O fim do Everest


TARDE DEMAIS: Resgate de um dos corpos encontrados no Everest, em 18 de abril; ao lado, Lakpa Rita, guia-líder da agência Alpine Ascents, em foto tirada no Nepal
(FOTOS: Grayson Schaffer e Andy Tyson)

A fatídica manhã de 18 de abril de 2014 não será lembrada apenas como a data do maior acidente da história do Everest, na qual 16 sherpas morreram por causa de uma avalanche. Esse dia marca também a mais tensa reviravolta no rumo das expedições comerciais que levam clientes ao cume da montanha. O jornalista Grayson Schaffer viajou para lá após a tragédia para entender melhor os fatos e as consequências da catástrofe que mudará para sempre os acontecimentos no topo do mundo

1. Pernas, botas e mochilas

Às três da madrugada, soou o alarme de Lhakpa Gyalgen no acampamento base, mas ele cochilou até as 3h07, quando Tenzing Chottar chacoalhou o sobreteto de sua barraca. Lhakpa, 30, nasceu em Thame, no Nepal, e foi lama no monastério de Kopan, em Katmandu, antes de se tornar escalador. Tenzing, de 27 anos, tinha mulher e um filho de 4 meses. Lhakpa também tinha um filho pequeno, de 2 anos, que nasceu cego. Ele e Tenzing moravam próximos um do outro por mais da metade do ano em Sambala, um bairro de Katmandu, capital do Nepal.

Lhakpa já havia trabalhado no Everest várias vezes, mas esta era a estreia de Tenzing na maior montanha da Terra. Fisicamente, ele era perfeito para trabalhar em expedições que levam as pessoas até o cume do Everest – baixo, forte e cheio de energia –, mas no Himalaia nada substitui a experiência. “Ele havia subido várias montanhas, porém nunca estivera em grandes altitudes”, conta Lakpa Rita, o respeitado sirdar (ou chefe dos sherpas) da empresa norte-americana Alpine Ascents International, uma das melhores agências de turismo que organiza expedições no lado sul do Everest.

Naquela manhã do dia 18 de abril de 2014, Lakpa Rita contava com 27 sherpas preparando-se para carregar suprimentos e cargas pela Cascata do Khumbu, um trecho traiçoeiro e instável de gelo que leva ao cume do Everest. A Alpine Ascents tinha sido também contratada pelo canal Discovery Channel para dar apoio logístico para as transmissões ao vivo da tentativa do base jumper Joby Ogwyn de saltar de wingstuit do cume do Everest. Lakpa Rita tinha ainda 12 clientes pagantes que tentariam chegar ao cume.

Lakpa Rita e seu irmão mais novo, Kami Rita, já há muito haviam conquistado o direito de dormirem até o nascer do sol: entre os dois, já contabilizavam 37 cumes do Everest. Dentre os homens que estavam trabalhando para eles naquele dia, estava Ang Tshering, que, aos 56 anos, era o mais velho da turma. Ele foi cozinheiro no acampamento 2 por mais de 20 anos e tinha acabado de construir uma casa de chá no vilarejo de Thamo, pensando na aposentadoria.

Eu havia conhecido Ang Tshering em outono de 2012, durante uma reportagem que estava fazendo em Thame. Ele falou orgulhosamente sobre o famoso Lakpa Rita – “o grande sirdar que faz resgates em todas as expedições”, disse. Me contou como, naquele verão, Lakpa Rita tinha desenterrado e salvado seu filho mais novo, Mingma, após uma avalanche na montanha Manaslu que matou 11 pessoas. Em 2014, a última temporada da carreira de Ang Tsering, ele deveria fazer apenas uma travessia da perigosa Cascata do Khumbu até o acampamento 2, a 6.490 metros.

Ang Tshering começou a andar ao lado de seu filho Pemba Tenging, de 36 anos, e o homem mais jovem rapidamente foi caminhando na frente. Então foram surgindo no percurso mais de uma centena de oscilantes lanternas de cabeça, quase todas de sherpas que trabalhavam em outras agências de turismo que operam no Everest.

A CASCATA DE GELO DO KHUMBU é o primeiro grande desafio na escalada rumo ao topo do Everest – e um de seus mais implacáveis assassinos de quem almeja o cume. Com o passar dos anos, ao avançar montanha abaixo a partir do acampamento 1 (a 6.065 metros) para o acampamento base (5.365 metros), a uma velocidade de alguns poucos metros por dia, o Glaciar do Khumbu se racha, formando colunas altas, plataformas quebradiças de gelo e gretas profundas que se movem constantemente e cujas paredes estão sempre prestes a desabar. Todos os anos, o governo do Nepal contrata um grupo de sherpas conhecidos como os Doutores da Cascata de Gelo, que realizam um trabalho perigoso: estabelecer uma rota que cruze a cascata de gelo, fixando ali cordas e colocando escadas de alumínio nas gretas e nos penhascos para que os clientes das expedições possam atravessar essa área e chegar ao topo da montanha.

Elevando-se diretamente acima da Cascata de Gelo, encontra-se o “ombro oeste” do Everest, uma face de 1,6 quilômetros de altura que apoia um gigantesco glaciar suspenso. Ao se mover para baixo, o glaciar regularmente se parte, disparando blocos de gelo para baixo. Em anos recentes, a rota para o acampamento 1 foi se desviando para o lado esquerdo da Cascata do Khumbu, diretamente abaixo desse ombro.

Por volta das 6h30 da manhã, Tenzing Chottar e Lhakpa Gyalgen chegaram ao topo de uma série de plataformas planas, a 5.852 metros, conhecidas como o “Campo de Futebol”, onde o terreno começa a ficar complicado. Uma escada tripla, com suas seções unidas com cordas coreanas baratas, permite a subida a uma parede de gelo. Do outro lado existe uma descida para mais duas travessias por escadas sobre um abismo de 30 metros. Pemba Tenzing estava no primeiro grupo que chegou a essas escadas, uma das quais havia sido danificada com a queda do gelo. Os primeiros sherpas tiraram suas mochilas e começaram a consertar a escada, enquanto uma fileira de gente se formou atrás deles. “Quando cheguei lá, as pessoas estavam dizendo: ‘Nas montanhas, você precisa ficar na fila, assim como quando vai encher o tanque do carro em Katmadu’”, lembra Lhakpa Gyalgen. “Tinha até gente tirando fotos.”

Levou ainda um tempo para consertar o sistema de segurança desse trecho da escalada. Havia mais de cem sherpas encordados na metade superior da Cascata do Khumbu, a maior parte deles já acima do gargalo de gente. Lhakpa Gyalgen passou as escadas e olhou para trás. Ang Tshering estava em meio a uma dúzia de pessoas, esperando sua vez de passar. Ele acenou. Nima, um sherpa que trabalhava para a Alpine Ascents, estava em uma das escadas tirando uma foto com seu celular, e Tenzing Chottar tinha acabado de sair da escada.

