Diabruras da Tasmânia

A jornalista norte-americana STEPHANIE PEARSON viajou às profundezas da Tasmânia para conhecer de perto uma das áreas naturais mais preservadas e remotas do planeta, onde é possível surfar, caminhar, acampar e, com sorte, até cruzar com o famoso diabinho local


TESOURO DA HUMANIDADE: Ilha de Bruny, na costa sul a Tasmânia
(FOTO: Xavier Hoenner/Getty)

A CAVERNA É COMO UM ÚTERO. Encapsulada no meu saco de dormir, admiro espirais de rocha poucos centímetros acima da minha cabeça e me lembro de que estou deitada embaixo de milhares de toneladas de pedra. Estamos acampando ao longo do rio Franklin, especificamente nas corredeiras de Newlands, dentro das grutas que formam a base de uma parede calcária de 30 metros. Eu vejo uma delicada teia no teto, provavelmente o trabalho da aranha-das-cavernas da Tasmânia. Fico imaginando se uma cobra-tigre, a quarta serpente mais mortal no mundo, estará rastejando por perto. Mas essa não é minha maior preocupação.

Chove torrencialmente há 12 horas, e o caudaloso Franklin está apenas dez metros abaixo de mim. O rio tem 178 quilômetros de extensão, e suas técnicas corredeiras classe III a VI atravessam o impenetrável Parque Nacional Franklin-Gordon Wild Rivers, localizado no coração dos 14 mil quilômetros quadrados da Área de Proteção Ambiental da Tasmânia, designada Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco. A ilha da Tasmânia, pertencente à Austrália, fica a 240 quilômetros do continente. Sua água é tingida de tanino, escura como cerveja Guinness, mas é tão limpa que a tomamos sem precisar filtrar. O rio Franklin corre por uma ravina profunda (400 metros na parte maior) e o lugar é tão úmido (2.540 milímetros de precipitação anual em alguns lugares) que bastam 50 milímetros de chuva para fazer o rio subir três metros em duas horas. Esse, sim, é meu temor neste exato momento.

O Franklin subiu quatro metros desde que nosso grupo de sete pessoas – quatro australianos, um sul-africano, um austríaco e eu, que sou norte-americana – chegou ao acampamento, dois dias atrás, em uma manhã linda e florida. O dia seguinte, que passamos explorando o local, transcorreu sem percalços. Balançamos feito macaco nos galhos, brincamos na mata temperada (um jardim primitivo de samambaias gigantes e pinheiros) e passeamos por uma floresta tão virgem que não encontramos uma só pessoa em seis dias. Mas a chuva começou na noite passada e continuou firme, nos deixando sem saber o que ocorreria nos próximos dias. Brett Fernon, nosso guia australiano de 53 anos e proprietário da agência Water by Nature Tasmania, conta que esse é o nível mais alto do rio que ele já viu. “E não acho que tenha chegado ao máximo ainda”, diz, observando a nesga prateada de céu. “É meio complicado tentar sair daqui agora.”


SÓ PARA VOCÊ: Ótimas ondas te esperam na Península da Tasmânia
(FOTO: Sean Davey/Getty)


NO CAMINHO: Percurso em madeira na Overland Track
(FOTO: Maurice Smith/Redux)

Não somos o primeiro grupo a ser aprisionado pelo Franklin. Menos de 500 pessoas tentam descer esse rio por ano, e algumas não chegam até a outra ponta. Em 1822, oito condenados tentaram fugir por ele de uma prisão na ilha de Sarah, na costa oeste da Tasmânia. Apenas um homem, Alexander Pearce, saiu vivo, depois de matar e comer cinco dos seus colegas de fuga. O homem que deu nome ao rio, o governador e explorador polar Sir John Franklin, cruzou suas águas, mas nunca desceu o rio inteiro (ele morreu de fome em 1847 enquanto procurava pela Passagem Noroeste, no extremo norte do planeta, que liga o Pacífico ao Atlântico). Em 1994, o escritor Richard Flanagan escreveu Death of a River Guide [Morte de um Guia de Rio, sem publicação no Brasil], uma leitura sombria baseada em seu próprio quase-afogamento no Franklin. O livro está aqui do lado do meu saco de dormir.

