Troca de guarda


COM OS MESTRES: Lapo Coutinho (à esq.), Carlos Burle e Danilo Couto em Jaws
(FOTO: Fred Pompermayer)

Por Alexandre Versiani

EM QUALQUER ESPORTE, quando um atleta conquista títulos ou marcas expressivas, é natural que ele passe a ser a principal referência para a nova geração de seu país. Também é de se esperar que o interesse pela modalidade cresça nos anos seguintes, assim como o nível e o número depraticantes. No surf em ondas grandes a história não é diferente: com o sucesso dos big riders brasileiros na última década, jovem talentos nacionais também começam a despontar nas maiores ondulações do planeta.

No início de julho, o primeiro grande swell de inverno no Pacífico Sul fez os principais nomes do big surf mundial se dividirem pelooutside de países como Chile,México e Peru. A nova safra de brasileiros, com média de 20 anos, marcou presença e honrou a tradição nacionalde revelar ótimos talentos nas ondas gigantes. Desta vez, eles apostaram principalmente nos litorais chileno e mexicano, ondeforam recompensados com tubosperfeitos e desafiadores de até 30 pés (dez metros).

Em Pico Alto, no Peru,também foi realizada a abertura do Big Wave World Tour (BWWT), o circuito mundial de ondas grandes, pela primeira vez vencido por umatleta com menos de 30 anos:o havaiano MakuaRothman, de apenas 21 anos. O circuito, agora com coordenação da ASP (Associação de Surfistas Profissionais), provou assim que pode ser uma vitrine para a nova geração brasileira mostrar serviço e seguir carreira no big surf. Além disso, com dezenas de ondas surfadas,jovens promessas do país já conseguiramalgumas indicações para o XXL Global Big WaveAwards, a maior festa de premiação da modalidade de big wave surf.

Em um esporte que exige experiência eníveis extremos de preparação física e psicológica, apouca bagagem é recompensada por muita disposição e treinamento. E a troca de informações com big riders consagrados como Carlos Burle e Danilo Couto, gurus dessa nova geração no país, vem dando resultados e pode colocar o Brasil nocaminho do topo do big surf mundialnos próximos anos.

“ELE ESTAVA COM MEDO que eu pegasse uma maior que a dele.”Com a pilha de quem acabou de surfar as ondas da vida, o big rider baiano Lapo Coutinho, de 21 anos, descreveu de maneira bem-humorada a recente expedição com seu “mestre” e conterrâneo Danilo Couto, 39, ao litoralnorte do Chile. Nos primeiros dias de julho, a dupla desembarcou na remotacidade de Arica, cercada pelo deserto do Atacama, onde desafiou paredões gelados de até 20 pés(seis metros) em El Buey.

“Eu estava no Brasil e vi uma tempestade grande se formando no Pacífico Sul. Fiquei observando epercebi que o swellganhava força a cada dia. Conversei com o Danilo, ele estava no Havaí, e marcamos de nos encontrarmos no Chile”, dizLapo. No país andino, ele e Danilo conseguiram entrar para a disputa do XXL com duas ondas pegas no braço. Agora, o caçula dos “maddogs” (apelido dado pelos gringos aos valentes big riders dessa região brasileira) baianos espera repetir o feito de seu mestre, que em 2011 levou o prêmio principal de onda do ano após uma bomba histórica em Jaws, no Havaí. “Surfamos três dias com mar enorme no litoral chileno. Fiquei impressionado com a força e a formação dessa onda, que às vezes parece com Backdoor, no Havaí, de tão tubular. É gelada e gigante”, contaLapo, que apesar da pouca idade já tem no currículo passagens por picos míticos da modalidade, como Fiji e Taiti.

Filho de ElsiorLapo Coutinho, lenda do surf de ondas grandes nos anos 70, “Lapinho” é considerado um dos big riders mais atirados da atualidade. O garoto tem o respeito dos maiores nomes do esporte e, segundo Danilo Couto, é o principal expoente de uma geração de surfistas baianos com “acarajé no sangue”, por causa da disposição e da coragem para encarar as situações mais extremas na água.“O Danilosempre foi um grande amigo do meu pai. Quando eu tinha apenas 9 anos, ele me empurrou na maior onda que havia surfado até então. Hoje posso contar sempre com elepara me dar uns toques”, afirma Lapinho.

