O caçador de prazer


INDIANA JONES: Chris Kilham no mercado La Parada e garotinha local, em Lima, no Peru

Por Steve Hendricks

NA AMAZÔNIA PERUANA, na cidade de Iquitos, há uma favela à beira-mar chamada Belén na qual existe um grande mercado. Por entre suas ruas barulhentas, há uma viela salpicada de entranhas de peixes, pedaços de melancia cobertos por moscas e líquidos misteriosos escorrendo pelo chão, conhecida como Beco das Bruxas. Quando o sol está queimando – o que acontece com frequência –, os proprietários das barraquinhas estendem retalhos de lona para se protegerem enquanto negociam poções e pós estranhos e incríveis.

O caçador de plantas norte-americano Chris Kilham, explorador e professor universitário, caminha pelo Beco das Bruxas descrevendo os produtos expostos. Chris tem pouco mais de 60 anos, pele lisa e forma física de uma pessoa com menos de 50 anos. Ele esteve envolvido profissionalmente em várias atividades: foi professor de yoga, cônsul honorário dos Estados Unidos na República de Vanuatu, no Pacífico Sul, estrela infantil em um comercial de suco de uva no País de Gales e autor de um livro new age que oferece um tipo de seguro de segunda vida para pessoas que temem uma reencarnação indesejada. Nas duas últimas décadas, Chris vem ganhando a vida como caçador de plantas medicinais, parte de um pequeno grupo de exploradores que vasculham regiões obscuras do planeta atrás de saúde, vitalidade e – claro – potência sexual para consumidores ocidentais. Seu principal empregador é a Naturex, uma empresa francesa que é uma das maiores processadoras de extratos de plantas do mundo e que concedeu a ele o título um tanto pomposo de “embaixador da sustentabilidade”.

Percorri o Beco das Bruxas com Chris sem pressa, pois em cada barraca ele me passava uma tonelada de informações. O cara falava com aquele jeito de quem sabe que está explicando coisas extraordinárias. Chris descobriu há muitos anos que as redes de televisão, assim como as universidades, gostam de ter um “Indiana Jones botânico” por perto, por isso se auto-batizou de “Caçador de Remédios”, com logo e tudo. Ele aparece regularmente na TV norte-americana e passou a colecionar títulos como quem coleciona imãs de geladeira.

Chris para em uma barraca enfeitada com caveiras de crocodilo do tamanho de computadores de mesa. Então pega uma garrafa com um líquido viscoso e avermelhado. “Sangue de dragão”, diz, maravilhado. Nome científico crotonlechleri, usado há anos para qualquer enfermidade de pele, como picadas, queimaduras, feridas, assaduras etc.

Paramos em uma barraca que vende uma planta chamada garra de gato, uma trepadeira que, segundo já mostraram estudos científicos, é antioxidante e possivelmente anticancerígena. Em outra, há seiva da árvore catahua, usada tanto como veneno para ser colocado em dardos ou flechas quanto como purgante. Há ainda um vendedor de sementes vermelhas de urucum, que, dizem, auxiliam em doenças da próstata. Um pouco mais adiante, Chris para novamente. À nossa frente, avisto um par de mesas com uma quantidade enorme de estranhas infusões. A banca ao lado também está bem suprida, assim como a próxima, e a próxima, e a próxima…

“Nós chegamos”, diz ele, abrindo os braços. “Bem-vindo à terra dos afrodisíacos.” O pequeno mar de poções vem engarrafado em garrafas de Inka Kola (um refrigerante amarelo bem famoso no país), Fanta, Trapiche Malbec e outras ofensas ao paladar. Chris mira em uma, cujo rótulo descreve seu conteúdo, misteriosamente, como “LPM”, cujo fabricante se chama El Chamán de la Selva, ou o Pajé da Selva.