Uma frase de Brett ecoa feito um mantra no meu cérebro: “Aqui, ser paranoico nunca é exagero”. Ele sabe das coisas. Conhecido como o “Padrinho do Franklin”, Brett desceu o rio mais de 200 vezes nos últimos 26 anos. De estatura esguia, com 1,85 metro e nascido em Sydney, ele é enfermeiro e parece uma ave de rapina, com cabelos grisalhos, nariz pontudo e uma ferocidade intensa quando está na água. Quando está mais relaxado, ele revela seu lado meio trapalhão e falador enquanto prepara o jantar. Brett já viu de tudo por aqui, inclusive botes fugitivos, acampamentos infestados por cobras, ossos quebrados e resgates por helicóptero. Mas ele se sente em casa no Franklin, mesmo sendo ameaçado por ele. “Fomos encurralados pela Mãe Natureza”, diz, parecendo extasiado com o fato.


O RIO FRANKLIN é uma metáfora da Tasmânia: belo, terrível, sublime, bizarro e muito, muito remoto. A Tasmânia inventou o bushranger (termo que designa um fora-da-lei que renega a vida em sociedade para viver no mato) e estabeleceu o primeiro partido verde do mundo, em 1972.

Fui obcecada por essa ilha durante anos. Cresci assistindo aos desenhos Looney Tunes, e meu interesse aumentou com o Demônio da Tasmânia, também conhecido como Taz, um maluco que rodopia como um tornado, fatiando pedras e árvores. Em 2000, pedalei e viajei de carro durante seis semanas pelo interior da Austrália enquanto lia The Fatal Shore [A Costa Fatal, sem lançamento no Brasil], de Robert Hughes, a história da colonização da Austrália, na qual a Tasmânia teve um papel crítico e obscuro. Em 1803, os britânicos capitalizaram com o isolamento da ilha, colonizando-a como um lugar para jogar criminosos repugnantes, patifes inofensivos e mulheres sem-teto. Foram necessários apenas 73 anos de colônia penal para devastar os aproximadamente quatro mil aborígines que ali viviam há mais de 40 mil anos. Mais 60 anos e aquele bando de marginais, juntamente com uns poucos colonizadores, conseguiram caçar o tigre-da-Tasmânia (também conhecido como lobo-da-Tasmânia) até sua quase extinção. Porém houve condenados que conseguiram se comportar, serviram seus sete anos de trabalhos forçados e aproveitaram a liberdade plena na Tasmânia.

Devido ao fato de seus ancestrais terem forjado a civilização em terras tão selvagens, muitos tasmanianos nutrem um amor e um profundo respeito por sua natureza intocada. Mais de 40% do território da Tasmânia estão protegidos em reservas, áreas de Patrimônio da Humanidade da Unesco e 19 parques nacionais. “Em um mundo onde as áreas selvagens são o recurso natural que desaparece mais rápido, a Tasmânia é como uma Arca de Noé”, diz o médico Bob Brown, maior ambientalista da região. Ele foi chefe da organização australiana de defesa do meio ambiente The Wilderness Society e passou 16 anos como senador do Partido Verde no governo federal. “Nossos dias de glória ainda estão por vir, mas não sem nos exigir eterna vigilância.”

Há muito para se proteger por ali. Dos 500 mil residentes da Tasmânia, 212 mil vivem na capital Hobart, uma cidade moderninha à beira-mar, no pé do Monte Wellington, de 1.270 metros. Hobart e seus arredores estão repletos de estradas e trilhas de terra perfeitas para se praticar corrida e mountain bike. A cidade foi erguida no delta do rio Derwent, que corre para o Mar da Tasmânia. As fachadas de arenito das casas construídas pelos prisioneiros foram reformadas e agora dão lugar a hotéis-butique, restaurantes e bares charmosos. Existem no porto pelo menos cinco cabanas flutuantes que vendem fish-and-chips (prato típico britânico, composto de batata e peixe frito). Todas estão sempre cheias de gente local, meteorologistas de folga de suas pesquisas na Antártica e turistas asiáticos jantando ostras e frutos do mar pescados no dia, acompanhados de vinho pinot noir produzido nas vizinhanças.

