Nos passos de Shackleton


ENCAPOTADO: Heber com roupas usadas em trabalho de campo,
em São Paulo (FOTO: Leandro Monteiro)

Por Nina Rahe

AOS 52 ANOS, Heber Passos não fica nada a dever aos grandes exploradores polares quando o assunto é a Antártida: à la Sir Ernest Shackleton, esse intrépido mineiro virou expert no assunto – e já contabiliza 30 visitas ao continente gelado. Todas elas com um mesmo objetivo: instalar equipamentos meteorológicos que enviam dados da região a cientistas brasileiros cujo trabalho é estudar temas como as mudanças climáticas.

Desde 1984, com a criação do Programa Antártico Brasileiro e a construção da base para pesquisas Estação Antártica Comandante Ferraz, o país manda técnicos e pesquisadores para lá. A maioria permanece de 30 a 60 dias, principalmente no verão, quando as temperaturas ficam “amenas” e não costumam baixar além dos 10ºC negativos. Porém os profissionais da área de meteorologia, como Heber, são exceção: volta e meia são convocados também no inverno. Isso significa encarar temporadas de extremo frio que podem ultrapassar os 30ºC abaixo de zero.

Mesmo diante de ventos congelantes e escuridão invernal, a equipe de Heber se arrisca nesse ambiente hostil para que seus equipamentos transmitam informações como temperatura, pressão, umidade do ar, nível de CO2 – amostras essenciais para o estudo dos pesquisadores brasileiros.

Para aguentar tanto perrengue sem perder o ânimo, Heber revela que o segredo é a intensa dedicação e foco no trabalho. Evita-se, assim, tempo ocioso e estresse desnecessário. Mas nem tudo sempre sai como planejado: em 1993, uma falha no gerador deixou a estação brasileira sem energia por quase 12 horas, levando a uma sensação térmica no interior da base de 14ºC negativos. “O excesso de neve cobriu as janelas e escureceu todos os cômodos. A solução foi cavar buracos que permitissem a entrada de luz”, lembra Heber.

Em 2012, um incêndio atingiu o local, destruindo todas as instalações do módulo principal, que abrigava até 60 pessoas. Dois anos depois do desastre, uma base provisória foi construída, garantindo aos pesquisadores relativo conforto. Heber e seu time, no entanto, não contam com tais “regalias”. Desde 2011, eles são enviados para a Criosfera 1, o primeiro módulo científico brasileiro no interior da Antártica, localizado a 550 quilômetros do Polo Sul. Lá há dias em que a sensação térmica chega a 45ºC negativos. Porém Heber sempre tenta ver o lado bom: “Pelo menos na Criosfera os ventos não ultrapassam 90 km/h, enquanto na base podem atingir 160 km/h”.

Instalados em barracas, os cientistas permanecem praticamente isolados, em períodos que podem durar até três semanas. A comunicação é limitada, acontece por satélite e fica reservada a casos de emergência – bem diferente da base, onde há internet e sinal para celular. Por segurança, ninguém sai de perto do acampamento. “O branco é tão infinito que, se a gente se afastar, perde a noção de espaço”, explica Heber. “É inevitável não sentir medo porque estamos em um local inóspito. Mas é uma região apaixonante, onde sobram beleza e calmaria.”


NUMA GELADA: Imagem da equipe de Heber em ação, na Antártida
(FOTO: Agência Brasil)

(Trecho de reportagem publicada originalmente na Go Outside de setembro de 2014)

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