Rios livres


DEFENSOR: O ativista Peter Hartmann levanta a bandeira da preservação às margens do rio Pascua
(FOTO: internationalrivers.org)

Por Mario Mele

FOI UMA GRANDE VITÓRIA do meio ambiente. Em junho, o governo federal do Chile, por meio de um comitê de ministros, vetou um projeto conhecido como HidroAysén que pretendia construir cinco usinas hidrelétricas na região de Aisén, no sul do país. Segundo ambientalistas, isso evitou a massiva devastação de uma das últimas áreas realmente selvagens do planeta: a Patagônia.

A notícia foi muito comemorada, em especial pelos moradores de Aisén, que seriam diretamente atingidos com a construção das hidrelétricas. “É um dia histórico”, vibrou o ativista Juan Pablo Orrego, coordenador internacional da Patagonia Sin Represas, um conselho formado por cidadãos locais e organizações internacionais que lutam pela preservação daquela região. “O esforço dos cidadãos realmente inspirou o governo a fazer o que é certo, e isso me emociona”, completou Juan Pablo.

Diferentemente do que muita gente imagina, as barragens hidrelétricas geram impactos irreversíveis ao meio ambiente – um assunto histórico no Chile. Segundo Kristine Tompkins, co-fundadora da Conservacion Patagonica – organização que há mais de dez anos defende a criação de parques nacionais nas Patagônias chilena e argentina –, nos anos 1970 e 1980, durante a ditadura de Augusto Pinochet, o país focou grande parte de seus empreendimentos nos recursos hídricos. Desde então, a empresa privada espanhola de energia Endesa mira todos os seus novos projetos nos rios chilenos. Em 1996, sob uma enxurrada de polêmicas, a Endesa inaugurou duas usinas hidrelétricas no rio Biobío, o segundo maior do Chile e que corta o sul do país. No entanto, na prática, o que se viu não foi exatamente o desenvolvimento da nação. “Hoje a parte alta desse rio não é mais um ecossistema, mas uma máquina hidráulica que produz apenas energia e dinheiro”, revela, indignado, Juan Pablo, em um documentário produzido pela Woodshed Films que abordou a realidade fluvial daquela região.

A verdade é que não existe produção de energia 100% limpa. Até a eólica tem seus pontos negativos – nos Estados Unidos, onde esse recurso é bem aproveitado, órgãos governamentais ficam divididos entre apoiar e processar essas “fazendas de ventos”, cujas hélices trituram mais de meio milhão de aves migratórias por ano. As hidrelétricas de Biobío também foram traiçoeiras, principalmente com a tribo pehuenche, de cultura mapuche. Elas alteraram drasticamente o ambiente, secando cachoeiras e alagando áreas que antes eram o habitat desses índios e de animais silvestres. Com isso, os moradores mais antigos, que ocupavam aquelas terras há milhares de anos, foram obrigados a dar no pé.


BELEZA MANTIDA: No sul do Chile, o rio Baker tem importância
socioambiental; abaixo, cidadãos que dependem desse rio
organizam um protesto
(FOTOS: internationalrivers.org)

EM 2011, O BRASIL VIVEU UMA SITUAÇÃO IDÊNTICA com o início das obras da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Da mesma maneira que no Chile, ativistas chamaram a atenção para essa barragem, que desviou 80% do fluxo do rio Xingu e inundou uma extensa área de floresta tropical. Mas nem o fato de 20 mil pessoas – entre índios e povos ribeirinhos – terem sido obrigadas a procurar outro lugar para morar foi suficiente para governos federais subsequentes mudarem os planos. A usina hidrelétrica de Belo Monte deve ser inaugurada no começo de 2015.

Como a Floresta Amazônica, a Patagônia é um tesouro natural de reconhecimento mundial. No Chile, a presidente Michelle Bachelet, que assumiu um segundo mandato em 2014, foi determinante para o país ouvir as partes envolvidas, repensar e rejeitar a HidroAysén, ferozmente defendida pelo governo antecessor de Sebastián Piñera.