A LPM continha o que Chris veio procurar no Peru: chuchuhuasi. Trata-se de uma árvore de copa alta, muito pouco conhecida da medicina tradicional do Ocidente e que, até o ano passado, não constava no grande registro da humanidade, a Wikipedia. O povo shipibo, nativo da região, considera a casca da árvore um tônico genérico, com propriedades anti-inflamatórias e analgésicas para aliviar reumatismo, artrites, cólicas menstruais e dores nas costas. “Os estudos demonstram que ele é também um regulador do sistema imunológico”, disse Chris. Fiquei feliz com todas essas informações, porém o meu interesse na chuchuhuasi é mais lascivo, pois aqui a casca é apreciada, principalmente, por ser um afrodisíaco.


VAI UM POUCO AÍ: Vendedor de chuchuhuasi no Beco das Bruxas, no Peru

O dono da barraca que vende a planta, um rapaz corpulento de olhar malicioso, deu a Chris uma amostra de LPM em um copinho de plástico. O Caçador de Remédios dá um gole e reparte o resto entre nosso pequeno grupo. A mistura tem um gosto meio licoroso – doce, mas não a ponto de ser enjoativo. O rapaz diz que LPM significa Levántate Pájaro Muerto (Levante, Pássaro Morto). No entanto nenhum dos homens do grupo que provou a amostra percebe tal sensação. Zoe Helene, esposa, sócia de Chris e única mulher entre nós, também não sente nada. Chris explica: “Isso não é para ter um efeito imediato. A maioria das poções aqui deve ser tomada durante semanas até que se vejam os resultados”. Soou como um bom modelo de negócios, no estição Prozac.

Entre as poções à base de chuchuhuasi competindo pelo espaço na prateleira da barraca, encontro “Levántate Lázaro” (Erga-se, Lázaro), “Tumba Hembra” (Tumba de Mulher, mas que pode ser traduzido como “Derruba Ela”) e “SVSS”, que quer dizer Siete Veces Sin Sacarla (Sete Vezes Sem Tirar de Dentro). O costume no mundo inteiro é tentar vender produtos estimulantes sexuais aos homens, mas muitas dessas infusões parecem ter um bom resultado com as mulheres também. Pergunto a Chris quantos desses estimulantes realmente funcionam.

Ele escolhe bem as palavras e responde: “Alguns pajés são melhores que outros na escolha dos ingredientes e no preparo. Por isso uns terão efeitos mais potentes”. Ele dá uma pausa, parecendo pensar, e acrescenta: “Claro que existe a necessidade de pesquisas científicas para confirmar tudo isso de forma independente. Porém estou aberto à ideia de que qualquer uma dessas poções pode realmente funcionar”.


NA SELVA: Um bairro de Iquitos, na Amazônia peruana

O BEM-ESTAR CONSEGUIDO com as plantas tem movimentado um mercado estrondoso nos Estados Unidos. Um em cada cinco norte-americanos adultos toma suplementos com pelo menos um composto extraído de ervas. A venda anual de produtos como pílulas, pós e tinturas – a maioria não regulamentada por lei – arrecada cerca de US$ 30 bilhões nos EUA e US$ 100 bilhões ao redor do mundo. Alguém precisa encontrar essas plantas, e Chris é um dos melhores entre esses alguéns.

Ele vem perseguindo ervas por mais de 25 anos. Nascido em Boston, com diplomas em várias disciplinas do corpo e da mente, Chris passou a década de 80 à frente do departamento de nutrição da rede de alimentos naturais Bread and Circus, eventualmente chegando à vice-presidência de marketing. Ao longo daqueles anos, escreveu diversos livros sobre comida e bem-estar, como Os Cinco Tibetanos: Cinco Exercícios Dinâmicos para Saúde, Energia e Poder Pessoal, publicado no Brasil pela editora Pensamento-Cultrix e traduzido para 26 idiomas desde sua publicação, em 1994.

A primeira grande investida de Chris na caça de remédios aconteceu um ano depois, quando viajou para o sul do Pacífico para investigar uma raiz chamada kava. Há muito tempo usada pelos malaios como sedativo, a kava era pouco vendida no Ocidente, até Chris convencer a empresa Pure World Botanicals a enviá-lo a Vanuatu para procurar um bom suprimento dela. A Pure World, comprada pela Naturex em 2005, era uma refinadora de ingredientes in natura, para serem vendidos a fabricantes de produtos naturais. Chris conseguiu uma boa quantidade da raiz e passou os anos seguintes dando palestras, entrevistas e escrevendo o livro Kava: Medicine Hunting in Paradise [Kava: Caça Médica no Paraíso, sem edição no Brasil].