Naquele momento, um pedaço de gelo do tamanho de um edifício de dez andares se soltou e começou a cair em direção à cascata. Lá embaixo, na barraca de comunicações da agência Madison Mountaineering, Kurt Hunter, gerente do acampamento base, estava no rádio conversando com seu sirdar, Dorjee Khatri. Ele ouviu o estrondo e um grito, então um silêncio.

O QUE DESABOU naquele dia foi chamado de avalanche pelo fato de ser composta de água congelada. Fora isso, estava mais para um cometa caindo do céu. Quando o serac (pedaço de gelo de um glaciar) se partiu, primeiramente deslizou como um sólido bloco de gelo azul. Mais tarde, um cliente chinês da agência Jagged Globe analisou algumas fotos da área do glaciar de onde veio o bloco, tiradas antes e depois do início do deslizamento, e estimou que ele deveria ter uns 40 metros de largura, quase 700 metros cúbicos e umas 64 mil toneladas. O bloco de gelo estava mais ou menos 400 metros acima da via e, quando acabou de desabar pelo ombro ocidental do Everest, havia se detonado, lançando detritos e até pedaços de rocha, enquanto rugia sobre a encosta com uma fúria inimaginável.

Muitos dos homens – tanto os sobreviventes como os 16 que morreram – provavelmente ouviram algo semelhante ao som de um relâmpago. De longe, uma grande avalanche no Everest pode ser confundida com um terremoto. Entre o primeiro ruído e o impacto final, os que estavam mais abaixo tiveram aproximadamente dez segundos para reagir.

Lhakpa Gyalgen disse que correu “muito rapidamente” montanha acima e agarrou Pasang Dorje, outro sherpa da Alpine Ascents. Os dois se jogaram atrás de um fino pedaço de gelo que oferecia alguma proteção. Um pequeno bloco de gelo do tamanho de um punho passou rasgando a jaqueta de Lhakpa Gyalgen e espalhou as plumas pelo ar, como se alguém tivesse atirado em uma ave. As garrafas térmicas que Pasang Dorje levava em sua mochila foram destruídas pelo impacto de um pedaço de gelo, mas ele não se machucou. “Não sei como minhas costas se salvaram”, disse mais tarde Lhakpa Gyalgen, quando o entrevistei.

Na montanha, em meio ao grupo de carregadores, havia um sherpa chamado Dawa Tashi que trabalhava para a agência britânica Jagged Globe. Quando todo mundo se virou e se agachou, ele permaneceu como estava. De acordo com sua descrição, já numa cama de um hospital em Katmandu, ele projetou o peito diretamente contra a avalanche, recebendo os impactos no tronco e na cabeça. “Eu me lembrei de minha mulher em Katmandu”, disse. “Me lembrei dos meus pais. E então fui nocauteado.”

Durante a avalanche, dois sherpas da agência Adventure Consultants, Kaji e outro jovem chamado Chhewang, estavam se preparando para atravessar a escada, depois de Nima e de Tenzing Chottar. Eles viram uma pequena saliência perto deles, e Chhewang empurrou Kaji para trás dela. Nos instantes seguintes, Kaji testemunhou a morte de Nima ou de Tenzing Chottar. “Foi como um relâmpago. Eu percebi o que era, mas não havia como escapar. Perdi os sentidos.”

Exatamente abaixo deles se encontrava Dorjee Khatri, sirdar da Madison Mountaineering, que estava no topo da escada tripla, falando em seu rádio. A avalanche principal enterrou-o de cabeça para baixo e projetou mais pedaços de gelo que mataram Phur Temba, sherpa da Madison, na base da escada.

NO ACAMPAMENTO BASE, o veterano guia norte-americano Michael Horst, da Alpine Ascents, havia acabado de acordar quando ouviu o estrondo. “Eu abri a barraca, olhei para o sul em direção à lua e, então, ouvi o deslizamento da avalanche e a vi varrendo a rota”, diz. “Percebi logo de cara que não tinha como não haver vítimas nesse desastre.” Michael correu para a barraca de Lakpa Rita e a chacoalhou para acordá-lo. Lakpa Rita tinha um rádio por perto o tempo todo e o ligou. Quando estabeleceu contato com Lhakpa Gyalgen, logo lhe contaram que “acontecera uma coisa terrível lá em cima”.

Em seguida, Michael acordou Joe Kluberton, seu supervisor do acampamento base, que iria coordenar os contatos pelo rádio. Dali, foram enviadas informações para alguns guias de outros acampamentos, que frequentemente ajudavam em casos de resgate, como o argentino Damian Benegas, da agência Benegas Brothers Expeditions, o renomado Dave Hahn, da Rainier Mountaineering, e a equipe da International Mountain Guides (IMG), que tinha vários clientes e sherpas no Campo de Futebol quando a avalanche começou. Quando todos eles se juntaram, Lakpa Rita e Kami Rita já estavam na trilha que levava aos mortos e feridos. Chegar do acampamento base até a zona de impacto envolvia uma caminhada de 480 metros de ascensão, o que, naquela altitude, fez com que Lakpa Rita e seu irmão demorassem 90 minutos para percorrer o caminho.

Lá em cima na Cascata do Khumbu, os sherpas sobreviventes estavam em estado de choque, mas mesmo assim conseguiram tomar algumas medidas de emergência. A onda de gelo pulverizado passou por eles com uma rajada de vento, cobrindo cada homem com um pó branco fantasmagórico. A nuvem de poeira se estendeu por toda a largura do Khumbu e abafou qualquer som, criando uma sinistra bolha de silêncio. “Eu estava segurando a mochila de Pasang Dorje e achei o rádio que estava nela”, disse Lhakpa Gyalgen. “Nós dois estávamos brancos por causa do gelo.” Eles relataram a Lakpa Rita o que tinha acontecido. Seus equipamentos haviam sido destruídos, e eles precisavam de ajuda. “Respondi para eles não se preocuparem com os equipamentos, apenas com sua segurança”, afirmou Lakpa Rita. Tenzing Chottar tinha sido arrastado para longe, assim como Nima, e não se sabia ainda quantos estavam mortos. Eles desceram, em meio aos detritos, voltando para a elevação de onde Ang Tshering havia acenado para eles.

“Eu vi um corpo enterrado até a metade no gelo, e havia vapor saindo de sua boca”, contou Lhakpa Gyalgen. Era Dawa Tashi, que estava vivo e inconsciente. Vinte ou trinta metros mais abaixo, Lhakpa Gyalgen e Pasang Dorje chegaram à borda do penhasco onde estava a escada tripla. “Eu olhei para baixo e vi as cordas rompidas. E uma perna pendurada”, recordou. Era Dorjee Khatri, sirdar da Madison.

