Campos-Parati

Por Piti Vieira

Fotos por Alexandre Cappi / Marcelo Naddeo

Se pedalar no parque da sua cidade está longe dos seus planos para um fim de semana de ação, prenda a bike ao rack do seu carro e caia na estrada com destino a Guaratinguetá, Lorena (no Vale do Ribeira) ou Cunha (na serra da Bocaina), cidades paulistas às margens da rodovia Presidente Dutra, entre as capitais São Paulo e Rio de Janeiro. De qualquer um desses pontos é possível refazer os trechos do Kaiak Natura MTB Trip Trail, prova que reuniu 58 duplas (239 quilômetros de percurso) e 45 quartetos (276 quilômetros) de atletas. O desafio, em esquema de revezamento, começava em Campos do Jordão – a 167 quilômetros de São Paulo –, passava por Guaratinguetá, Lorena e Cunha, e terminava em Parati, no litoral – a 263 quilômetros do Rio de Janeiro.

Os primeiros a cruzar a linha de chegada, na praça principal de Parati, foram os cariocas Albert Morgen Júnior, bicampeão pan-americano e tricampeão brasileiro de mountain bike, e Amarildo Ferreira, da dupla Amazonas Fuji/São Sebastião. Imprimindo um forte ritmo desde o início, eles souberam equilibrar as características de cada um com os trechos do percurso, de uma altura máxima de 1.934 metros, em Campos, ao nível do mar, e completaram a prova em 13 horas e 45 minutos.

Ok, ok… não foi um fim de semana dos mais relaxantes para a dupla. Mas nada impede que você passe pelos lugares mais bacanas percorridos por eles, sem abrir não do conforto e da curtição. Aproveite o visual, escolha os trechos que mais se adequam ao seu perfil esportivo e curta a viagem. Um fim de semana é tempo suficiente para pedalar mais do que cinco dos dez trechos da prova. Os mais bacanas estão entre Campos do Jordão e Guaratinguetá, e ao redor da estância de Cunha, cidadezinha de 25 mil habitantes entre colinas e montanhas, no alto da serra do mar, a apenas 44 quilômetros de Parati. Muitos rios, cachoeiras e verde te esperam para emoldurar seu pedal. Confira a seguir as características e atrações de cada trecho e acesse o www.gooutside.com.br para imprimir o road book e a planilha da prova para não se perder. E boa viagem.

TRECHO 1 – Campos do Jordão/Pedrinhas:

Distância: 26 km

Ascensão total: – 590 metros

A largada da prova era no Horto Florestal de Campos. Se você não estiver a fim de pedalar montanha acima, o ideal é pegar o carro e subir a montanha. São pouco mais de 50 km. Do centro de Guaratinguetá em direção ao Bairro das Pedrinhas, o acesso é feito pelos 19 km de asfalto da estrada vicinal Tancredo Neves até o povoado das Pedrinhas. A partir daí, o acesso se denomina Estrada Parque José Jorge Boueri. São 36 km de terra até o Horto. A paisagem é agradável, marcada por antigos casarões de fazendas, pequenos sítios, áreas de pastagens de gado entremeadas por pequenas matas e a presença de hotéis fazendas e pequenas pousadas.

Uma vez lá em cima, saindo de 1.527 metros de altitude, o ciclista encontrará uma subida forte e longa de oito quilômetros até os 1.952m de altitude, no alto da Serra da Mantiqueira e descerá por uma pista larga de terra com pedras soltas até os 711 metros de altitude. São 15 km de descida e o preparo precisa ser apenas médio. O destaque nesse trecho é o povoado do Gomeral, a 17 km de Pedrinhas. A paisagem neste trecho da estrada já é de região serrana, com altos picos e colinas de mata exuberante que propiciam a prática de esportes de aventura como alpinismo, rapel, asa delta, paraglider, caminhadas por percursos rasos dos ribeirões, além da bike. A grande altitude privilegia a vista da cidade de Guaratinguetá. Vale a pena encarar a subida de duas horas até o topo da Pedra Grande. O visual é incrível lá do alto. Perto da Igreja de São Lázaro há o restaurante Parada da Serra, para quem estiver a fim de repor as energias.

