O céu (não) é o limite


QUE VIAGEM: A cápsula da World View presa a balão de gás; abaixo, a nave de perto

Agência norte-americana completa com sucesso o primeiro voo-teste de seu ambicioso projeto: tornar-se a primeira empresa a oferecer passeios para a estratosfera

Por Mariana Mesquita

NO DIA 18 DE JUNHO deste ano, uma cápsula não tripulada decolou da cidade norte-americana de Roswell, no estado do Novo México (EUA). Puxada por um balão gigante de gás hélio, a geringonça flutuou até os 32 quilômetros de altura (um avião comercial voa a 11 quilômetros). Então deu uma rolê pela curvatura da Terra e, depois, desceu devagar, já sem o balão e com a ajuda de uma espécie de parapente enorme. Após cinco horas, o passeio não só se tornou o voo mais alto já realizado nessas condições como marcou o sucesso do primeiro teste oficial do projeto mais ambicioso da norte-americana World View Enterprises. Essa “operadora de turismo espacial” planeja oferecer, a partir de 2016, viagens para quem quiser conhecer de perto a estratosfera – e possuir uma conta bancária astronômica para bancar esse sonho.

A cápsula funcionará como um “microônibus espacial”: em cada voo, contará com seis viajantes e dois integrantes da tripulação, incluindo o comandante norte-americano Mark Kelly, um ex-astronauta cinquentão. O sistema escolhido para tornar esse roteiro realidade não é, porém, pioneiro: em 1935, mais de 30 anos antes do Projeto Apollo (que levou o homem a pisar na Lua entre 1961 e 1972), os norte-americanos Orvil Anderson e Albert Stevens usaram balões de gás hélio para chegar a 22 quilômetros de altura. Foram os primeiros a enxergar com os próprios olhos a curvatura da Terra. Já em 2012, o austríaco e base jumper Felix Baumgartner cravou seu nome na história ao saltar da estratosfera de uma cápsula também presa a um balão desse tipo, a 39 quilômetros de altura.

Nos vôos que serão promovidos pela World View, não será preciso vestir trajes especiais ou ser um expert em assuntos espaciais. A experiência durará cerca de cinco horas, sendo 1h50min só para alcançar 30 quilômetros de altura, duas horas de passeio vagando na estratosfera e, depois, 40 minutos para retornar a Roswell. Quase como uma “minissala de estar”, a cápsula terá um bar e contará até com internet. Tudo para que o turista de luxo aproveite ao máximo a experiência.

Quem se interessar pelo pacote turístico já pode começar a se programar. No site oficial da World View (worldviewexperience.com), é possível reservar seu ingresso mediante o pagamento de US$ 75.000 – quase a mesma quantia para se chegar ao cume do Everest em expedições comerciais. “Ainda faltam alguns testes a serem feitos, porém a ideia é realizar o primeiro voo no início de 2016. Depois disso, faremos uma viagem por semana”, diz Jane Poynter, diretora-executiva e idealizadora do projeto.

A Word View não é a única a apostar suas fichas no turismo espacial. Nessa corrida, está ainda a companhia espacial Virgin Galactic. A empresa, que pertence ao magnata britânico Richard Branson (fundador do grupo Virgin), pretende inaugurar seus trabalhos ainda neste ano. Porém seus projetos não usam balões de gás hélio para chegar à estratosfera, e sim uma nave, semelhante a uma avião, batizada de SpaceShipTwo (SS2). Com ela, será possível experimentar a sensação de flutuar em um ambiente sem gravidade por seis minutos, em um rolê que deverá durar duas horas. Mais de 630 pessoas já fizeram a reserva do ingresso, que custará US$ 250 mil dólares por pessoa. Uma “pechincha” para quem sonha em conhecer, ao que parece, uma das últimas grandes fronteiras do turismo de aventura.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de agosto de 2014)

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