Tour de Force


PEDRA AMADA: Escalador durante festival de boulder em Ouro Preto (MG)
(FOTO: Bruno Graciano)

Maior celebração do boulder no Brasil, o festival Tour de Bloc de 2014 visitou três estados e reuniu centenas de escaladores para viver a verdadeira essência do esporte

Por Janine Cardoso

NO MÊS DE JULHO, os apaixonados por boulder já têm programa certo: o Tour de Bloc, um festival que percorre três estados do Brasil e atrai centenas de praticantes dessa vertente da escalada que foca em rochedos de pequena altitude, mas de grande dificuldade técnica. No encontro, alguns dos grandes boulderistas do país trocam experiências com amadores, com direito a escaladas noturnas, música e acampamento. Este ano não foi diferente: envolvendo alguns dos picos mais clássicos de boulder do Brasil, o Tour visitou São Paulo, Minas Gerais e Goiás, na época do ano mais propícia e seca para se praticar a modalidade.

Apesar de o nome ser gringo, o Tour de Bloc acontece no Brasil já faz alguns anos, geralmente em uma jornada de finais de semanas seguidos, em lugares diferentes e consagrados desse esporte. A motivação dos organizadores e participantes é sempre a mesma: superar limites, aumentar a interação entre os escaladores brasileiros, cair na estrada e curtir a vibração positiva de um evento inteiramente dedicado ao boulder. A energia resultante desses encontros dá um gás extra para que escaladores com pique para a conquista e a exploração busquem outras áreas e novos desafios na rocha.

Foi exatamente esse espírito desbravador que levou à criação, em 2003, de um dos primeiros e mais clássicos festivais de boulder do Brasil, o Ubatuboulder. O evento acontece em Ubatuba, no litoral de São Paulo, normalmente no primeiro final de semana de julho, reunindo mais de 200 atletas. Neste ano, o Ubatuboulder rolou nos dias 5 e 6 de julho, abrindo o Tour de Bloc de 2014. A região que abrigou o evento foi uma península de pedra conhecida como Pontão da Fortaleza, descoberta para a prática pelos irmãos Alexandre “Linha” Paranhos e Rodrigo “Pandinha” Paranhos.

Cercada pelo mar azul, muita mata atlântica e a Serra do Mar, a área oferece blocos perfeitos de granito, um tipo de rocha que costuma dar uma boa esfolada na pele, mas que, em compensação, deixa as mãos bem cascudas para encarar os próximos desafios. A aderência incrível que esse tipo de rocha oferece, os desafios para diversos níveis e a base de pedra ideal também são outros aspectos que tornam os boulders do Pontão um sucesso. Com esse point fantástico a sua disposição, o Ubatuboulder conta hoje com mais de 150 boulders conquistados. O croqui completo pode ser visto no site do evento (ubtboulder.com.br).


VISUAL: O mineiro Melquior Saviotti em Pedra Rachada; abaixo, cenas do festival Ouroboulder
(FOTO: Vitor Maciel)

ALGUNS ASPECTOS SÃO RELEVANTES para que um local seja considerado “clássico” pela comunidade de boulderistas, como número de blocos de rocha, a possibilidade de graus variados para todos os níveis de atleta, a qualidade da pedra, opções de estadia etc. Com isso em mente, ano a ano escaladores engajados encontram novos lugares para se divertirem. Foi o que aconteceu em meados de 2006, na cidade de Ouro Preto (MG). A partir do interesse de alguns estudantes locais em realizar um encontro de escaladores de férias da faculdade, surgiu o Ouroboulder – outro evento que integra o Tour de Bloc. Sua segunda edição ocorreu em 2007, com a mesma essência, porém com um pouco mais de estrutura e repercussão, graças também à presença do renomado escalador espanhol Daniel Andrada. O setor foi desenvolvendo-se com força e possui hoje mais de 300 linhas abertas, com graus de dificuldade técnica que variam de V0 até V14, segundo a tabela oficial do esporte. O Ouroboulder segue até hoje atraindo um público cativo, e a edição de 2014 foi, mais uma vez, organizada pelo escalador Gabriel Tropia, de 11 a 13 de julho.