TRECHO 2 – Pedrinhas/Lorena:

Distância: 50 km

Ascensão total: – 700 metros

Apesar de ser o trecho mais “plano” de todo o percurso, no início o ciclista vai enfrentar uma subida técnica de 4 km e um downhill supertécnico em single track de 2 km. Depois disso, só pequenas subidas e muito trecho plano, acompanhando os canais d’água para a irrigação dos arrozais. No povoado das Pedrinhas, encontra-se um pequeno núcleo rural com infra-estrutura básica para a comunidade: farmácia, pequenos bares e mercearias, igreja e escola municipal. Como infra-estrutura de lazer há o Clube de Campo Pedrinhas e o Balneário Parque Águas da Mantiqueira, onde ocorre a junção do Ribeirão Gomeral com o ribeirão Taquaral, formando o ribeirão das Pedrinhas, uma paisagem que remete aos alpes europeus. As águas do ribeirão formam poços para banho com aproximadamente 2 metros de profundidade, 300 metros de comprimento e 5 metros de largura. Nesse trecho há um galpão para jogos com lanchonete, o Recanto da Iraci.

TRECHO 3 – Lorena/Rocinha:

Distância: 31,40 km

Ascensão total: – 866 metros

Trajeto marcado por uma paisagem tipicamente rural. A subida da Serra do Pedroso, de quase 7 km ininterruptos, exige bom condicionamento, mas não técnica, já que a descida até a Igreja de Sto. Expedito, na Rocinha, é feito por uma estrada de terra larga, bem batida. Em termos de esforço, é muito parecido com o trecho 1. O Bairro da Rocinha fica ao lado direito da Rodovia Presidente Dutra, sentido São Paulo-Rio de Janeiro. Seu acesso é feito pela Rodovia Paulo Virginio, sentido Cunha-Parati. São 21 km de estrada asfaltada do centro de Guaratinguetá até o núcleo rural do bairro da Rocinha. Da Rocinha até Cunha são mais 30 quilômetros. Como já justifica o nome, a Rocinha possui uma cultura peculiar do homem na roça, unindo a tradição caipira do interior de São Paulo com a cultura mineira. O núcleo possui infra-estrutura básica como farmácia, posto médico, lanchonetes e mercearias. No bairro encontramos resquícios da Revolução de 1932, nas trincheiras já esquecidas nos arredores do povoado. As tradições culturais do “Caipira” estão presentes também na deliciosa culinária local, em pratos como a galinha à caçarola, além dos doces e quitudes.


TRECHO 4 – Rocinha/Cunha:


Distância: 32,5 km

Ascensão total: 0

Trecho de subidas fortes e grande dificuldade técnica. Não há muito o que ver nesta parte além de colinas, montanhas e várias propriedades rurais. Serve mais de treino para quem tiver tempo sobrando ou está fazendo o percurso o completo.


TRECHO 5 – Cunha/Campos Novos:

Distância: 35 km

Ascensão total: 0

É um trecho tecnicamente fácil, longo e de pouca ascensão por uma estrada de terra bem batida. Campos Novos, no meio da Serra da Bocaina, é uma das entradas para o Parque Nacional da Bocaina, com vistas panorâmicas incríveis e cachoeiras pouco conhecidas, como a do Escorrega e do Cansado, dentro da propriedade do guia Marcelo Gutierrez, que faz a travessia do parque (www.trilhadoouro.com.br). Essa região foi explorada de diversas formas durante o ciclo do ouro e diamantes no século 18, quando seus caminhos – um deles a Estrada Real, que ligava Diamantina (MG) a Parati – serviram para o envio das riquezas a Portugal. Algumas trilhas foram alargadas e receberam calçamento feito pelos escravos, para permitir o escoamento da produção em carretões de tração animal. Porém, não era apenas pelas trilhas calçadas que estas riquezas passavam. Muitos viajantes, para fugir da tributação imposta pelo império sobre o minério extraído, utilizavam-se de trilhas alternativas e mais perigosas, traçadas na mata virgem pelos índios Guaianás, para chegar até a praia, de onde escoavam a produção.

TRECHO 6 – Trilha das Águas:

Distância: 16 km

Ascensão total: – 606 metros

Trecho difícil, curto e técnico – mas também um dos mais bonitos, com inúmeras atrações turísticas. Este pedaço tem subidas curtas e fortes e requer um alto nível de habilidade, pois o ciclista enfrentará um downhill técnico em pasto e outro marcado por uma grande erosão. Vale a pena visitar as cachoeira do Pimenta e do Desterro, duas quedas d’água imensas. Mas o pico imperdível é a Pedra da Macela, que também pode ser alcançada pela rodovia Cunha-Parati. Basta seguir até o km 65 e a partir daí pedalar mais 4 km em estrada cascalhada até a porteira de Furnas. Siga a pé mais 2 km. A caminhada até o topo é em estrada asfaltada, bem íngreme, com duração de 40 minutos a 1 hora. A 1.840 metros de altura, da Pedra da Macela dá para se avistar Parati, várias praias da região e até as Usinas Nucleares de Angra I e II.