Uma razão para a Tasmânia receber essa enxurrada de viajantes internacionais é o the Museum of Old and New Art (Mona), um museu-bunker construído por David Walsh, um magnata local que enriqueceu com casas de jogos. O museu possui muitas obras de arte que provocam o público, como uma máquina de defecação que libera “fezes” todos os dias às duas da tarde.

Nos arredores de Hobart, há incontáveis opções de trekking, entre elas as sete Great Walks (Grandes Caminhadas), além de 5.400 quilômetros de costa. A regata anual batizada de Sydney-to-Hobart, uma competição duríssima de mil quilômetros, é um dos mais cobiçados troféus da navegação. Os surfistas vêm para cá aos bandos dropar as ótimas ondas que quebram nas proximidades da cidade de Bicheno. Também adoram enfrentar com suas pranchas o swell mais extremo que costuma aparecer na bancada de corais de Shipstern Bluff, onde podem curtir ondas de 12 metros.

Como se isso tudo não bastasse, a Tasmânia ainda possui uma longa lista de espécies animais endêmicas, que só existem aqui, incluindo marsupiais como o bettongia da Tasmânia, o quoll oriental, o pademelon da Tasmânia e, alguns cientistas acreditam ainda existir, o Tigre da Tasmânia. Há também o conhecido Diabo da Tasmânia, um marsupial carnívoro do tamanho de um gambá que, infelizmente, está sendo levado à extinção por causa de um tumor facial, um tipo de câncer que provavelmente já matou 80% da espécie.

Porém há um outro lado da moeda para essa maravilha da natureza: a Tasmânia é o estado mais pobre da Austrália, e seus habitantes têm extrema cautela diante da exploração de florestas, mineração e energia hidrelétrica. No último verão, o Parlamento da Tasmânia aprovou um histórico acordo florestal, o Tasmanian Forest Agreement, que, entre outras decisões para proteger a riqueza natural da região, agrega 1.700 quilômetros quadrados à já existente área designada como Patrimônio da Humanidade da Unesco. Se o Partido Liberal, de direita, assumir o poder nas próximas eleições, sua liderança promete reverter o acordo para poder explorar madeira dessa área protegida. Enquanto isso, muitos dos Diabos da Tasmânia que ainda se mantêm saudáveis vivem em Tarkine, uma área desprotegida de 4.800 quilômetros quadrados, também envolvida nessa batalha ambiental. Os defensores da natureza batalham para manter os parques nacionais e o status de Patrimônio da Humanidade, mas têm como rivais as concessões madeireiras e uma proposta de dez novas áreas de exploração mineral de ferro e estanho, com previsão de início dentro dos próximos cinco anos.

Para mim, parecia uma ótima época para explorar a região. E não há melhor lugar para começar do que o rio Franklin, também um ponto alto da história da defesa do meio ambiente local: liderados por Bob Brown, 2.500 manifestantes formaram ali uma barricada humana em 1982 para impedir a construção de uma barragem hidrelétrica (seus esforços deram certo). Peter Grubb, fundador da agência de ecoturismo norte-americana Row Adventures, havia me falado a respeito do rio dois anos atrás, descrevendo-me uma natureza quase mística. O Franklin é conhecido pelos guias de turismo como tendo algumas das corredeiras mais técnicas do mundo. Quando ouvi isso, eu soube que precisava vê-lo com meus próprios olhos.


SÃO DUAS DA MADRUGADA e o rio continua a subir. Brett e sua ajudante e guia, uma austríaca de 38 anos chamada Klaudia Marte, brilham como aparições fantasmagóricas devido às lanternas de cabeça, enquanto arrastam os botes cinco metros acima do nosso abrigo, colocando-os sobre rochedos de pedra. Eu não tenho mais para onde subir, então cubro a cabeça com o saco de dormir e espero o que vier primeiro: o amanhecer ou o afogamento.