Dawa Tashi chegou à elevação após alguns minutos. “Havia uns dez de nós, mas quando recobrei os sentidos eu era o único lá, com metade do corpo dentro da neve. Todos os outros encontravam-se enterrados”, diz. “Eu gritei e berrei, mas, como ninguém apareceu, comecei a tentar sair dali”, lembra Dawa Tashi. “Usei minha mão direita para liberar a esquerda.” Ele tentou ficar de pé, mas sua cadeirinha ainda estava presa à corda fixa, que se encontrava embaixo dos detritos. Ele quebrou quatro costelas e uma escápula.

Rapidamente o local ficou repleto de outras pessoas que haviam descido do acampamento I e de mais acima até o Khumbu para ajudar no resgate. Jangbu Sherpa, da Madison Mountaineering, um homem de 32 anos de idade que divide seu tempo entre o Nepal, os Estados Unidos e a América do Sul, passou a ajudar Dawa Tashi. “Nós começamos a escavar o gelo para retirá-lo dali. Ele estava consciente e nos reconheceu,” disse Jangbu.

Kaji recobrou a consciência um pouco mais acima, perto de onde estavam as escadas do pilar, e passou um rádio para o acampamento base. “Eu estava enterrado na neve, fui atingido nas costas, mas não encontrava-me totalmente enterrado como aqueles que morreram,” disse. Seu amigo Chhewang estava em pânico, mas vivo (ironia cruel: dez dias depois, ele morreu atingido por um raio em seu vilarejo natal). “Um cara forte me carregou nas costas e me deitou acima da escada tripla, onde a maioria dos outros tinha sido soterrada”, disse Kaji, que estava com duas costelas fraturadas.

Quando outros resgatistas chegaram, Lhakpa Gyalgen e Pasang Dorje recuaram. “Eu queria ficar, mas não consegui, pois estava tremendo muito”, contou Lahkpa Gyalgen. “Outros estavam retirando os corpos dos que morreram.”

EM MINUTOS, mais resgatistas que estavam acima da avalanche começaram a chegar, porém às 7h36 da manhã a trilha de acesso ao local do acidente ainda estava inacessível para quem estava abaixo dali. Justin Merle e Max Bunce, ambos da agência IMG, estavam no acampamento 1 quando a avalanche começou e logo se mobilizaram e desceram para lá. Lakpa Rita chamou o filho de Ang Tshering, Pemba Tenzing, e o irmão de Tenzing Chottar, Fura Tenzing. Ele lhes pediu para pegarem as pesadas pás do acampamento 1 e descerem rapidamente para a área da avalanche.

Pemba Tenzing se lembra de ficar impressionado ao encontrar mochilas abandonadas ao longo da trilha. “Eu vi apenas as mochilas, um montão de mochilas, mas não havia ninguém com elas.” Ele então deu a volta até a zona de impacto, que media uns 30 metros de largura no ponto em que cruzava a rota. Viu Jangbu Sherpa e muitos outros tentando.

Às 8h12, Justin Merle, Max Bunce e Austin Shannon, outro guia da IMG, alcançaram os três sobreviventes mais gravemente feridos. Max se encarregou dos esforços para resgatar Kaji; Dawa Tashi, em pior estado, foi ajudado por Justin; Ang Kami – outro sherpa que trabalhava para a IMG e conseguiu ir até o Campo de Futebol antes de cair – recebeu ajuda de Austin. Às 7h57, Joe Kluberton avisou pelo rádio os resgatistas que o piloto de helicóptero Jason Laing, um neozelandês durão que trabalha para a companhia local Simrik Airlines, estava a caminho com um helicóptero grande equipado com uma corda de resgate, mas que levaria duas horas para chegar.

“Um guia tinha chegado com um médico, e outro grupo trouxe oxigênio e me colocaram em uma maca”, contou Kaji, se referindo ao médico Rob Casserley, que fazia parte da expedição liderada por Henry Todd, um antigo operador de turismo do Reino Unido. “Alguns estavam organizando um heliponto no local, fazendo um enorme ‘H’ na neve usando bebidas esportivas vermelhas, enquanto alguns permaneceram do meu lado. Deram-me água morna para beber. Eu estava tremendo, minhas mãos e meus pés tinham ficado azuis. Massagearam meu corpo e me deram luvas novas. Aos poucos, comecei a esquentar.”

Bem abaixo deles, Jangbu Pemba Tenzing e Fura Tenzing terminaram de retirar Dawa Tashi do gelo. Embaixo dele, no buraco do qual acabara de ser retirado, eles viram algo terrível e inesquecível: outro par de pernas. Assim que desenterraram aquele homem, encontraram outro embaixo dele, e outro, e mais um. No total, dez sherpas, que estavam perto de Dawa Tashi, todos presos à mesma corda que ele. O grupo foi atingido por golpes fatais e esmagadores, e a avalanche os deixou empilhados como se estivessem em uma cova coletiva. Somente Dawa Tashi sobreviveu.


SALVA-VIDAS: Cena do resgate no Khumbu (no centro da foto a escada tripla

No acampamento base, Joe e os operadores de rádio da Adventure Consultants e da Jagged Globe lutavam para descobrir quem estava desaparecido. Lá pelas 8h25, o pessoal da Alpine Ascents sabia que cinco de seus sherpas haviam sumido: Nima, Tenzing Chottar, Ang Tshering, Mingma Nuru e Dorji. A Adventure Consultants logo reportou que eles tinham perdido três homens (Phurba Ongel, Chhiring Ongchu e Lhakpa Tenjing) e que um homem – Kaji – estava incapacitado de andar. Mas levaram muitas horas mais para compreenderem a total dimensão da tragédia.

Quando Lakpa Rita apareceu com Kami Rita, por volta das 8h45, Jangbu Sherpa, Pemba Tenzing e uns nove outros já tinham achado quatro corpos. Antes de morrer, os homens tiveram apenas tempo para cobrir os rostos com suas jaquetas. Pemba Tenzing começou a cruel tarefa de identificar seu pai, Ang Tshering, o sétimo corpo a ser achado no buraco. “Eu o reconheci pelas botas”, contou mais tarde. Assim que teve a certeza de que seu pai estava morto, decidiu ir embora. “Voltei ao acampamento, liguei para minha mãe e fui embora levando dinheiro para os monjes de Thame.” Os sherpas acreditam que um funeral bem organizado, com muitas demonstrações de devoção, ajuda seus entes queridos a terem um melhor renascimento. Os pujas, que também são cerminoniais celebrados após as mortes, geralmente custam vários milhares de dólares.

Às 9h09, Damian Benegas, que tinha chegado ao local do acidente pouco antes de Lakpa Rita, informou que tinha contado dez mortos. Antes do final do dia, o total subiria para 13 mortes confirmadas, com Pem Tenji, Gurung Ashbadur e Tenzing Chottar ainda desaparecidos. Os outros que pereceram eram Ang Kaji, um segundo sherpa chamado Dorjee, Phur Temba, Pasang Karma e outro morador da região, Asman Tamang. Todos morreram por traumatismo violento ou sufocamento.

