O solista


SÓ SORRISOS: Marc feliz com mais uma escalada, na Patagônia (Foto: Matthew Van Biene)

Por Mario Mele

O CANADENSE MARC-ANDRE LECLERC escala para valer desde os 10 anos de idade, porém já se imaginava subindo montanhas aos 4. Hoje, aos 21, ele vê esse sonho realizado e, mais do que aprimorar seu talento para o free solo – o estilo mais radical da escalada, em que não se usa corda de proteção –, o atleta tira lições de vida quando é só ele e deus na rocha.

“Gosto daquele momento da escalada free solo em que você olha para baixo e pensa: ‘Tenho que me comprometer totalmente com isto aqui se eu quiser sair vivo”, diz.

Na escalada ou não, Marc age da mesma forma: odeia se encontrar em situações confortáveis e também não gosta de olhar para trás depois que tomou alguma decisão. Apesar de ser representante de um estilo de escalada totalmente dominado pelo norte-americano Alex Honnold, que transformou suas ascensões sem corda em espetáculos midiáticos, o canadense realizou feitos consideráveis no free solo. Em 2013, por exemplo, escalou os 305 metros verticais da via Grand Wall, em Squamish, no Canadá, em apenas 58 minutos – um recorde de velocidade que ainda pertence a ele. A seguir, Marc passa a limpo outras aventuras, em entrevista a nossa reportagem:

Imagem e semelhança

“Costumam dizer que me pareço fisicamente com Alex Honnold. Acho que é por causa do meu jeito calmo, uma característica da maioria dos escaladores free solo. Quando se escala dessa maneira, é inevitável desenvolver uma força mental que te faz manter a concentração na escalada. Alex é uma inspiração, com certeza, não há muitas pessoas interessadas nesse tipo de escalada. E é sempre bom saber que você não está sozinho nessa.”

Livre, leve e solto

“Solei pela primeira vez aos 15 anos. Era uma fenda de quinto grau (graduação brasileira) que ficava perto da minha casa. Pratiquei usando corda de segurança até tomar a decisão de ir sem nada. Desde então, minha evolução tem sido gradual. Gosto da simplicidade da escalada free solo e também do fato de ser rápida. Geralmente entro em vias que são fáceis para mim. Algumas escaladas free solo que mandei à vista podem ser consideradas algumas das coisas mais “difíceis” que já fiz, como a via Borderline, em Squamish. Ao todo são seis enfiadas, com um teto em 6sup [um nível tecnicamente mais difícil que um 6 grau] e agarras bem inseguras. Mas a escalada sem corda mais assustadora que enfrentei até hoje foi conectar três vias no Monte Slesse [no Canadá]. Uma sequência de movimentos de sexto grau em rocha frágil, em agarras pequenas e que poderiam facilmente se quebrar.”

Squamish versus Yosemite

“Squamish e Yosemite são ótimos lugares para a escalada, mas o Yosemite é bem maior. O [monólito de granito] Stawamus Chief, em Squamish, tem a metade do tamanho do El Capitan, no Yosemite, e por isso não há tantas vias de big wall. Pessoas pegas por tempestades podem congelar até a morte no El Cap, mas isso nunca vai acontecer em Squamish, que é um lugar mais amigável, eu diria. Em Squamish, não há guardas, as áreas de camping são de fácil acesso e as pessoas geralmente são muito agradáveis.”

Alta montanha

“Adoro estar na montanha, que é um lugar que frequento desde os 11 anos de idade. A alta montanha é inspiradora para mim, especialmente quando entro em rotas longas e difíceis. Posso estar sozinho ou com um parceiro, mas a escalada tem que ser em estilo rápido e sem cordas fixas.”

Movido pelo perigo

“Não acho que tenho que sentir a morte iminente para me sentir vivo. Quando estou exposto a um ambiente imprevisível como as montanhas, no entanto, sinto que faço parte de algo muito maior. As pessoas sempre querem se sentir conectadas à natureza, e algumas têm essa sensação quando vão à praia ou pegam uma trilha. Eu sinto a mesma coisa ao escalar um paredão rochoso em free solo ou quando estou isolado em alguma montanha.”