Às 6h55 da manhã ainda chove, e o nível d’água está 60 centímetros acima do que Brett jamais viu. Mas por algum milagre ele baixa o suficiente para considerarmos sair e enfrentar uma complicada sequência de corredeiras Classe IV. Às dez da manhã, a chuva para. Carregamos os botes, lançamo-nos no rio e remamos, sacolejando feito vaqueiros de rodeio. Depois do primeiro obstáculo, o Franklin está tão cheio que suas corredeiras desaparecem, dando lugar a marolas e redemoinhos. Descemos em tempo recorde os 42 quilômetros até a confluência com o rio Gordon, represado em 1972. Uma hora antes de chegarmos ao abrigo de uma cabana de operários da hidrelétrica, a chuva torrencial despenca novamente. “É em momentos assim que questiono minha sanidade”, diz Ron Wiffen, um encanador australiano de 63 anos que fora lançado para fora do bote alguns dias atrás.

Possivelmente já sofrendo de hipotermia, ou apenas eufórico pelo fato de ter trazido todos a salvo para fora do Franklin, Brett fica em pé no bote. Ele sacode o punho para o céu e grita, imitando um apóstolo: “Isto é tudo que você tem a oferecer?! Vamos! Mande mais!”


A beleza do Cabo Raoul
(FOTO: Rob Blakers)

Nosso hidroavião está parado em Hobart, então no dia seguinte, ao amanhecer, pegamos uma carona em um iate que leva seis horas para cruzar a baía de Macquarie até Strahan, onde uma van nos leva por mais seis horas de volta até a capital. Mas antes erguemos nossas taças de vinho de plástico, cheias de shiraz, em um brinde à viagem perfeita. “Quem quer uma vida certinha, que sempre saia de acordo com o planejado?”, diz Dave James, um guia outdoor de Hobart e único tasmaniano do nosso grupo. “Não tem graça nenhuma!”

Isto é parte do charme da Tasmânia – o clima pode estragar até o melhor dos planejamentos. Um dia depois de sair do rio, já em Hobart, encontro com Rob Knight, um tasmaniano de 28 anos de família tradicional que será meu guia pelos próximos oito dias. Rob, que vive com sua noiva em um veleiro de 32 pés ao sul da cidade, me ajudou a organizar uma viagem de carro por 1.600 quilômetros para explorar as praias desertas da costa leste e as famosas trilhas locais. “Gosto de voltar para casa sangrando e coberto de lama”, conta Rob. “É meio masoquista, não?”

Fazemos uma primeira parada rápida na Península de Freycinet, a 195 quilômetros de Hobart, e caminhamos para observar a baía de Wineglass, com curvas perfeitas e charmosas. Nosso objetivo nos dias que se seguem é caminhar por uma trilha de 64 quilômetros que começa no Parque Nacional Cradle Mountain–Lake St. Clair e atravessa uma área de Patrimônio da Humanidade que engloba o Monte Ossa, o pico mais alto da Tasmânia (1.617 metros) e seu lago mais profundo, o St. Clair. Trekkeiros que fazem a travessia de seis dias têm três opções: acampar, dormir em cabanas-abrigo do governo ou comprar o pacote de um operador independente e terminar o dia em uma cabana particular com chuveiro quente, vinho, pão quentinho e uma cama confortável. Em vez da travessia toda, vamos sair da trilha e subir a montanha Cradle, de 1.545 metros, a paisagem mais fotografada da ilha, cujo cume mais parece um serrote. Voltaremos ao hotel Cradle Mountain Lodge a tempo do jantar.

À medida que a trilha serpenteia para cima, entendo quão masoquista é Rob. Em menos de três décadas, ele já atravessou os mares do sul 66 vezes como guia da Antártica, correu uma meia-maratona na Antártica regado a Red Bull e tornou-se o mais jovem australiano a esquiar até o Polo Norte – feito realizado com um punho quebrado. Rob também já desceu o Franklin de caiaque, um rito de passagem para qualquer tasmaniano que deseje se tornar um cara durão. Além de trabalhar como guia, Rob acaba de criar uma nova empresa de ecoturismo, a Bruny Island Long Weekend. Ela oferece um passeio de três dias, indo de iate e voltando de avião até Bruny, uma ilha de 100 quilômetros de extensão repleta de ostras mundialmente famosas e uma praia absurdamente perfeita de 11 quilômetros.