Às 10h05, depois de pousar no acampamento base e pegar a escaladora e paramédica norte-americana Melissa Arnot, e Dan Staples, guia da Adventure Consultants, Jason Laing desceu com seu helicóptero no Campo de Futebol. Ele resgatou Ang Kami e depois Kaji, levando cada um deles para o heliponto do acampamento base, antes de equipar a aeronave para a operação de resgate de Dawa Tashi, que se encontrava em um local entre duas paredes íngremes que não permitiam um pouso. Às 10h49, os três sobreviventes gravemente feridos tinham sido evacuados e estavam a caminho de Katmandu para tratamento.


SORTE GRANDE: O sherpa Lhakpa Gyalgen, um dos
sobreviventes da avalanche

A MISSÃO DE RESGATE mudou, então, para a recuperação dos corpos, uma função perigosa, já que o glaciar ainda estava muito propenso a se partir. Dave Hahn chegou do acampamento base lá pelas 11h. “Chegamos à parte mais baixa da faixa de detritos e pudemos ver uma luva na neve e uma mochila pendurada em alguém”, disse Andy. Enquanto Dave e sua equipe foram investigar, Andy escalou a escada tripla, agora consertada, e encontrou uma bota solitária, com um pé gravemente fraturado por dentro, aparecendo para fora do gelo. Era Dorjee Khatri. A neve havia derretido ao redor do corpo e depois congelara novamente.

Andy Tyson, Garrett Madison e Ben Jones escavaram cuidadosamente o gelo ao redor de Dorjee Khatri com as lâminas de suas piquetas, mas às 2h30 da tarde ainda não tinham liberado o corpo, por isso precisaram voltar no dia seguinte. O tempo estava se piorando, e o neozelandês Russell Brice, fundador da agência Himalayan Experience que estava no acampamento base coordenando os voos dos helicópteros, comunicou que eles deveriam encerrar os trabalhos se quisessem sair de lá voando.

Abaixo deles, Dave direcionou o último voo de resgate do dia, fazendo um sinal de “Y” com seus braços para que descessem a corda de resgate até ele. Observando do acampamento base, a médica Sophie Wallace refletiu sobre o horror dos voos. “Os corpos sem vida pendurados no helicóptero, ainda com os capacetes e grampons, partiram meu coração”, escreveu ela. “A gravidade de alguns dos ferimentos tornou tristemente fácil a tarefa de identificar a causa da morte de muitos sherpas.”

Tendo feito tudo que pôde, Lakpa Rita andou até o acampamento base. “Quando cheguei ao heliponto inferior, todos os corpos estavam enfileirados e tinham pedaços de fita adesiva identificando seus nomes.”


RECUPERAÇÃO: Kaji Sherpa em hospital de Katmandu


DOR: Dawa Tashi e sua mulher, Fura Lhamu


2. No Vale das Almas Penadas

PARA CHEGAREM À REGIÃO DO KHUMBU, no Nepal, os montanhistas normalmente voam 135 quilômetros de Katmandu até a pista de pouso nas encostas de Lukla. Abaixo de Lukla, que se situa a 2.800 metros de altitude acima do rio Dudh Kosi, existem sopés de montanhas e planícies. Acima dela, a trilha para o Everest se inclina para cima acompanhando o Dudh Kosi, passa por Namche Bazaar (3.440 metros), um monastério em Tengboche (3.867 metros), Pangboche (3.985 metros) e Pheriche (4.371 metros), antes de se afastar do rio e subir em direção ao Glaciar do Khumbu – exatamente abaixo dos postos avançados sazonais de Lobuche (4.876 metros) e Gorak Shep (5.151 metros). O Vale do Thame segue o rio Bhote Kosi para o norte a partir de Namche Bazaar em direção ao Tibete, passando pelas cidades de Phurte, Thamo, Thame, Ylajung e Taranga, antes que a paisagem fique muito alta para assentamentos permanentes.

No acampamento base, na tarde de 18 de abril de 2014, Lakpa Rita pulou para dentro de um helicóptero e voou os cinco minutos até Pheriche. Lá, ele ficou horrorizado ao descobrir que um oficial do exército nepalês tinha confiscado dez dos corpos recuperados e que a maior parte deles já havia sido transportada para Lukla a bordo de um helicóptero militar. Depois foram dispostos na pista completamente à vista dos turistas que lá pousavam para iniciar seus trekkings.

“Fiquei com muita raiva”, desabafou Lakpa Rita. “Eles não tinham que ter sido levados a Lukla.” Então ele voou para lá e negociou com um oficial que o deixou levar três dos quatro mortos – Ang Tshering, Mingma Nuru e Dorji – de volta para suas famílias em Namche Bazaar, a capital comercial dos sherpas. Os outros sete sherpas foram levados para Katmandu para serem entregues às famílias. O corpo de Tenzing Chottar nunca foi encontrado, o que causou um desconforto enorme para sua família em Ylajung, já que isso significa que sua alma pode estar vagando perdida por aí.

A pista de pouso de Namche Bazaar, com seus 30 metros de largura, a 3.650 metros de altura, não foi construída com cimento, mas sim com blocos de granito. Quando Lakpa Rita surgiu a bordo do helicóptero, as brumas típicas do período que antece as monções já estavam rondando Thamserku e Kongde Ri, os picos de 6.000 metros próximos da cidade. O helicóptero pousou, e Lakpa Rita desembarcou. “Eu comecei a descarregar os corpos, e Todd me deu um abraço. Então choramos”, disse. Todd Burleson é o co-proprietário da Alpine Ascents, fundada em 1986. Os dois não haviam se encontrado ainda depois que tudo aconteceu (Todd estava em Katmandu quando houve a avalanche). A consideração que Todd tem por Lakpa Rita, cidadão naturalizado norte-americano que vive a maior parte do ano em Seattle, é enorme. Ele relembra os anos em que passaram juntos como guias, “a melhor parceria que eu já tive”. Os dois colocaram os corpos no chão, e o helicóptero decolou. Ang Tshering, Mingma Nuru e Dorji foram embalados em seus sacos de dormir, depois cobertos por lonas azuis.

A polícia tirou fotos e inspecionou as feridas nos corpos para determinar a causa de morte a ser informada à empresa de seguros Shikhar Insurance, sediada em Katmandu, como prova de que cada um dos homens morrera em um acidente de escalada. Durante esse procedimento, que durou duas horas, começaram a chegar alguns monges, em vestes vermelhas e jaquetas de fleece.

Um grupo de monges veio em busca de Mingma Nuru e Ang Tshering. Eles tinham uma maca, e os levaram para suas casas. Naquela mesma tarde, em Taranga, um ermo amontoado de 25 casas de pedra, a esposa de Dorji, Ang Nimi, selou seus iaques e os levou para Thame para convocar os monges e recolher bétula e zimbro para a cremação de seu marido. Quando ela ouviu a notícia, estava preparando cerveja de arroz para dar à família de seu tio, Lakpa Dorje, que tinha acabado de morrer de gastrite. “Se eu tivesse recebido a mensagem mais cedo, teria sido mais fácil, uma vez que já havia monges no meu bairro que fizeram a cremação de meu tio”, disse Ang Nimi. “Mas a mensagem veio só depois que todos os monges foram embora.”