Competição e satisfação

“Disputei campeonatos de escalada quando tinha uns 11 anos de idade. Normalmente me dava bem e, às vezes, até ganhava, mas mesmo assim perdi rapidamente o interesse. Escalar paredes artificiais definitivamente não me motiva. Pode ser divertido vez ou outra, mas sinto como se estivesse jogando videogame.”

Aventura na teoria

“Uma aventura tem que ser rodeada de incertezas. Eu tento maximizar minhas aventuras em todos os aspectos. Na escalada esportiva, curto entrar em vias difíceis, não importa se eu apanhar um pouco ou até ser obrigado a dar meia-volta. Aventura é você estar em lugares com os quais não está familiarizado. Gosto de me lançar em grandes aventuras sozinho, sem ter a menor ideia do que estará por vir. A nossa sociedade hoje é tão focada em segurança e conforto, porém nada disso nos ajuda a crescer como pessoa. É chato socializar o tempo inteiro e eu não poderia ser feliz dessa forma. Então preciso sempre de uma aventura para fugir do comum.”

Aventura na prática

“Até hoje, o único lugar em que escalei fora da América do Norte foi na Patagônia. Eu e uns amigos fizemos a primeira ascensão ao Cerro Mariposa, numa região remota no vale do rio Turbio. Aquilo, sim, foi uma grande aventura. Tivemos que pegar cavalos e jangadas para chegar à base deste paredão virgem. Passamos duas semanas lá, mas a escalada em si nos tomou apenas um dia. Voltarei à América do Sul em breve e também pretendo escalar na Europa e no Himalaia.”

Aprendizado

“Escalar me mantém calmo. Aprendi a controlar minhas emoções e a confiar mais em mim mesmo. Também foi com a escalada que aprendi a traçar objetivos e a me esforçar para conquistá-los. Hoje sei o quanto ela é importante e real para mim. Sou grato a esse esporte por não ter que compartilhar de alguns aspectos falsos de nossa sociedade.”

Influências

“Dois dos meus heróis na escalada são Guy Edwards e Peter Croft, ambos canadenses. Mas me inspiro em qualquer pessoa que conheço e que seja única e motivada.”

Na manga

“Meus próximos desafios são escaladas free solo em alta montanha, que acredito que sejam uma tendência nesse esporte. Minha intenção é pegar as técnicas de escalada solo desenvolvidas em lugares como o Yosemite e aplicá-las em vias em lugares como a Patagônia ou o Himalaia. Quero ganhar experiência e confiança na alta montanha para, algum dia, colocar esse sonho em prática.”

SUBIDA LIVRE

Conheça três lendas da escalada free solo

John Bachar

Inspiração para dez entre dez escaladores free solo, John não usou cordas para varrer vias de sétimo grau (tabela brasileira) no Yosemite, na Califórnia, durante os anos 1970. Nas décadas seguintes, ele rompeu barreiras ao mandar vias 8b e 8c em Red Rocks (em Nevada), no mesmo estilo. Em 2009, aos 51 anos, John morreu ao falhar durante um free solo. A comunidade da escalada ficou em choque.

Dan Osman

Dan é protagonista de alguns filmes incríveis de escalada, em que sobe paredes a milhão sem usar cordas. Ele também deixou sua marca no Yosemite ao solar uma via de sétimo grau à vista. Dan adorava se amarrar em cordas somente para se jogar em vales, uma brincadeira extrema com a queda livre chamada rope swing – que o levou à morte, aos 35 anos.

Alain Robert

Equipado somente de sapatilha e saco de magnésio, o “homem-aranha francês” invade e escala arranha-céus desde a década de 1990. Entre suas famosas “vias urbanas” de escalada estão a Torre Eiffel e o Opera House de Sydney. Foi preso ao tentar escalar o Edifício Itália em São Paulo, em 2008. Não foi a primeira e certamente não será a última vez que isso acontecerá: aos 52 anos, o cara ainda está em plena atividade.

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