“Para se tornar uma estrela, cada erva precisa de um profeta”, escreveu um jornalista do Wall Street Journal, em 1998. “No caso da kava, esse profeta é Chris… Ele se transformou no relações-públicas número 1 da planta.” A procura pela kava disparou. No fim dos anos 90, estima Chris, as vendas mundiais da raiz atingiram a soma de US$ 200 milhões. O PIB de Vanuatu aumentou cerca de 8%. A tribo da ilha o nomeou chefe-honorário, e ele serviu como cônsul de Vanuatu nos Estados Unidos de 1997 a 2000.

Depois Chris continuou popularizando remédios de ervas, com uma paixão especial para os que ele chama de “plantas quentes” (afrodisíacas). Na Malásia, ele encontrou a tongkatali, uma árvore esguia cujo nome significa “a bengala de Ali”e cuja raiz demonstrou aumentar o nível de testosterona no sangue dos homens. No centro da África, o caçador encontrou a yohimbe, uma árvore perene cuja casca estimula os nervos da região lombar, o que também influencia positivamente a região da virilha. Na China, ele estudou a epimedium (“erva da cabra no cio”), que produz ereções mais firmes e longas, e no Líbano achou acidentalmente o zallouh, um arbusto que, reza a lenda, permitiu que o Rei Salomão satisfizesse uma boa parte de suas 700 esposas e 300 concubinas. Muitas dessas ervas foram testadas com sucesso em recentes estudos científicos. Em uma experiência com o zallouh feita no Líbano, por exemplo, 80% dos homens com disfunção erétil relataram melhora.

Chris provou essas e muitas outras ervas. Em seu livro sobre plantas afrodisíacas publicado em 2004, ele descreve um banquete em Gana, na África ocidental, onde duas anfitriãs lhe ofereceram uma bebida à base de yohimbe. O trio se afastou para um lugar mais reservado, onde se seguiram horas prazerosas. “A noite se desenrolou com alegria”, ele diz, de forma bem resumida.

Várias esposas de Chris também o ajudaram em suas pesquisas. Helene, de 49 anos, que se autodenomina “a Irmã Cósmica”, é sua sexta. O casamento deles é o mais longo de Chris (seis anos) e, insiste o casal, seu último. Criada nos Estados Unidos e na Nova Zelândia, ela trabalhou com marketing e atualmente gerencia o website da dupla, o MedicineHunter.com, além de organizar a logística das viagens do marido e, às vezes, acompanhá-lo na busca por medicamentos. Em seu tempo livre, Helene também tem um blog sobre devastação ambiental, que fala sobre temas como o flagelo dos golfinhos neozelandeses, dos quais somente 55 ainda sobrevivem.

“Muita gente pensa que nossa caça de remédios se resume a Chris andando pela selva”, diz ela. “Ou que se tratam apenas de chefes e pajés das tribos com quem ele trabalha. Só os homens atraem a atenção. Mas, na verdade, existem muitas mulheres nos bastidores plantando, colhendo e picando essas ervas.”

Chris é franco ao afirmar que não é um cientista, apenas um cara autodidata que não avalia as plantas que colhe (embora admita que se vire bem fazendo isso), mas sim o que as pessoas acham delas. A seu ver, se uma tribo ou nação usa uma planta há dez, 20 ou centenas de gerações é porque acha que ela provoca um certo efeito. E então é mais provável que a tal planta cause mesmo esse efeito. Do contrário, por que outra razão essas tribos continuariam usando-a?