Taranga fica a 4.020 metros na estrada para Nangpa La, um passo de montanha a 5.806 metros de altitude que leva ao Tibete e que tem sido usado por comerciantes e refugiados desde os anos de 1500. Um pouco mais ao sul, o mosteiro de Thame se edifica nas alturas de um penhasco acima da cidade, à sombra dos 6.500 metros do Monte Teng Kangpoche. Quando Ang Nimi, de 39 anos, chegou ao mosteiro, o salão estava vazio. Os efeitos do desastre eram grandes o bastante para causar uma repentina falta de monges para atender tanta gente.

O fato de que tantos homens que morreram serem da mesma região não é uma surpresa. O Vale do Thame é o lar de muitos escaladores famosos da história do Everest, incluindo Tenzing Norgay – o primeiro homem a chegar ao cume do Everest, ao lado de Edmund Hillary, em 1953. Outro famoso local é Apa Sherpa, hoje com 55 anos, que agora mora em Salt Lake City, nos EUA. Apa possui o recorde de 21 cumes do Everest. Os melhores escaladores dos Himalaias vêm de Thame, da mesma forma que os grandes corredores de longa distância quenianos são da tribo kalejin. Parece lógico pensar que isso se deva à genética. Mas Lhakpa Gyalgen, assim como muitos outros sherpas da região, têm uma explicação mais simples: “As pessoas daqui não puderam estudar. É por isso que trabalham nas montanhas”.

Desde que a comercialização de expedições ao Everest deslanchou no final da década de 1990, a economia da região de Thame depende da agência Alpine Ascents e é liderada principalmente por Lakpa Rita. “Eu fui para a escola, mas sempre quis ser alpinista”, disse. “Todos os anos, Tenzing Norgay e Edmund Hillary vinham nos visitar.” Todd conheceu Lakpa Rita no lado norte da montanha, em 1990, quando o sherpa tinha 24 anos de idade, carregando cargas em uma expedição. “Ele tinha um ritmo impressionante e conseguia gerenciar pessoas e cuidar da contabilidade”, contou Todd. Dois anos depois, e de lá até hoje, Todd contratou Lakpa Rita para ser seu sirdar.

“Nesta temporada de 2014, eu tinha quase 40 sherpas trabalhando para mim, a maioria de Thame,” disse Lakpa Rita. Ele também teve que movimentar 170 toneladas de equipamentos e comida no apoio a uma expedição do canal Discovery Channel, cujo objetivo era realizar uma complexa transmissão ao vivo de um salto de wingsuit do cume (e que foi cancelada depois da avalanche).

No Everest, a remuneração dos sherpas é bem esquematizada. Como é comum em muitas empresas, os trabalhadores da Alpine Ascents recebem um subsídio de equipamentos de cerca de US$ 2.000 a US$ 3.000 no início da temporada. Em seguida, ganham US$ 15 por dia como tarifa básica e US$ 20 por carga para o acampamento 1; US$ 30 para o acampamento 3; e US$ 50 para o Colo Sul, com um bônus de US$ 500 a US$ 800 para ir até o cume da montanha – um extra que cerca de 200 sherpas conseguirão ganhar a cada ano. Os melhores carregadores chegam a ganhar até US$ 6.000 por temporada. Já os sherpas que não fazem muitas cargas ou que trabalham para operadoras locais menores costumam ganhar de US$ 2.000 a US$ 3.000.

“Cada sirdar contrata pessoas de sua própria cidade”, disse Lakpa Rita. “Uma das razões é que eu os conheço melhor. A outra é que quero que meus vizinhos tenham uma oportunidade de trabalho. Eu sei que escalar montanhas é uma das melhores maneiras de ganhar a vida, especialmente no Nepal. Estou tentando manter o dinheiro no meu vilarejo. Praticamente todos que contrato são da minha cidade natal.”

Para Dorji, Ang Nimi e seus quatro filhos, Lakpa Rita e a Alpine Ascents representaram uma chance. Eles moravam em uma casa de pedra térrea não maior do que uma pequena edícula. No inverno, quando seus vizinhos se mudavam para terras mais baixas com seus iaques, eles não tinham para onde ir. Então traziam os animais para dentro daquele espaço apertado, com pessoas e animais comendo as mesmas batatas cultivadas em algumas pequenas áreas de terra. “Há talvez quatro outras famílias que ficam por aqui no inverno,” Ang Nimi me explicou.

A esperança era de que Dorji trabalhasse no Everest por mais algumas temporadas e, assim, economizasse dinheiro suficiente para construir uma casa de inverno em Thame ou outro lugar. Mas a cada ano surgia algo que atrasava esse sonho – inclusive algumas mortes na família, antes de 2014.

Ao todo, a avalanche deixou 28 órfãos.



EXPERIÊNCIA: O sherpa Lhakpa Nuru, da Alpine Ascents, ao lado dos equipamentos do Discovery
Channel e da NBC

3. Ano Negro

LAKPA RITA VOLTOU DE HELICÓPTERO ao acampamento base do Everest no início da tarde do sábado de 19 de abril de 2014. Os últimos esforços para a recuperação dos corpos tinham acabado de ser concluídos. Três homens ainda não haviam sido encontrados e provavelmente não serão por um bom tempo. Como a maioria das vítimas do Khumbu, seus corpos serão gradualmente movidos, agitados e dilacerados pelas correntes de gelo. Partes de corpos e equipamentos serão ejetados pelo gelo que se move, ou vão reaparecer quando o gelo derreter um pouco – um fêmur emergindo da neve aqui, uma luva ali.

“Eu recebi um telefonema de Pasang Tenzing, que é sirdar da Jagged Globe, e ele disse que precisávamos fazer um relatório sobre os sherpas desaparecidos”, contou Lakpa Rita. “Se você diz ‘desaparecido’, às vezes é difícil de se obter o dinheiro do seguro.” Eles tinham que juntar relatos de testemunhas para provar que os homens não se perderam, mas, sim, foram sepultados.

Naquela tarde, Lakpa Rita se reuniu com outros sirdars. Esse foi o primeiro de uma série de encontros que, gradualmente, levaram ao fim da temporada de escaladas no lado sul do Everest em 2014. A reunião começou com depoimentos a um oficial do governo sobre os homens desaparecidos. “Em seguida, o foco da reunião mudou”, disse Lakpa Rita. “Muitos outros sherpas e sirdars estavam expondo seus próprios pontos de vista, e o clima geral da reunião era de que todo mundo deveria ir para casa e acabar com as expedições.”