O rapaz só lamenta não ter participado da etapa de abertura do BWWT, realizada em Pico Altono mesmo dia do auge do swell no Chile. Adquirido pela ASP, a maior entidade do surf profissional, o Big Wave World Tour estreou um novo formato, que agora inclui novas regras de competição, uma transmissão ao vivo impecável e a participação de atletas mais novos que nunca tiveram uma chance noprincipal circuito da categoria.

“Sinto vontade de participar desses eventos, mas acho que os critérios de entrada para o BWWT ainda não estão muito esclarecidos. Além disso, atualmente só o campeão de uma prova dessas consegue cobrir os custos da viagem com a grana da premiação. Por isso meu principal foco ainda são as expedições em busca de ondas grandes. Meu objetivo é surfar ondas tubulares de 20 pés com poucas pessoas por perto e toda a estrutura necessária de segurança”, ressalta Lapinho.


QUE BOMBA: Lucas Silveira, de apenas 18 anos, em Puerto Escondido, no México
(FOTO: Arquivo Pessoal)

O PERNAMBUCANO CARLOS BURLE, 46 anos,foi o único brasileiro presente na primeira etapa do BWWT. Em ondas com cerca de dez metros, ele acabou derrotado nas semifinais, mas viu de camarote a grande vitória do jovemMakua, com direito a uma nota 9.40 na final. Burle, que é o treinador de Maya Gabeira, Pedro Scooby e Felipe Cesarano, big riders que vêm fazendo sucesso nos últimos anos, enxerga com bons olhos a entrada da nova geração do surf de ondas grandes no circuito mundial. “Considero esse momento muito positivo para o BWWT. É claro que a ASP ainda tem inúmeros desafios pela frente, mas dar espaço a surfistas mais jovens é sempre uma atitude bem-vinda. A nova geração deve ter oportunidades de mostrar seu potencial. A renovação é algo natural e muito importante para a evolução do próprio esporte”, diz Burle, que na temporada 2009/2010 entrou para a seleta galeria de campeões do BWWT com o primeiro título do circuito.

“Por muitos anos fomos chamados de ‘merrequeiros’ [quem pega onda pequena] pelos estrangeiros,masjá faz tempo que o pessoal vem mudando esse pensamento. Hoje os big riders brasileiros são respeitados lá fora. Estamos colhendo os frutos de anos de batalha”, afirmao paulista Wiggolly Dantas, 24, que pelo menos quatro meses por ano fica hospedado na casa de MakuaRothman no Havaí, onde evoluiu bastante em ondas pesadas.

“Quando o Makua me contou que tinha sido convidado para o BWWT, fiquei muito empolgado. Na hora vi um novo horizonte para minha carreira, mas quem sabe daqui a alguns anos. Agora vou focar em entrar no WCT [o circuito mundial do surf tradicional], que sempre foi meu sonho”, diz o surfista, que no momento está na zona de classificação para a elite mundial do WCT, onde competem atletas como Kelly Slater e Gabriel Medina.

O carioca Lucas Silveira, 18, também é outro que tem o objetivo de entrar para o WCT, porém, sempre que o mar cresce,ganha destaque no outside. “Atualmenteé muito difícil viver apenas das ondas grandes. Não me considero um big rider, apenas pego ondas grandes por prazer. Mas acredito que qualquer coisa que você fizer com paixão pode render frutos no futuro”, afirma Lucas, que foi um dos maiores talentosentre os atletas presentes no último swell em Puerto Escondido, no México.

No entanto, para o catarinense Lucas Gonzaga, 17, o apoio aos jovens big riders ainda deixa a desejar. Há três anos, ele trocou a acolhedora Florianópolis, em Santa Catarina, pelas geladas bombas de Punta de Lobos, no Chile, com a missão de evoluir nas ondas gigantes. “Atualmente não tenho patrocínio e às vezes trabalho na construção civil para sobreviver. O Chile é um país muito caro, com pouca oferta de trabalho, mas pelo menos aqui estou 100% concentrado no big surf. Meu sonho é estar entre os maiores surfistas dessa vertente, como Danilo Couto, [o havaiano] Kohl Christensen, Carlos Burle e [o franco-brasileiro] Eric Rebiere. Quem sabe um dia eu não chego lá”, sonha o jovem big rider.

Talentopara encarar as maiores ondulações do planeta a nova geração brasileira tem de sobra. Mas ainda falta um pouco de infraestrutura e investimento para os surfistas do país finalmente brilharem nesse restrito e concorrido universo. Assim como descer uma onda gigante, para fazer o nome no big surf ainda é preciso paciência, valentia e disposição para assumir todos os riscos.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de agosto de 2014)

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