“Trata-se de um trabalho que melhora a qualidade de vida da população local e que também ajuda as pessoas de outros países a terem acesso a plantas medicinais”, diz ele. “Esse meu trabalho também permite à Naturex ganhar dinheiro, o que incomoda muita gente. Mas eles têm que ganhar dinheiro se vão trabalhar com essas plantas, certo? Além disso, como nós ajudamos a população local a realizar um tipo de colheita sustentável, acaba sendo bom para o meio ambiente também. Eu vejo o que fazemos como algo em que todos ganham.”

O trabalho de Chris ganhou apoio de médicos que defendem a popularização da medicina do bem-estar. No entanto nem todos veem a situação dessa maneira, incluindo alguns médicos tradicionais que preferiam que Chris não fizesse propaganda das plantas até que sua segurança e eficácia sejam comprovadas por testes em humanos – que são demorados e caros. Um desses críticos, Steven Novella, neurologista da Universidad de Yale, nos EUA, e editor do site sciencebasedmedicine.com, cita Chris como exemplo do que acontece quando “a ideologia atropela a lógica e a ciência”.


CORAÇÃO SELVAGEM: Medicamentos naturais à venda no Peru

DE TODAS AS PLANTAS AFRODISÍACAS que Chris promove, talvez a mais eficiente seja um tubérculo da América do Sul chamado maca. Ele começou a ter notícias dela nos anos 1990 e comentou com a Pure World que, se metade do que ouvira fosse verdade, a maca poderia transformar todas as outras plantas da empresa em ervinhas inocentes.

A maca parece um nabo que entrou em surto e produziu folhas de mostarda. A planta cresce nos Andes peruanos e raramente é encontrada abaixo dos 2.500 metros ou acima dos 4.600 metros de altitude. Os incas aparentemente acreditavam que ela era um presente dos deuses: diziam que aumentava a resistência, a vitalidade e a virilidade. De acordo com a lenda, os incas davam a maca aos guerreiros antes das batalhas, mas as tomavam de volta após a vitória, para proteger as mulheres dos derrotados da lascívia que a planta causa. Outra história diz que, depois que os espanhóis conquistaram os incas, passaram a dar a maca a seus rebanhos, que tinham ficado estéreis por causa da altitude – e os animais recuperaram a fertilidade logo depois. Mas foi só no fim do século 20, com o aumento do interesse pela medicina alternativa, que a maca se popularizou além dos Andes. Enviado ao Peru pela Pure World em 1998, Chris voltou convencido de que a planta era uma ótimo filão. “A maca é o alimento do sexo épico”, resume. “Entre as plantas ‘quentes’, é a mais quente de todas.”

A Pure World contratou um grupo de pesquisadores chineses para testar se roedores concordavam com Chris. Ratos que receberam doses de maca tiveram aumento na atividade sexual em comparação aos que não receberam. E até ratos castrados que receberam maca apresentaram ereção tão rapidamente quanto os eletricamente estimulados. Em resumo, uma pequena dose de maca substitui os testículos e a testosterona.

Testes preliminares em humanos também foram promissores. Em estudos da Victoria University, na Austrália, e do Massachusetts General Hospital, nos Estados Unidos, mulheres que tiveram sua libido diminuída após a menopausa ou durante o uso de antidepressivos relataram melhora após ingerirem a maca. Em uma pesquisa peruana, homens saudáveis tiveram aumento do desejo sexual com o uso da planta. Na Itália, homens com disfunção erétil relataram maior turgidez no órgão sexual. E, no Reino Unido, um teste do efeito da maca sobre os níveis de estamina foi realizado com oito ciclistas que percorriam diariamente 40 quilômetros. Após o uso da maca por duas semanas, o desempenho médio desses atletas melhorou em um minuto.

A Pure World contratou agricultores peruanos para plantar, colher e secar a maca, para depois a empresa fazer o refinamento para os pós chamados Maca Pure e Maca Tonic. Esses produtos são, então, repassados para fabricantes de suplementos naturais, colocados em pílulas, embalados e vendidos no varejo.