Em sua campanha eleitoral, Michelle havia concordado que represar os rios Baker e Pascua, em Aisén, seria uma séria ameaça a essa grande reserva de água doce e potável do planeta. No mesmo projeto também era prevista a construção de uma extensa rede de transmissão de quase dois mil quilômetros, passando por cima de terras virgens e pequenos povoados, para levar a energia elétrica à capital, Santiago – que no final das contas seria a única cidade beneficiada. Os ativistas chilenos mostraram ainda que 80% das pessoas que vivem sob esses fios de alta tensão desenvolvem câncer em algum momento da vida.

Defesas embasadas por parte de grupos comunitários foram relevantes para brecar o progresso da HidroAysén. Um exemplo é Marco Diaz, líder dos Defensores do Espírito da Patagônia, que saiu a campo para analisar os prós e contras das usinas hidrelétricas. O resultado o deixou chocado. “Descobri que, durante a construção das usinas no Biobío, foi propagandeado que também seriam feitos colégios e estradas. Foram apenas promessas, nunca cumpridas, que só serviram para abrir caminho aos interesses do governo.”

Em 2008, numa época em que todos acreditavam que a HidroAysén era apenas uma questão de tempo, mais de 300 moradores de Aisén foram às ruas para uma cavalgada de três dias pela região. Empunhando megafones e faixas, eles protestaram contra a construção das barragens em frente à sede do governo regional e em praças públicas. O grito pela natureza revelou-se forte. Três anos depois, uma pesquisa feita pelo instituto Ipsos revelou que mais de 60% da população do país já rejeitava o projeto, e até o Greenpeace comprou a briga. Aquele era o começo de uma luta vitoriosa pela preservação que mostrou ao mundo que a Patagônia não pode ser sacrificada nem pelo maior investimento energético da história do Chile.


DE MÃOS ATADAS: Um índio munduruku observa a construção da hidrelétrica de
Belo Monte (PA) sem nada mais poder fazer
(FOTO: Taylor Weidman)

Quando o ativismo dá resultado

Uma ação local pode ganhar grandes dimensões, como estes três casos em que o manifesto fez a diferença

Erradicação das minas terrestres

No fim dos anos 1990, a norte-americana Jody Williams lançou a Campanha Internacional para a Eliminação de Minas para remover as armadilhas terrestres que permanecem mesmo depois que a guerra termina. Ainda hoje, as minas terrestres são responsáveis pela morte de milhares de civis inocentes todo ano, principalmente na África. A campanha levou à criação da Convenção sobre a Proibição das Minas, da ONU.

O poder do abaixo-assinado online

Será que aquelas petições que recebemos por email dão algum resultado? A resposta é “sim”. Um exemplo recente impediu a expulsão da tribo masai, na Tanzânia, de suas terras, que virariam um “point” destinado à caça de animais. A rede de ativistas Avaaz colheu dois milhões de assinaturas, que chegaram aos órgãos públicos daquele país africano, e a causa acabou virando notícia mundial. Esse foi o começo de uma pressão política que terminou com a vitória do povo Masai, que permanece em seu habitat.


Salvem as baleias

Documentários são grandes armas do ativismo. Em 2013, o filme Blackfish – que mostra que manter baleias orcas em cativeiro é um perigo a treinadores e uma crueldade com esses animais – foi exibido no renomado Festival Sundance. O tema ecoou e, em 2014, foi anunciado nos Estados Unidos o projeto de lei Orca Welfare and Safety Act, que propõe banir a criação de baleias orcas em cativeiro. Se aprovado, o conceito de entretenimento em parques aquáticos será revisto, e o SeaWorld terá que reabilitar as orcas criadas em piscinas para recolocá-las no mar.


Nação hidrelétrica

Neste ano, o aclamado festival de cinema norte-americano Mountainfilm in Telluride apresentou o documentário DamNation [título que significa tanto Nação Hidrelétrica como Condenação, em inglês], uma odisseia sobre a desativação e demolição das mais de 70 mil barragens pelos rios dos EUA. O filme mostra como a mudança de comportamento pode ser a maior evolução de uma nação: se no fim do século 19 o país apostou nas hidrelétricas como a solução para uma crise energética, hoje a grande maioria dessas usinas (já desativadas) não passa de gigantes muralhas obsoletas de concreto – verdadeiros elefantes brancos que atravancam o equilíbrio natural do ecossistema ao redor.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de setembro de 2014)

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