O que se seguiu foi um racha histórico no acampamento base, que repercutiu no mundo todo. Em um artigo co-escrito por Tenzing Norgay Dhamey, um dos filhos de Tenzing Norgay, a avalanche foi comparada à explosão da fábrica de roupas de Bangladesh, ocorrida em 2013 e que matou mais de 1.100 trabalhadores. O artigo dizia que “a perda de vidas ressalta a crescente divisão entre os integrantes dessas expedições: uns pagam caro para chegar ao cume, enquanto seus guias sherpas recebem uma ninharia e muitas vezes são desmerecidos”.

Outras pessoas destacaram que todos que põem os pés no Everest estão se arriscando – e que, se a avalanche tivesse acontecido mais tarde na temporada, todas as vítimas poderiam ter sido clientes guiados. “Eles conhecem os riscos”, escreveu Mark Jenkins, montanhista e colaborador da Outside norte-americana. “Os sherpas não são forçados a ir para o Everest.”

Olhando-se para trás agora, os eventos da semana seguinte à avalanche são provavelmente melhor descritos como uma mistura complicada de opiniões distintas e muita política, refletindo o quanto estava em jogo – tanto para os escaladores ocidentais que tinham pagado de US$ 18.000 a US$ 90.000 (não reembolsáveis) a suas operadoras para tentar chegar ao cume, quanto para seus guias e sherpas, cujas vidas e meios de subsistência estavam em perigo.

DENTRE OS PRIMEIROS a se verem lutando com a política explosiva do acampamento base estavam a Discovery Channel e Joby Ogwyn, 39, um norte-americano que faria um salto de wingsuit televisionado ao vivo.

O Discovery Channel tinha investido muito nesse projeto, e pelo fato de a transmissão em horário nobre ser ao vivo e precisar de várias câmeras, seria necessária uma quantidade enorme de equipamentos satelitais, além de muita força humana para carregá-los até lá cima. Equipes de transmissão precisariam ser posicionadas a 8.516 metros, no cume do vizinho Lhotse, no acampamento 2 do Everest e também no topo do próprio Everest, a 8.848 metros. Para isso, o Discovery havia contratado os guias Ben Jones e Andy Tyson, da AAI, para ajudar os cinegrafistas de altitude.

Mas, na noite de sexta-feira 18 de abril – o dia da avalanche –, integrantes da equipe do Discovery Channel começaram a enviar mensagens conflitantes sobre o que seria feito em seguida. “Diante de uma catástrofe dessas, todo o resto parece inútil para mim”, disse um dos cinegrafistas. “O acordo entre todos aqui no acampamento base é que a montanha está fechada por ora. Ninguém vai escalar.” Naquela mesma noite no acampamento base, Jangbu, da Madison Mountaineering, conversou com Joby, que lhe disse que o salto de wingsuit não era importante em comparação com a perda de tantas vidas. Na manhã seguinte, no entanto, Joby parece ter mudado de ideia, postando uma nota no Facebook dizendo que ele não estava desistindo totalmente do feito. “Ficaremos na montanha para honrar nossos amigos e finalizar nosso projeto”, escreveu.

Nos bastidores, os cinegrafistas estavam furiosos. “Ele vai voar do cume para honrar os sherpas mortos? Isso é patético”, disse um deles. “Quantas pessoas têm que morrer no Everest para você não saltar?” Joby alegou que a decisão de cancelar o projeto não era só dele.

No dia 19 de abril, uma ameaça chegou pelo mais antigo e poderoso sistema de comunicação do acampamento base: a fábrica de boatos. “Começou a se espalhar um papo de que, se Joby não fosse embora, algo como o que aconteceu no ano passado poderia rolar de novo”, disse Garrett Madison, guia de Joby. Ele estava se referindo a uma briga que aconteceu no acampamento 2, em 2013, entre vários sherpas e três renomados montanhistas europeus porque os ocidentais estavam escalando acima deles enquanto fixavam cordas de segurança para as expedições comerciais. “Não era como se eu estivesse sendo expulso do acampamento base, mas levei aquilo bem a sério”, comentou Joby sobre a tal ameaça. Ele e Garrett deixaram a montanha naquele dia.

Em 20 de abril, o Discovery divulgou uma curta nota dizendo que, à luz da tragédia e em respeito aos mortos, o salto havia sido cancelado. O pessoal da equipe da NBC, ainda no acampamento base, filmou um documentário de 90 minutos sobre a avalanche, que foi ao ar em 4 de maio nos Estados Unidos. Joby criou um fundo para as famílias dos 16 mortos que acabou angariando cerca de US$ 100 mil. E divulgou que tentaria saltar em 2015.

NUNCA HOUVE DÚVIDA sobre o objetivo da reunião no acampamento base, no domingo, dia 20 de abril. Foi uma reunião para uma força-tarefa. O grupo de 21 pessoas reunidas dentro da tenda de um órgão do governo nepalês era em sua maioria formado por sherpas. Alguns ocidentais também estavam presentes, incluindo Dave Hahn, o canadense Tim Rippel, da Peak Freaks, Russell Brice e Greg Vernovage, da IMG. Um operador nepalês chamado Dawa Steven, co-proprietário da Asian Trekking, ajudou na tradução para os ocidentais.

“Os sherpas estavam com raiva, mas calmos”, recordou Lakpa Rita. O governo se ofereceu para pagar às famílias dos mortos um adicional de US$ 400, além da grana do seguro de US$ 10 mil – o que foi considerado um insulto. “Esse dinheiro não atende nem às despesas de cremação”, disse Pasang Bhote, um sherpa que estava trabalhando para uma pequena operadora local chamada Seven Brothers. Nem todo mundo achou a reunião tão cordial. Russell lembrou que “uma briga quase eclodiu entre dois oficiais do governo presentes no encontro e alguns sherpas mais irritados, exigindo esforços dos membros ocidentais presentes para acalmar os ânimos”.

O líder óbvio para os trabalhadores teria sido Dorjee Khatri, sirdar da Garrett Madison que faleceu na avalanche. Ele foi vice-presidente do sindicato dos trabalhadores de trekking do Nepal, e sua morte politizou a tragédia. No dia seguinte, líderes sindicais compareceram ao funeral de Dorjee Khatri em Katmandu, cobrindo seu corpo com as bandeiras de suas respectivas organizações.

Com a morte de Dorjee Khatri e a atenção do governo, os sherpas decidiram expor algumas queixas sobre os perigos que enfrentam e sobre as modestas quantias de dinheiro que recebem se comparado aos US$ 3,4 milhões que o governo do Nepal coleta em taxas das empresas de escalada a cada ano. Pasang Bhote, que havia trabalhado com Dorjee Khatri na Adventure Consultants por três temporadas, tornou-se a voz mais importante dos sherpas, embora ele se irrite quando chamado de líder de um movimento.