Enquanto isso, Chris divulgava para a mídia que a maca seria o “Viagra natural do Peru” ou uma causadora de “fogos de artifício de ano novo chinês nas calças”. Mas não é bem isso que me contaram os nativos dos Andes com que falei. Eles elogiaram a maca, mas não com tanto fervor. Por outro lado, o botânico norte-americano James Duke me diz: “Quando ouvi falar da maca, achei que era papo furado. Mas experimentei e senti certo estímulo. Eu, nos meus 80 e tantos anos. É real”.

A maca se espalhou por prateleiras de lojas de suplementos e supermercados dos EUA. Websites dedicados a ela brotaram na internet. Equipes de TV norte-americanas voaram até Lima e comerciantes da Europa e do Japão entraram no jogo. As vendas mundiais do produto atingiram algo em torno de US$ 25 bilhões. Atualmente a Naturex é uma das maiores processadoras mundiais de maca, que está entre um de seus dez produtos mais vendidos. Ainda assim continua sendo superada em muito por extratos não afrodisíacos, como o xicoco (vendido por suas propriedades antibacterianas), o ginseng (para acuidade mental) e mirtilo (para a visão). Na verdade, estimulantes sexuais como um todo representam apenas 15% das vendas da Naturex nos Estados Unidos. O que nos leva à conclusão que, contrariando o velho ditado, sexo não vende. Porém Chris diz o contrário.

“A demanda por estimulantes sexuais é enorme”, conta ele. “Mas a oferta de produtos também é. O cara entra no corredor de suplementos e não sabe o que funciona e o que não funciona. Até mesmo com um produto como a maca, que as pessoas sabem que funciona, muitas empresas não podem garantir que cada dose processada terá a mesma quantidade padronizada do composto ativo. Então, talvez, o freguês compre um produto que não é tão bom e que não faça efeito algum, e daí ele conta para todo mundo que essa tal de maca é dinheiro jogado fora.”

Para minimizar esse problema, Chris juntou-se à empresa Purity Products para comprar a maca da Naturex, processá-la em cápsulas e vendê-las com o nome de “Vital Maca do Chris Kilham”, com seu rosto no rótulo. Um suprimento mensal tem um atrativo preço de US$ 34,95. A Purity também produz outros produtos do Chris Kilham, como o Vital Brilliance (US$ 54,95), o Vital Focus (US$ 39,95) e Vital Rest (US$ 44). O orçamento de Chris é engordado por royalties desses e de outros produtos, podendo chegar a US$ 125 mil por ano. Nada astronômico, mas ele não passará necessidade.

A NATUREX NÃO SE OPORIA se o chuchuhuasi se tornasse a próxima maca. Mas, sem nenhuma comprovação científica ainda de seu tão falado efeito sexual, a Naturex e Chris estão enfatizando suas propriedades analgésicas e anti-inflamatórias, estas sim já com algum suporte científico. Chris acredita que a casca pode, algum dia, vir a ser um alívio comum para vítimas de artrites e corredores com dores musculares. Após experimentar nele mesmo a planta, Chris sugere que o chuchuhuasi se equipara ao ibuprofeno como anti-inflamatório – e talvez à maca como estimulante sexual.

Isso já seria o bastante para justificar uma incursão profunda dentro da Amazônia. Alguns dias antes da visita ao Beco das Bruxas, Chris nos levou ao remoto estado peruano de Ucayali para encontrar uma mercadora do povo shipibo que, se tudo corresse bem, supriria o mundo com chuchuhuasi. Do porto de Pucallpa até Contamaná, onde vive Margarita Maldonado, são longos 328 quilômetros rio acima, por águas cheias de galhos.

Nossa embarcação é a Apus, um pequeno barco de dois andares pertencente a Sergio Cam, sócio de Chris (“Tudo que consigo aqui é porque Sergio faz acontecer”, conta). Sergio, seis anos mais novo que Chris, é uma pessoa de receptividade tão ampla quanto suas medidas: cintura, tórax e cabeça. É a viagem inaugural da Apus, pelo menos no conjunto: pelo desgaste do deque, pode-se imaginar que ele foi usado durante décadas. Sergio juntou todas as partes e construiu um barco para transportar a matéria-prima da floresta para a Naturex. Nas viagens em que está vazio, o barco leva uma clínica odontológica flutuante gratuita para os vilarejos onde a empresa faz negócios. A Naturex, por meio de Sergio, montou uma clínica similar na região que fornece sua maca. “Você acha que nós fazemos isso porque somo bonzinhos?”, pergunta Sergio. “Não. Fazemos porque é bom para os negócios. Se ajudarmos as pessoas, elas gostarão de nós e retribuirão com suprimentos confiáveis.”

