dele e de Spitzii pelo Canadá. A seguir, ele adianta alguns capítulos.


CANTOR: Mike faz dupla com uma árvore expressiva no
norte de Ontario

Voz do além

“No fim de outubro, eu rebocava minha canoa pela estrada quando uma jovem, acompanhada da filha, puxou conversa. Elas vinham andando ao meu lado há algum um tempo, e percebi que a criança estava muito interessada no Spitzii. A mãe perguntou quando eu iria terminar a viagem, e respondi que provavelmente em novembro, na ilha Cape Breton. Foi então que a menina, até então tímida e calada, disse: ‘É perigoso estar no mar em novembro’. Havia algo de diferente naqueles olhos, aquela criança falava de um modo espiritual que não surpreendeu apenas a mim, mas à mãe dela também. Suas palavras pesaram sobre mim por quase três dias, até eu finalmente decidir parar, no dia 31 daquele mês. Ao tomar essa decisão, senti um alívio enorme. No dia seguinte, o vento ficou muito forte e começou a nevar. Teria sido impossível permanecer em qualquer caiaque.”


DÓCIL: Uma das inúmeras amizades que Spitzii fez pelo
caminho.

Remador profissional

“Em meu curto período de vida na Terra, já trabalhei em várias áreas, desde carpintaria até jardinagem, passando por plataformas de petróleo e campos de mineração. Mas eu gosto mesmo é de remar, quero fazer carreira nisso. Minhas primeiras memórias remetem a uma canoa. Sou abençoado por ter nascido e crescido em Atikokan [cidade de três mil habitantes da província de Ontário], considerada a ‘capital da canoagem no Canadá’. Remar é o que eu amo fazer.”

Dinheiro não é tudo

“Para viabilizar a expedição, vendi minha casa e consegui alguns patrocinadores em Atikokan. No início, tive o apoio de grandes marcas, mas no último minuto elas se retiraram porque acharam que seria uma viagem impossível e não queriam ter o nome relacionado a uma expedição mal sucedida. Felizmente estavam erradas. Além de eu me tornar a primeira pessoa da história a cruzar sozinho o continente norte-americano de canoa em uma única temporada, foi bom para provar a mim mesmo de que sou capaz.”

Guarda-costas

“Spitzii é meu companheiro, meu navegador e meu melhor amigo. Eu nunca vou a uma aventura sem ele. Há muitos ursos pardos no Canadá, e Spitzii sabe perfeitamente como mantê-los ocupados quando se aproximam. Durante nossa viagem, avistamos mais de 50 ursos, sendo que uma dúzia deles invadiu nosso acampamento enquanto cozinhávamos ou dormíamos. Eles não costumam ser ferozes, nem consideram o homem uma presa – na maioria das vezes, são apenas curiosos. É claro que há um risco, e há ataques de ursos registrados todos os anos. Isso, porém, não acontece quando se tem um cão valente. Certa noite, em uma parte remota de Saskatchewan, recebemos a visita de um bando coiotes do leste, que só foram embora depois que bati panelas e gritei bastante. Eu nunca carrego uma arma porque elas são pesadas e perigosas. Recuso-me a usá-las, é uma das piores invenções do homem. Existe sempre uma maneira melhor para lidar com as situações. Spitzii e eu temos uma ligação forte, nos comunicamos por meio de gestos, latidos e outros comandos. Ele costuma viajar na proa, sempre atento às rochas, galhos e castores. Eu não poderia ter feito essa viagem sem ele, temos um amor um pelo outro que é incondicional.”


CÃO DE GUARDA: Spitzii manda um sinal de alerta no rio French, saindo do lago Huron.

Dois lados da moeda

“Penei muito para subir o rio Winnipeg, entre Manitoba e Ontário. Choveu forte nas semanas anteriores e o rio estava em seu nível mais alto desde 1926. As comportas das sete usinas hidrelétricas tinham sido abertas para que a água entrasse, o que para mim se transformou em um verdadeiro inferno: foram três semanas enfrentando chuva forte e incessante para chegar a Kenora, em Ontário, sendo que em condições normais esse trajeto me tomaria dez dias. Como se não bastasse, um raio caiu bem próximo a mim e me deixou surdo por uns minutos e cego do olho esquerdo durante dois dias. Depois descobri que o raio também fritou uma lanterna e a minha câmera – perdi inclusive vídeos que estavam armazenados. Foram momentos de loucura. Por outro lado, foi incrível chegar remando à minha cidade natal, Atikokan, e ser recebido por amigos e familiares, que me saudaram das margens do rio. Nunca vou esquecer esse momento – meus olhos se enchem de lágrimas só de lembrar.”


CAPITÃO: Spitzii chega aos desfiladeiros do lago Superior.

Na missão

“Tudo o que faço é pensando em mudar um pouco o mundo para melhor. Nessas viagens, também arrecado dinheiro para centros de apoio a jovens de Atikokan. Quero mostrar a eles que você nunca deve desistir de seus sonhos, não importa o quão difícil eles pareçam ser. É tudo uma questão de correr atrás. Minha expedição foi bem sucedida, mas eu queria ter chegado à ilha Cape Breton. Por isso, em 2016, vou partir de Vancouver e pegar uma rota ao sul, para evitar alguns grandes lagos, e fazer um roteiro mais curto em Nova Brunswick e Nova Escócia. Em aproximadamente seis meses, pretendo finalmente aportar em Cape Breton.”

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