Tour de Lance

Por Andréa Estevam
Foto por Doug Pensinger/ Getty Images

Este mês, 198 ciclistas têm um encontro marcado com a verdade. Durante 21 dias, eles pedalarão contra eles mesmos e contra o relógio, zunindo por 3.600 quilômetros de estradas, numa média de 45 km/h. Os tempos e os resultados de cada dia não mentirão, e no fim, o mundo todo irá saber quem é o melhor ciclista da atualidade. Tudo isso será testemunhado por 15 milhões de espectadores espalhados pelo percurso – a maior audiência ao vivo de um evento esportivo – e dois bilhões de telespectadores no mundo todo, que acompanharão os lances de drama, comédia, heroísmo e suspense, numa espécie de reality-show endorfinado e cheio de ácido lático. É uma verdadeira batalha de músculos, cérebro e ambição.

A prova foi criada como uma manobra de marketing de um jornal esportivo francês, o L’Auto, para combater um veículo concorrente, o Le Velò, líder em vendas. As primeiras edições foram brutais: os ciclistas pedalavam noite adentro em etapas com até 15 horas de duração, consertavam suas próprias bikes, usavam as mesmas roupas do começo ao fim da competição e encaravam as montanhas dos Alpes e dos Pirineus com bicicletas que pesavam o triplo dos modelos atuais, com apenas duas marchas – uma para as partes planas e outra para as subidas. Detalhe: para mudá-las, era preciso descer da bike e girar a roda de trás. Não era à toa que eram chamados, carinhosamente, de “os condenados da estrada”. Em 1919, quando a prova já era disputada em equipes e havia se tornado tão popular que o público lotava as ruas para ver os ciclistas passarem, os organizadores tiveram a idéia de vestir o líder com uma camiseta amarela, para ser facilmente identificado. Nascia o ícone do ciclismo, a famosa yellow jersey ou maillot jaune.

Nem uma coisa nem outra

O Tour de France é uma corrida paradoxal: apesar de ser disputada em equipe, só uma pessoa ganha. Todo a equipe trabalha para o ciclista que tem mais chances de conseguir a melhor classificação geral, sacrificando seus próprios resultados individuais. Uma boa equipe precisa ter pelo menos um ciclista que possa competir com os melhores do mundo nas três principais especialidades da prova: sprint ou velocidade, “escalada” ou subida de montanha e contra-relógio. Apesar de todas as especialidades serem importantes para que a equipe faça o menor tempo total possível, são os “escaladores” como Lance Armstrong que determinam a vitória da equipe. É nas montanhas assassinas da França que os ciclistas podem abrir minutos, quem sabe até horas de diferença.

A cada seis dias de pedal, um de descanso. A cada noite, um hotel, uma massagem e o máximo de sono possível para recarregar baterias para o dia seguinte. Para sobreviver ao Tour, não é suficiente ser forte – é preciso ter resistência, capacidade de recuperação, preparo psicológico e uma grande capacidade de suportar a dor. Num dia, um ciclista chega a queimar 9 mil calorias. O desgaste fisiológico de um Tour pode exigir até dois meses de descanso dos atletas.

Muita coisa mudou desde a primeira edição do Tour de France, em 1903. Hoje as regras são diferentes e o sofrimento vem embalado numa infra-estrutura grande, cara e colorida – um circo parecido com o da Fórmula 1, só que com duas rodas e com motores movidos a carboidratos, isotônicos e suor. A imagem do ciclista solitário pedalando pela noite deu lugar aos pelotões de roupas vibrantes e equipamentos high-tech. As vinte e duas equipes selecionadas investem milhões de dólares para contratar os melhores atletas, montar os melhores times e ter mais chances de uma boa classificação. Mais do que a premiação – são quase 3 milhões de euros no total, sendo 400 mil só para o primeiro colocado – vencer o Tour de France é para os ciclistas a chance de se tornar imortal.


O pódio do Tour

Hoje o assunto é Lance Armstrong, o texano arrogante e determinado que se tornou o primeiro a vencer seis Tour de France e até o fim deste mês, quem sabe, terá vencido o sétimo. Antes de Lance apenas outros quatro ciclistas venceram cinco edições da prova.

O primeiro foi o francês Jaques Anquetil (1934 – 1987), campeão em 1957, 1961, 1962, 1963 e 1964. Conhecido como “Monsieur Chrono”, ele foi o primeiro a vencer cinco vezes – uma delas logo em sua estréia na prova. Também venceu dois Giros D’Itália e uma Volta da Espanha (as outras duas provas mais importantes do calendário mundial, junto com o Tour).

O próximo supercampeão foi o belga Eddy Merckx (1969, 1970, 1971, 1972, 1974), também conhecido como “Canibal” por ser era letal em todas as disciplinas, dos time trials às etapas de montanha. Em 13 anos de competição, ganhou 496 provas profissionais, vencendo cinco Tours de France, cinco Giros D’Itália e sete Milan-San Remo.

Bernard Hinault, francês, participou de oito Tours. Venceu cinco (1978, 1979, 1981, 1982, 1985) e ficou dois em segundo. Tão bom velocista quando escalador, Hinault tinha um grande preparo psicológico e era obcecado pela vitória. Ele se aposentou em 1986 e virou fazendeiro.

O espanhol Miguel Indurain, o “Big Mig”, foi o primeiro ciclista a ganhar o Tour cinco vezes consecutivas (1991, 1992, 1993, 1994, 1995), tornando-se o maior atleta espanhol da história. Indurain tinha uma extraordinária capacidade pulmonar e uma freqüência cardíaca de repouso baixíssima – 28 batimentos por minutos, mais baixa que a de Lance, que é de 32.

L’Etape dos café-com-leite

Todo ano, 8.500 ciclistas amadores se inscrevem para a dor e a alegria de fazer uma das etapas do Tour de France. É a L’Etape do Tour, fundada em 1993 pela revista francesa Velò para dar aos pobres mortais a chance de sentir na pele as emoções da maior prova ciclística do mundo. As vagas esgotam-se em um ou dois dias, preenchidas por pessoas do mundo todo, inclusive celebridades como o ex-piloto Alan Prost e o pentacampeão do Tour, Miguel Indurain.

O L’Etape do Tour pode ter de 140 a 240 quilômetros de percurso que são percorridos como uma competição, com largada, chegada e chips para marcar o tempo. A organização da prova costuma escolher sempre a chamada “etapa rainha”, a mais difícil de cada ano, para dar de aperitivo aos amadores. Este ano a escolhida foi a 16a etapa, nos Pirineus, de Mourenx a Pau, com 180 quilômetros.

Este ano, um grupo de 14 brasileiros embarca dia 7 de julho para L’Etape sob a organização do ex-ciclista profissional Cleber Ricci Anderson e do triatleta amador Pedro Henrique Oliveira. A inscrição para a brincadeira semi-masoquista custa 100 euros. Se deu vontade, mande um e-mail para cle@andersonbicicletas.com.br. Ano que vem, você pode estar lá.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de julho de 2005)

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