Com o notório clima instável da Tasmânia, nosso passeio logo se torna um suplício. Estamos a 1.500 metros, mas poderiam ser facilmente cinco mil. Perto do cume – que nos custou muito esforço afundando os pés na neve – o vento chega a 80 km/h. Escorregamos e deslizamos até uma cabana na base da montanha para nos aquecer com uma xícara de chá antes de voltar os oito quilômetros finais até o começo da trilha.


Parque Nacional de Cradle Mountain Lake St. Clair
(FOTO: Christian Kober/Aurora)


QUANDO CHEGAMOS à Península da Tasmânia, dois dias depois, o sol brilha. Apenas 90 minutos ao sul de Hobart, a península abriga os cabos de Hauy, Pillar e Raoul, que ficam dezenas de metros acima do Mar da Tasmânia e que serão conectados pela trilha 60 quilômetros batizada de Three Capes, com inauguração prevista para o começo de 2015. Caminhamos pela trilha do Cabo Hauy e, então, fazemos uma visita à prisão de Port Arthur, um Patrimônio da Humanidade de virar o estômago. Parece um castelo escocês, com fachadas imponentes de arenito rodeadas por gramados exuberantes. Lá foi o lar de muitos horrores, incluindo a Separate Prison, uma cela solitária em que os condenados eram proibidos de falar e forçados a usar uma máscara. O objetivo era destruir não apenas o corpo, mas também a mente dos prisioneiros.

No mar as coisas parecem mais divertidas. Rob me manda para um barco de turismo pertencente a Rob Pennicott, para um passeio de 74 quilômetros ao longo da Península da Tasmânia. Quinze anos antes, esse empreendedor de 48 anos fundou a Pennicott Wilderness Journeys, uma agência de turismo que oferece passeios de aventura em botes infláveis rígidos de 43 lugares que conseguem atravessar os mares da Tasmânia e alcançar praias remotas. Entre picos rochosos de 300 metros e ondas de sete metros, a costa parece uma fortaleza impenetrável. Mas é impossível não rir alto enquanto o barco gira em meio a golfinhos, águias de barriga branca, albatrozes, focas e uma baleia jubarte.

Quase todas as pessoas que conheci na Tasmânia têm a mente voltada para a proteção da natureza. Quando nos encontramos em Hobart, antes do passeio de barco, Pennicot me diz: “Meu pai trabalhou para a hidrelétrica que represou uma grande quantidade de rios da Tasmânia, mas acredito que devemos ter um equilíbrio”. Ele doa 25% do lucro de sua empresa para causas ambientais todos os anos. “O desenvolvimento econômico é importante, porém a sustentabilidade é tudo.”

O fato de eu não ter contraído parasitas tomando água do rio Franklin me causa arrepios de esperança pela Tasmânia. Antes da minha odisseia com Rob Knight terminar, ele me mostra a ponta oriental da Área de Patrimônio Natural da Humanidade da Tasmânia, do lado oposto ao qual flui o Franklin. Saímos 90 minutos de carro para o sudoeste de Hobart, passando a cidade madeireira de Geeveston até o começo da trilha de Hartz Peak. Em algumas horas, estamos no cume de 1.255 metros, uma pilha cônica de uma rocha magmática conhecida como dolerito. Apesar da proximidade de Hobart e de ser uma tarde de domingo, cruzamos com apenas três pessoas caminhando por ali. Diretamente a leste, está a civilização: uma floresta totalmente cortada, com pomares e vinhedos do Vale de Huon. A oeste, as nuvens encontram o mar, como ondas. Há neve na aresta da cadeia montanhosa de Western Arthurs, uma linha de picos que desaparecem na neblina. Em algum lugar para aquele lado, quilômetros e quilômetros depois das montanhas, está o Franklin. “Não há como entrar nessa floresta a não ser com seus próprios pés”, diz Rob. “É difícil acreditar que não existe um Tigre da Tasmânia em algum lugar por aí.”

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de julho de 2014)

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