A participação em todos os festivais de boulder é aberta a quem quiser, sem qualquer critério competitivo formal. Por isso, eventos como o Ouroboulder oferecem estadia em camping com banheiro e água filtrada, croquis dos setores que podem ser escalados, informações turísticas, workshops e guias com opções de hospedagem e alimentação para todos os bolsos.

Após muita pele da mão esfolada e algumas cadenas em Ubatuba e em Ouro Preto, o Tour seguiu para a cidade de Sabará (MG), em busca de mais desafios e encontros na Pedra Rachada. Neste ano, a décima edição do Festival da Pedra Rachada surpreendeu a todos ao reunir mais de 400 escaladores. Nele, houve o lançamento do Guia de Escalada da Pedra Rachada Bouldering, dos escaladores Nathalia Daneliczin e Luca Portilho, em parceria com a marca 4Climb (leia quadro nesta reportagem). Com estrutura de camping e pousadas próximos ao setor, os participantes curtiram belas sessões de boulder à noite, com música ecoando pelos setores e festas com DJs.


(FOTO: Bruno Graciano)


(FOTO: Studio Buena Onda)

Escaladas noturnas, aliás, são comuns em festivais desse tipo. Mesmo com o friozinho do inverno coroando julho como uma temporada ideal, a turma costuma gostar da textura da noite para otimizar a performance e escalar para valer – mesmo porque, mesmo no inverno, faz um baita calor em Sabará. E dá-lhe lanternas de cabeça iluminando a montanha na madrugada.

Com datas marcadas para depois do fechamento desta edição da Go Outside, o Tour de Bloc de 2014 incluiria ainda mais dois festivais interessantíssimos: o de São Tomé das Letras (25 a 27 de julho), também em Minas Gerais, e o RockCocal, na cidade goiana de Cocalzinho. Como Ouro Preto, São Tomé conta com setores de boulder muito próximos à área urbana, com acesso fácil a mais de 300 desafios para lá de psicodélicos e variados. O festival, também tradicional, recebe os participantes na entrada de um dos principais complexos de boulder localizado no Parque Municipal Antônio Rosa, dentro da cidade. Na lista de convidados deste ano está o norte-americano Paul Robinson, um dos poucos boulderistas do mundo a atingir a dificílima marca do V13 na primeira tentativa.

Após São Tomé, o evento seguiria para Cocalzinho, a 140 quilômetros de Goiânia, entre os dias 29 de julho e 3 de agosto. Cocal é mágico e soberbo: oferece mais de duas mil linhas abertas e figura entre os melhores lugares para a prática de boulder no mundo. A primeira edição aconteceu em 2010 e, desde então, mais de 250 escaladores viajam até o lugar para vivenciar a vibração que emana de lá. Um parque de diversões para quem ama rocha, escalada e natureza.


CELEBRAÇÃO: Cenas do festival em Pedra Rachada
(FOTO: Bruno Graciano)

> Caminho das pedras
Guia revelas as melhores escaladas da Pedra Rachada

Para comemorar os dez anos do festival em Sabará (MG), acaba de ser lançado o Guia de Escalada Pedra Rachada Bouldering. A obra tem mais de cem blocos catalogados, 500 linhas de escalada comentadas e um circuito de grau (apresentação da dificuldade de cada boulder com identificação por cores).

O guia traz ainda informações sobre turismo local, clima, fauna, flora, estradas para acessar o setor, além de muitas ilustrações e mapa das trilhas que levam aos blocos. O escalador encontra nele informações de onde ficar, comer e dicas de logística para adquirir suprimentos na região. O livro pode ser encontrado em lojas de produtos outdoor e academias de escalada de todo o Brasil. Guia de Escalada Pedra Rachada Bouldering, de Nathalia Daneliczin e Luca Portilho. R$ 60.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de agosto de 2014)

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