“Não estávamos filiados a nenhum partido”, disse ele. “Nosso único entendimento era de que éramos trabalhadores e de que o governo havia nos insultado.” Pasang Bhote veio para a reunião com uma lista de exigências para o governo. Após lerem todas, os demais sherpas começaram a acrescentar outras, e um oficial do governo colocou tudo no papel, no que ficou conhecido como a Carta dos 13 Pontos.

Sumit Joshi, co-proprietário da Himalayan Ascent, explicou as exigências para os guias ocidentais presentes. A carta exigia, em parte, uma segunda duplicação dos valores do seguro por morte acidental – a cobertura já tinha aumentado na primavera de 2013 – para cerca de US$ 22 mil. Os sherpas queriam US$ 10 mil de cobertura por invalidez para os trabalhadores permanentemente feridos nas montanhas, uma bolsa-funeral de US$ 1.000, um fundo de apoio-e-educação permanente obtido com 30% das licenças emitidas pelo governo, uma área de terreno em Katmandu para construir um memorial para os 16 mortos e o reconhecimento oficial da temporada amaldiçoada, como um lo nak (“ano negro”), fazendo de 18 de abril um feriado nacional. Mais importante ainda para os ocidentais presentes, a carta afirmava que nenhuma equipe deveria ser proibida de escalar.

“Um dos pontos da carta era que cada expedição decidiria por si própria se queria continuar até o cume e que ninguém iria ser pressionado por aqueles que não prosseguissem”, disse Dave Hahn. “Essa era uma das coisas com a qual concordávamos. Mas no dia seguinte ouvi a lista sendo lida em voz alta a uma multidão cantando slogans de protesto, e o item sido alterado para: ‘E nenhum de nós vai escalar nessa temporada’.”

Quase todo mundo dentro da tenda assinou a Carta dos 13 Pontos original. Lá fora, uma multidão de guias ocidentais e sherpas havia se reunido. Pasang Bhote se levantou e leu a lista. Ele e Sumit Joshi se tornaram os arautos da cidade, com Pasang discursando e Sumit traduzindo. Sherpas que estavam do lado de fora começaram a entrar e a lotar a tenda para colocarem seus nomes no documento. Houve um acréssimo de 274 assinaturas na carta, o que significava uma ameaça de protestos se as exigências não fossem atendidas. Pasang Tenzing, secretário da Associação Nacional de Guias de Montanha do Nepal, entregou uma cópia da carta ao Ministério da Cultura, Turismo e Aviação Civil, em Katmandu.

O documento previa que qualquer expedição cujos sherpas quisessem continuar poderia fazê-lo, mas não foi assim que as coisas aconteceram. “Depois da avalanche, as pessoas estavam com muito medo”, disse Sumit Joshi. “No fundo, acho que não havia um único nepalês no acampamento base que ainda quisesse escalar.”

No dia 22 de abril, com o cancelamento oficial dos esforços de resgate dos corpos, todo mundo no acampamento base se reuniu para um cerimonial puja. Estavam presentes entre 400 e 500 pessoas. Muitos sherpas haviam retornado a suas aldeias, mas muitos ainda estavam por lá. “As pessoas estavam com raiva, porque não houve qualquer resposta do governo”, disse Sumit Joshi. Eles ergueram as mãos em protesto e começaram a cantar pedindo o fim da temporada. Daí aconteceu o que originou todo o falatório no acampamento base sobre as tais ameaças – alguém na multidão gritou: “Se alguém for escalar, a gente quebra sua perna com uma piqueta!” Greg Vernovage, guia-chefe da IMG, estava lá com o sirdar de sua empresa, Ang Jangbu. “De repente alguém disse que se houvesse alguma escalada eles iriam descer para Katmandu e queimar os escritórios e as casas dos operadores locais”.

NA QUARTA FEIRA, 23 de abril, as coisas tinham piorado. O acampamento base foi inundado de fofocas de que tropas nepalesas iriam chegar em breve para restaurar a ordem. Depois de algumas negociações de bastidores, o governo finalmente anunciou que iria enviar, de helicóptero, o ministro do turismo, Bhim Prasad Acharya, até o acampamento base para tentar aliviar as tensões.

Naquela noite, um grupo de guias locais e ocidentais reuniu-se para discutir as condições na montanha e como eles poderiam manter a temporada. “Assim que nos aproximamos para expressar nossas preocupações sobre segurança, reparamos que a conversa era muito menos sobre os perigos do Khumbu e muito mais sobre as ameaças dos sherpas”, disse Adrian Ballinger, proprietário da Alpenglow Expeditions.

A reunião terminou, e naquela noite várias expedições anunciaram que estavam encerrando suas atividades nesta temporada. O canadense Tim Rippel, proprietário da Peak Freaks, cancelou sua escalada, escrevendo em seu blog: “Fala-se de retaliação aos sherpas que querem continuar, e eu não quero fazer parte disso, ou colocar qualquer um dos meus funcionários ou clientes em perigo”.

Após entrevistar vários operadores, sirdars e outros sherpas, não detectei nenhuma outra ameaça além daquelas que foram bradadas no puja de 22 de Abril. Mas o ambiente ainda estava hostil.

Sem exceção, cada uma das operadoras ocidentais que queriam ficar e escalar acreditavam que tinham uma relação especial com seus sherpas. “Contamos com um time completo de sherpas leais com quem trabalhamos há anos”, escreveu o operador britânico Tim Mosedale em seu blog. “Todos eles voltaram depois da tragédia e mesmo os que perderam irmãos e parentes estão dispostos a continuar.”

Mas obviamente alguns sherpas estavam assustados. Nos últimos anos, uma nova safra de operadoras locais, sediadas em Katmandu, tem crescido com o objetivo de aprender e dominar toda a logística do Everest, em vez de somente cuidar da parte do transporte de carga, como acontece atualmente. O racha de 2014, bem parecido com o que surgiu durante a briga do ano passado no acampamento 2, é entre os sherpas mais jovens que estão treinando para ser guias de montanha independentes e os sherpas mais velhos, que se deram bem e construíram uma carreira trabalhando para as melhores operadoras ocidentais.

Em vez de apelar para seus empregadores ocidentais por melhores salários e benefícios, os sherpas pararam de trabalhar e voltaram seu protesto contra o governo – uma administração desorganizada e ineficiente que teve seis primeiros-ministros diferentes desde sua reforma democrática em 2008. “Os sherpas declararam que a disputa é entre eles e o governo”, escreveu Tim Mosedale em seu blog. “Enquanto isso, o governo afirma que a montanha está aberta para as expedições comerciais. Estamos andando em círculos.”


LUTO: Phupu Thakche viuva de Dorjee Khatri, em Katmandu

4. O Fim do Everest

O CÍRCULO FINALMENTE SE FECHOU na quinta-feira, em 24 de abril, quando peguei uma carona até o acampamento base para testemunhar os acontecimentos do dia. Fui ao encontro de Madhu Sudan Burlakoti, secretário-adjunto do Ministério da Cultura, Turismo e Aviação Civil do Nepal. Enquanto esperava para embarcar em seu helicóptero, ele me garantiu que os sherpas estavam “prontos para escalar… Eles vão escalar”.