A Apus zarpou com 14 pessoas, entre tripulantes e passageiros, incluindo Chris, Helena, Sergio e um curandeiro que se vestia como Tiger Woods e fazia massagem em nossas cabeças com dedões que pareciam tacos de golfe. A embarcação também levava três homens armados com pistolas e cintos cheios de balas na cintura. “Viajamos com eles por causa de piratas”, explica Chris. Sergio nos assegura que os piratas locais não machucam as pessoas. “Eles não afundam o barco nem te matam, apenas te deixam à deriva. Normalmente te dão uns tapas, te amarram ao barco e levam suas mercadorias. sempre acaba te encontrando.” Naquele momento, tínhamos maiores preocupações. Após navegar por uma hora, o barco encalhou em um banco de areia. A tripulação sacou longos pedaços de madeira e, após 15 minutos de trabalho pesado, conseguimos nos soltar. Navegamos tranquilamente por mais meia hora quando o motor começou a fazer um barulho, como se um cortador de grama passasse sobre uma pilha de galhos, então morreu. Aí ficamos sabendo que não tínhamos uma âncora. Ficamos à deriva até o barco encalhar em outro banco de areia. A bomba d’água havia quebrado. Demos um jeito de improvisar uma bomba com um motor secundário e torcemos para que ela aguentasse até chegarmos a Contamaná. Não sabíamos, exatamente, quanto faltava para lá, já que o barco não tinha um GPS. E não podíamos pedir socorro porque também não tínhamos um rádio, outra interessante característica do Apus.

Quando a bomba foi finalmente instalada, um som semelhante ao de um motor soou triunfante. Mas só nos libertamos depois que quatro ou cinco homens, incluindo Chris, saltaram e empurraram o casco com água até o peito por 1h30 de luta. Ao retornar a bordo, Chris parece mais refrescado do que cansado. “Regra número um na caça de remédios: você terá problemas de transporte, só não sabe como ou quando”, diz, se secando. No final das contas, as últimas cinco horas de viagem foram feitas em 30 horas.


ENORME: Uma rara árvore gigante conhecida como ceiba, no Peru

CONTAMANÁ É UMA CIDADEZINHA charmosa, com prédios envelhecidos e praças arborizadas. As instalações da comerciante Margarita Maldonado consistiam de um depósito, um galpão para secagem, uma casa e uma cerca, tudo em uma área em que caberia uma quadra de basquete. Regularmente, pessoas chegam em pequenos barcos, encostam nos bancos de areia e descarregam enormes sacos cheios de raízes ou cascas para o galpão a céu aberto, espalhando-as para secar em paletas de madeira antes de serem enviadas rio abaixo para venda.

Margarita é uma mulher baixa e educada, que só fala o necessário. Depois de tantas horas de viagem, eu esperava de Chris muito empenho nas negociações – talvez uma avaliação da safra ou algum questionamento com os coletores ao longo da linha de suprimentos. Alguns anos antes, Chris estava em negociação com um cacique shipibo para o fornecimento de plantas para a Naturex quando descobriu que ele era um vigarista sem nada para oferecer. Chris me diz que, mesmo com um agente honesto, é difícil saber se a pessoa é mesmo capaz de entregar a mercadoria na quantidade certa, com a qualidade esperada e no prazo determinado.

Mas hoje ele apenas comenta com Margarita que o interesse da Naturex pelo chuchuhuasi estava aumentando e que, provavelmente, a empresa iria encomendar mais um lote em alguns meses. Será que ela consegue suprir essa nova demanda? Ela diz que sim. E foi só isso. A conversa dura o mesmo tempo que se leva para abrir uma tampa de vidro de vitaminas. Parece-me muito pouco para quem veio de tão longe, por isso mais tarde pergunto a Chris se ele não poderia ter feito tudo por telefone.

