Direto do Nepal


DE VOLTA PRA CASA: Grupo de brasileiros aguarda o embarque no saguão do aeroporto de Katmandu (Fotos via GentedeMontanha.com)

“O maior problema agora é a desinformação”, diz o montanhista Maximo Kausch, que no momento do terremoto que atingiu o Nepal no último fim de semana guiava um grupo de brasileiros pelo país. Maximo, que tem mais de 10 temporadas de montanhismo por lá, nos enviou o relato a seguir, em que minimiza algumas notícias circuladas pela mídia sensacionalista e traça um panorama atual do pequeno país asiático do Himalaia, que agora conta com ajuda internacional para se reerguer da tragédia que afetou mais de 8 milhões de pessoas. "A falta de recursos não é nenhuma surpresa no Nepal", diz Maximo no relato abaixo.

Situação atual
Kathmandu finalmente acordou após quatro noites de sono. Desde o terremoto do dia 25, o governo local decretou que as pessoas não deveriam ficar em suas casas até que uma segunda ordem fosse dada. São milhões de pessoas dormindo na chuva, no quintal e até mesmo nas ruas, em barracas improvisadas. A maioria das lojas e mercados reabriu somente hoje. Obviamente, as informações que saíram sobre esse caos generalizado não eram nada boas.

Casas erguidas com colunas de aço quase não foram afetadas. O pior dano na região metropolitana de Katmandu foi sofrido por casas feitas apenas de tijolos ou pedras, especialmente na periferia. Cidades periféricas como Patan ou Bhaktapur (onde estão grandes templos históricos) tiveram a maior destruição porque são construções com estrutura muito pobre.

Atualmente, calcula-se que 20% das casas da capital, Katmandu, sofreram avarias, sendo que 3% destas tiveram danos graves ou desabaram. Esses dados são extraoficiais, considerando que só hoje os nepaleses começaram a fazer inspeções mais cuidadosas.

O Everest

Após o fechamento do Everest pelo segundo ano consecutivo, muitos temem um enfraquecimento significativo no turismo local. No ano passado, uma avalanche na cachoeira de gelo do Khumbu, responsável pela morte de 16 sherpas obrigou o cancelamento da temporada. Agora, outra avalanche, desta vez em decorrência do terremoto no Nepal, que matou 19 pessoas na base da montanha, é a causa do fechamento da montanha.

Ambos os lados do Everest – norte e sul – estão fechados. Apesar de não ser uma informação oficial, todas as expedições da face sul desta montanha estão terminadas. A notícia que chegou aqui dizia que três dos “icefall doctors” (os guias que trabalham na cachoeira de gelo para fixar a rota dos turistas) morreram na avalanche, o que dificulta muito a continuidade das expedições comerciais, pois os clientes não estão preparados para escalar a montanha sem cordas de segurança pré-instaladas. Muitos dos que tentavam escalar o Everest nessa temporada eram os que foram impedidos no ano passado, e isso trará uma péssima reputação à montanha. Mesmo com os descontos oferecidos pelo governo aos que já tentaram em 2015, muitos já acreditam que haverá uma diminuição de turistas tentando o cume do Everest na próxima temporada.

A China Tibet Mountaineering Association (CTMA), o órgão chinês que administra e autoriza expedições para escalar montanhas do lado tibetano do Everest, acabou de declarar que o Everest está fechado para expedições estrangeiras, e todos já estão descendo.

Agora, mais de 4.000 turistas estão em Lukla (ou a caminho), tentando chegar em Katmandu – Lukla é o famoso aeroporto que foi considerado o “número 1” entre os “10 aeroportos mais perigosos do mundo”, e que é usado no início e no fim do trekking do Everest.

Devido à quantidade de novos horários estabelecidos pelas empresas aéreas para atender a demanda de turistas querendo sair, não há espaço para os voos locais que tentam pousar em Katmandu. Há, inclusive, relatos de um avião com paramédicos japoneses que tentou aterrissar duas vezes em Katmandu, mas não conseguiu por conta do congestionamento de decolagens. Há centenas de pessoas que desistiram de Lukla e optaram por pousar em Phaplu e seguir de carro para Katmandu – uma viagem mais longa em, pelo menos, dois dias.