Minha impressão era a de que ninguém queria ser visto como responsável por fechar a montanha. Para o governo, isso poderia significar ter que reembolsar as taxas de licença cobradas das operadoras de turismo. Os sherpas, por sua vez, trabalhavam em uma das indústrias mais bem pagas do Nepal, embora o custo de vida na região do Khumbu também tenha aumentado consideravelmente, como resultado do sucesso do turismo por lá.

Quando o ministro Bhim Prasad Acharya e sua comitiva chegaram ao acampamento base, uma multidão já tinha se reunido, e uma atmosfera de protesto pairava no ar. O ministro se dirigiu aos presentes enquanto inalava oxigênio através de um tubo colocado em seu nariz. Parecia fragilizado. “Desligue seu oxigênio e veja se ele percebe!”, alguém gritou, provocando risadas.

O ministro falou por uma hora, dizendo que o governo havia concordado em deixar que as expedições usassem seus US$ 10 mil pagos pelas licenças por mais um ano, um passo que tornaria o atual cancelamento das expedições um pouco menos oneroso para os clientes. Ele disse que iria colocar a Carta dos 13 Pontos à frente nas prioridades de seu gabinete.

Após Bhim Prasad Acharya ir embora, as expedições começaram a arrumar suas malas. Em uma reviravolta irônica, o grupo de sherpas empregados pelo governo, os Doutores da Cascata do Khumbu, foram os únicos requisitados a ficar, embora tivessem parado com a manutenção da rota. As escaladas quase cessaram, mas não completamente. Uma brasileira naturalizada norte-americana chamada Cleo Weidlich prometeu completar sua escalada em solitário do Lhotse, que até o Acampamento 3 usa o mesmo itinerário que o Everest.

“Eu me recuso a ceder às pressões da máfia do Everest”, escreveu ela em sua página do Facebook, no final de abril. Durante a segunda semana de maio, Cleo e Wang Jing, proprietário e diretor de uma grande cadeia chinesa de produtos outdoor, foram de helicóptero até o acampamento 2 para começar suas escaladas. Wang chegou ao topo do Everest no final de maio, mas Cleo abandonou sua tentativa do Lhotse, decidindo que não se pode verdadeiramente dizer que se escalou uma montanha quando se voa até a metade dela.

Depois das viagens de helicóptero para o acampamento 2, o governo iniciou uma investigação sobre a legalidade da presença dessas aeronaves por lá. Quando a política no acampamento base foi estabelecida em abril, vários operadores, principalmente Russell Brice, da Himex, defenderam a ideia de que os helicópteros deveriam poder voar através da Cascata do Khumbu levando equipamentos. É uma medida que poderia evitar mortes de sherpas. Mas essa política pode também resultar em menos trabalho para eles, mais acidentes de helicóptero e uma condenação generalizada por parte dos montanhistas conhecidos como “puristas”, que acham que o Everest já se rebaixou demais por causa das expedições comerciais.

No rescaldo da avalanche, meia dúzia de organizações angariou quase US$ 1 milhão para ajudar as famílias dos 16 sherpas mortos. Além da contribuição de US$ 100 mil do base jumper Joby Ogwyn, um grupo de fotógrafos da National Geographic e da Outside norte-americana arrecadou US$ 450 mil, e houve grandes esforços por parte de várias organizações de montanhistas mundo afora.

Apesar dos acidentes dos últimos anos, escalar o Everest tem ficado ainda mais popular, uma vez que o risco é parte do fascínio. Mas o impacto do que ocorreu em 2014 pode ser diferente, por causa das falhas nas condutas políticas reveladas tão duramente no acampamento base. As pessoas que estão economizando para viver a experiência de suas vidas podem ter dúvidas sobre destinar a esse sonho quantias que podem chegar a mais de US$ 100 mil, já que não há nenhuma garantia de que pisarão no topo da montanha.

A cardiologista norte-americana Ellen Gallant, cliente da IMG, treinou e economizou por 12 anos e recentemente largou o emprego para escalar o Everest. Como a maioria dos clientes ocidentais, ela perdeu cerca de US$ 50 mil. Ellen ainda está tentando digerir o fim de um sonho para o qual trabalhou tanto tempo. “Eu sei que é uma coisa pequena em meio a essa tragédia, mas sinto um vazio no meu coração”, contou. “Por uma década, eu me via em pé no cume daquela montanha, no dia do meu aniversário.”

Até agora poucos escaladores conseguiram algum dinheiro de volta. As operadoras já tinham usado a maior parte da grana para transportar os equipamentos e pagar guias e outros trabalhadores. E, embora seja verdade que os montanhistas podem usar suas licenças nos próximos cinco anos, eles também têm que pagar novamente todas as outras despesas.

Alguns escaladores estão furiosos. “Fomos sacaneados pelos sherpas”, disse Damien François, um belga de 49 anos que pagou US$ 28 mil para escalar o Everest com uma operadora chamada Ever Quest Expeditions. “Nós somos a mão que alimenta todo o negócio. Sem nossa presença, não há operadoras. Sem operadores, não há trabalho para os sherpas.”

Entre as operadoras, a conversa já começou a mudar – de como cuidar das famílias dos mortos para como evitar mais mortes de sherpas no futuro. Além do uso helicópteros para o transporte de equipamentos para o acampamento 2, foi sugerido que o acampamento 2 se torne menos luxuoso, com menos coisas para serem levadas e trazidas. Outra maneira de reduzir o número de sherpas na rota é restringir a quantidade de escaladores com licença para subir o Everest. O escalador norte-americano Conrad Anker sugeriu aumentar os pré-requisitos dos clientes em potencial, exigindo de cada um ao menos uma escalada bem-sucedida em outro grande pico no Nepal – como o Makalu ou o Baruntse.

Enquanto isso, a qualidade da manutenção na rota da Cascata do Khumbu foi questionada. Dave acredita que o ritmo de manutenção não acompanhou o crescimento do tráfego de gente na montanha. E o governo nepalês reconhece que usa muito do dinheiro pago pelos clientes para manter outras partes do parque nacional no qual se encontra o Everest.

Quanto à Carta dos 13 Pontos, o governo anunciou que vai exigir US$ 15 mil como cobertura de seguro de vida para os sherpas (hoje esse valor é de US$ 11.000), mas as operadoras poderiam subir para US$ 20 mil a um custo de apenas US$ 200 por trabalhador. Mas é improvável que o governo abra mão de qualquer um de seus impostos em nome de um fundo de apoio aos sherpas. No final das contas, o ecossistema econômico do Everest é tão frágil quanto o natural. A menos que subitamente as pessoas estejam dispostas a pagar US$ 500 mil para escalá-lo, a tendência é que permaneça tudo como está.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de agosto de 2014)

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