TRECHO 7- Campos Novos/Lanchonete Caminho do Mar:

Distância: 28 km

Ascensão total: – 1.051 metros

Trecho casca grossa, longo e de muita ascensão, que foi decisivo na prova. Subidas muito íngrimes e downhills de velocidade que exigem um bom nível técnico. O Parque Estadual da Serra do Mar fica nesse trajeto. O acesso pode ser feito pela rodovia Cunha-Parati até o km 56,5. Entre a direita na estrada de terra que vai para o Bairro do Paraibuna (9 km). A partir do bairro são ainda 10 km até a entrada do parque, que preserva importantes áreas remanescentes da Mata Atlântica, com árvores de grande porte como cedro, peroba maçaranduba, canela, ipê, grumixama, guatambu, onde se alojam as bromélias, orquídeas, samambaias, liquens e lianas. O parque é também habitat natural da capivara, anta, paca, onça, quati, jaguatirica, sagüi, bugio, gaviões e papagaios, jacu, jacutinga e araponga, entre outras espécies.


TRECHO 8 – Lanchonete Caminho do Mar/Serra de Parati:

Distância: 6,2 km

Ascensão total: – 275 metros (aqui chega a 1.519 metros)

Dê uma respirada na lanchonete e despenque no asfalto até Parati, já que o trecho exige técnica zero. Aqui é possível utilizar uma bicicleta de estrada, ou trocar os pneus da mountain bike por outros mais lisos (slicks) e, se possível, travar as suspensões.

TRECHO 9 – Descida da Serra do Mar até Igreja da Penha:

Distância: 13,8 km

Ascensão total: – 107 metros

Considerado o melhor downhill de velocidade do Brasil, esse trecho de 9 km de terra bem acidentado e 4,8 quilômetros de asfalto numa estrada larga propicia altas velocidades e exige muito cuidado, porque as curvas não podem ser tangenciadas ao máximo já que há carros subindo no sentido oposto. Se o tempo estiver bom, a vista será alucinante.

TRECHO 10 – Trevo da Rio Santos – Parati:

Depois de toda nossa “epopéia”, passeie até Parati e tome uma gelada contando, para quem quiser ouvir, os louros da façanha. A chegada é na praça principal da cidade histórica.

EM GUARATINGUETÁ

– Pousada Monte Verde

Estrada Vicinal Tancredo Neves, s/n, Bairro da Pedrinha, tel.: (12) 3127 6137 e 3132 4474

– Hotel Fazenda Rancho Sete Lagos

Estrada Vicinal Tancredo Neves, Km 8, tel.: (12) 3132 6311

– Pousada Don’anna

Estrada Parque José Jorge Boueri, em Gomeral, tel.: (12) 9778 6099

EM LORENA

– Valle Hotel

Todos os quartos têm TV a cabo e frigobar. Esse é o que tem a maior área de lazer, com quadras e duas piscinas. Tel.: (12) 3153 1415. A partir de R$ 45. www.delvalle.tur.br

– Hotel Olympia

Todas as suítes são para duas ou três pessoas, com TV, frigobar e ar-condicionado. O preço é R$ 40 por pessoa. Tem piscina. Tel.: (12) 3153 2924. www.olympiahotel.com.br.

– Hotel Colonial

Construção antiga, ao lado da igreja matriz, no centro da cidade. Suítes a partir de R$ 56. Tel.: (12) 3152 1644.

EM CUNHA

– Hotel Fazenda Santa Bárbara (Pousada Samana)

Chalés com TV, vídeo, som. Bar, restaurante, cavalos, piscinas, lagos, cachoeiras, trilhas, saunas, sala de ginástica. O café da manhã e o atendimento são caprichadíssimos. Aceitam cachorros de pequeno porte. Rod.Cunha-Parati, km 58,5 (a 2 km do asfalto, estrada não pavimentada). Tel.: (11) 4441 8084 e 9810 7376.

– Pousada dos Anjos

Casa histórica de pau a pique que acomoda cinco pessoas, mais sete chalés para casais com arquitetura alternativa. Café da manhã caseiro, sauna à lenha, piscina de pedra com queda d’água. Rod. Cunha-Paraty, km 57, tel.: (12) 3111 8019. www.pousadadosanjos.com.br.

– Pousada Vale das Cachoeiras

Cachoeiras privativas com piscinas naturais, mata, trilha, horta orgânica, comida caseira, seis apartamentos com capacidade para hospedar até 24 pessoas. Estrada do Monjolo, km 13 (a 2,5 quilômetros da Cachoeira do Pimenta). Tel.: (12) 3111 1998. www.valedascachoeiras.com.br.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de outubro de 2005)

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