“Eu sei que parece que não estamos negociando muita coisa aqui”, responde ele. “Mas isso não é verdade. Você não pode simplesmente fazer uma ligação telefônica numa situação como essa. Se você não vem pessoalmente, as pessoas não ficam sabendo se você é sério. Elas não confiam em você e talvez vendam seus produtos para outra pessoa.”

Faz sentido, mas não revela toda a verdade. Lembro-me de uma conversa que Chris teve há alguns anos com um jornalista que perguntou: “O que a maca precisava para as pessoas começarem a usá-la?”. “Ela precisa de você”, responde Chris. O Caçador de Remédios havia conseguido o seu “você” nessa viagem. Eu tinha imaginado que estava indo para a Amazônia vê-lo realizar uma pesquisa de campo, mas gradualmente descobri que a segunda intenção dessa viagem era me convencer de suas crenças. Uma das virtudes de Chris, entretanto, é que ele é honesto quando questionado. E, quando lhe perguntei sobre isso mais tarde, respondeu sem nenhuma hesitação que a procura de novos remédios e a publicidade andam de mãos dadas. “Pelo menos metade do meu trabalho é mostrar o produto para o mundo”, explica. “Se eu puder mostrar o que está acontecendo – o desmatamento, a terrível marginalização dos povos nativos, os benefícios dessas plantas –, então talvez você escreva sobre isso. E talvez isso possa fazer a diferença no mundo.” Ele então conclui: “Além do mais, de vez em quando você faz uma descoberta inesperada. Nunca se sabe quando isso vai acontecer, mas um dia acontece se continuarmos voltando para a floresta”.

De fato, ele tinha acabado de fazer uma dessas descobertas em Contamaná: um óleo chamado copaíba que vinha procurando havia meses. A copaíba é um calmante natural para a pele, mas normalmente sai da árvore como uma goma escura, bem pouco atraente para a indústria de cosméticos. Entretanto, do fundo das instalações, Margarita traz uma garrafa de óleo de copaíba na cor de um âmbar leitoso. Chris segura a garrafa como um garoto mostrando seu boletim repleto de notas dez. “Isso pode ser um grande negócio”, diz. “Um grande, grande negócio.”

Nos meses seguintes à viagem, recebi regularmente e-mails de Chris atualizando suas buscas medicinais. Ele tinha visitado a cadeia de montanhas do Atlas, no Marrocos, para a colheita de folhas de oliveira (“elas são antivirais, fungicidas e antibacterianas”, escreveu). Também esteve na Costa do Marfim (“grupos armados com metralhadoras nos paravam constantemente, mas a comida é ótima e as pessoas são fantásticas”), Namíbia, África do Sul, Hong Kong e Amazônia peruana novamente. Logo iria para a Sibéria em busca de uma planta anabolizante chamada raiz de maral (“os cavalos selvagens de lá comem essa raiz regularmente e ficam parecendo o Incrível Hulk. Você nunca viu nada igual. Eu tenho uma grande expectativa de que esse produto irá revolucionar o mercado”).

Um dia, pouco tempo atrás, recebi dele um pacote com um vidro de tintura de chuchuhuasi com o seguinte bilhete: “Isso está se tornando realidade”. Nas semanas seguintes, experimentei o conteúdo. Mas não posso dizer nada a respeito do efeito. Meu apetite sexual parecia normal, mas até aí ele aumenta e diminui como o de todo o mundo.

O chuchuhuasi ainda continua na mesma situação da maca há 25 anos – uma droga tradicional não industrializada. Talve daqui a 25 anos ela se torne um produto respeitado. Ou talvez se junte ao monte de lixo vendido como estimuladores sexuais, como o chifre de rinoceronte. O Caçador de Remédios lança sua isca e propõe novas plantas. A ciência, se quiser, pode fazer uso delas. Ou não.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de agosto de 2014)

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