TENSÃO: Grupo volta do Trekking Annapurna, dias depois do terremoto

Langtang: no olho do terremoto

Há graves consequências em lugares como Langtang ou Lamjung, regiões que estão bem próximas ao epicentro do terremoto e cujos moradores, em sua maioria, são pessoas pobres. Consequentemente, as construções nessas áreas são bem precárias, e carecem de uma estrutura de aço e concreto.

Sem internet, ou sequer acesso à Langtang, os poucos gringos malucos que conseguem juntar suas tralhas e organizar expedições para ajudar, acabam sendo barrados pelo que parece ser os escombros de uma avalanche de alguns quilômetros de largura e que começou nas encostas das montanhas Langtang Lirung e Langtang II.

Pequenos vilarejos próximos a Langtang também foram soterrados pela avalanche. Há também problemas com uma série de deslizamentos de terra, além de outras avalanches causadas pelas dezenas de terremotos secundários que se originaram posteriormente.

O futuro e a mídia sensacionalista

Com o fechamento do Everest e o pânico causado em outras montanhas da região, a grande maioria dos turistas abandonou o vale do Khumbu e adjacentes, e neste momento está tentando retornar a Katmandu para deixar o país.

Vejo que a mídia sensacionalista teve um papel positivo e outro negativo. O lado negativo foi o pânico. Cansei de ler matérias publicadas durante esta semana de repórteres que alegavam que “não tem luz nem água”, ou dizendo que demoraram muito mais do que esperado para chegar à capital do país. Para os que vemos muitas vezes aqui, costumamos dizer: “TIN: This Is Nepal” (“Este é o Nepal”). O caos sempre tomou conta deste paizinho entalado no meio do Himalaia. A falta de recursos aqui não é surpresa!

Chegar por terra a Katmandu é uma ciência! Todos sabem dos comuns protestos nas estradas, que são diariamente fechadas devido às dezenas de partidos políticos novos que apareceram desde o fim da monarquia, em 2006.

Venho para cá há 10 anos. O Nepal sempre teve cortes de energia. Normalmente, a energia elétrica aqui é cortada por 16 horas no dia devido a problemas políticos ou contratos com o governo indiano. Quase não sobra energia para o Nepal. O abastecimento de água por aqui também sempre foi instável, e a internet é normalmente um pouco pior do que a brasileira – em outras palavras, muito ruim.

O lado positivo foram os recursos: ao verem tanto caos, profissionais da medicina de dezenas de nacionalidades, de fato se deram ao trabalho de vir ajudar. Além disso, inúmeros recursos foram levantados para ajudar a reverter essa tragédia. O problema agora é direcionar tudo isso para que seja bem aproveitado.


O AUTOR: Maximo Kausch escalando no Himalaia, há alguns anos (Foto: Grace McDonald)

Desinformação

Há inúmeros recursos chegando ao país a cada hora que passa. Falta ainda, porém, organização. Falta gente para priorizar e direcionar os recursos de acordo com a necessidade.

O maior problema no momento é a desinformação. Hoje, ao chegar à Katmandu, depois de duas semanas nas montanhas, vimos um grupo de paramédicos russos que tinham acabado de desembarcar no Nepal. Um guia nepalês os ajudava. Os russos já estavam com cara de “Ok, já chegamos e estamos prontos, mas aonde vamos agora?”. Com o pouco nepali que falo, consegui entender quando o guia chamou um amigo e ordenou: “Ache uns estrangeiros por aí e pergunte onde o terremoto foi grave.”

Pânico e desinformação afugentaram a massa de turistas do Nepal, o que está afetando muito a economia local. E, para um país que depende do turismo e está se reconstruindo, isso é grave!

Estima-se que há, pelo menos, 300 mil pessoas querendo sair ou que já saíram de Katmandu temendo o pior. Muitos optaram por ficar com a família em regiões rurais. Por um lado, isso vai descongestionar a cidade. Por outro, vai “matar” o comércio interno e, provavelmente, refletirá na inflação no ano que vem. Com uma inflação já um tanto generosa nos últimos oito anos, acredito que muitos turistas vão acabar optando por outros destinos turísticos. Ou seja, é outro “terremoto” que o pequeno Nepal tem que enfrentar.

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