Sem mimimi

Pare de preguiça: nada de abandonar os treinos só porque a temperatura despencou – ensinamos aqui algumas lições preciosas para te ajudar a encarar a friaca de cabeça erguida

Por Mariana Mesquita


(FOTO: Boston Globe)


>> NUTRIÇÃO

Atenção à hidratação

Os problemas mais comuns de quem treina em dias frios são, claro, a hipotermia e, pasme!, a desidratação. Não sentimos tanta sede no inverno, mas jamais deixe de beber água ao se exercitar, já que atividades físicas no frio também te fazem produzir suor e perder líquidos. Além disso, o corpo elimina mais água para umedecer o ar seco inalado. Tente consumir 35 mililitros de água por quilo todos os dias. Ou seja: se uma pessoa pesa 60 quilos, precisa beber 2,1 litros. Para aqueles que não são tão “chegados” em água, uma opção é tentar bebidas com sabor, como chá natural gelado (boas pedidas são erva-cidreira, chá verde e camomila) e água de coco. “Não podemos esquecer, porém, que a recomendação ideal é consumir pelo menos metade da quantidade total de água pura”, explica Paula Crook, nutricionista da PB Consultoria em Nutrição, de São Paulo. Nos treinos, os atletas precisam hidratar-se em intervalos de 15 a 20 minutos para repor a água perdida. Em média, durante 60 minutos de exercício, o ideal é fazer três paradas para a ingestão de 150 a 200 mililitros de água pura ou com isotônico.


Alimentos que protegem

Se você tiver que escolher três alimentos para fortalecer o sistema imunológico, aposte suas fichas neste trio parada dura:

(1) batata doce, que é rica em beta-caroteno, um nutriente responsável por aumentar a produção de células que combatem a infecção viral;

(2) acerola, que auxilia na produção de células essenciais do sistema imunológico, especialmente os neutrófilos, responsáveis por atacar bactérias e vírus (principais causadores das doenças típicas do inverno);

(3) couve, pois ela atua na melhora do sistema imunológico por meio da estimulação e formação de glóbulos brancos (células importantes para defesa do organismo).


(FOTO: STR/Getty Images)

Crie seu exército

Proteja sua imunidade com este suco verde feito com ingredientes poderosos

Ingredientes

1 rodela de batata-doce sem casca

½ xícara de chá de acerola

½ maçã sem casca

100 ml de água

1 folha grande de couve

½ medidor de whey protein


Modo de preparo

Bata todos os ingredientes no liquidificador. Coe se necessário e beba logo em seguida.


Você precisa de mais calorias?

Sim. No frio precisamos consumir mais calorias para repor o calor perdido para o ambiente e para manter nossa temperatura corporal na faixa dos 37ºC. Por essa razão, devemos aumentar o consumo de gordura, pois é esse o nutriente que gera calor ao ser digerido pelo organismo. Porém isso não é desculpa para você cair de boca no pastel: o ideal é comer gorduras mais saudáveis, como mono ou poliinsaturadas, encontradas em oleaginosas e sementes como castanhas, nozes, macadâmia. Os peixes são ótimas fontes de gordura “do bem”, como a sardinha, rica em proteína e dona de muito ômega 3, uma gordura essencial não produzida por nosso corpo e que ajuda na redução de inflamações. Pedacinhos de chocolate amargo (aqueles com no mínimo 65% de cacau) também costumam fazer bem: um “quadradinho” de XX gramas tem 120 calorias e repõe até oito gramas de carboidratos. “O chocolate amargo é ‘amigo’, pois dilata os vasos sanguíneos e facilita o caminho percorrido entre o nutriente e o músculo”, explica a nutricionista Livia Hasegawa, que indica esse doce após os treinos.


O que posso comer durante e após uma prova de longa distância no inverno?

Embora no frio tenhamos uma necessidade calórica maior para manter a temperatura corporal, alguns estudos mostram que, em baixas temperaturas, a utilização de carboidratos ingeridos durante o exercício não é maior do que no calor. Portanto a recomendação para ingestão de carboidratos durante a prova não muda com a estação do ano: após 1 hora de treino, a sugestão é tomar um gel de carboidrato, que é de rápida absorção. Após o exercício, é fundamental também consumir um alimento rico em carboidrato de rápida absorção para que haja a recuperação das reservas de glicogênio muscular, como arroz, batata ou massas com molhos leves à base de tomates frescos e legumes.


>> Para esquentar a alma

Sopa de carne com legumes para depois de um treino puxado

Ingredientes

1 colher de sobremesa de azeite de oliva

300 gramas de carne bovina sem gordura em cubos

1 cebola picada

1 dente de alho picado

2 ramos de salsão

2 cenouras em cubos pequenos

400 gramas de batata doce picada

2 litros de água

4 folhas de couve manteiga picada

Sal a gosto

Modo de preparo

Aqueça o azeite em uma panela de pressão, junte os cubos de carne, temperados com sal, e deixe grelhar. Quando a carne estiver bem dourada, junte a cebola, o alho, o salsão, a cenoura e a batata doce. Acrescente a água fervente, tampe a panela de pressão e deixe por 30 minutos ou até que a carne esteja bem molinha. Destampe a panela, retire a carne e bata o restante no liquidificador. Leve o caldo ao fogo novamente, coloque sal se quiser e adicione a couve e a carne picada. Essa receita serve 4 pessoas.


(FOTO: Spencer Platt)


>> TREINAMENTO

Capriche no aquecimento

Em dias com temperaturas mais baixas, precisamos de um tempo maior para lubrificar as articulações e, principalmente, aumentar o fluxo sanguíneo na musculatura. Só para se ter uma ideia, quando o corpo está em repouso, o fluxo de sangue é baixo (entre 15% e 20 %), enquanto no ápice do nosso exercício físico, esse índice pode chegar em 90%. Nesse caso, o aquecimento é importantíssimo, já que ajuda na transição progressiva do “estado de repouso para o de ação”.

Nos dias quentes, dez minutos de aquecimento são suficientes, porém no frio acrescente, no mínimo, uns 5 minutinhos a mais. Antes de iniciar o treino, é preciso fazer movimentos que preparem os músculos que serão utilizados, e isso varia a cada modalidade. Na corrida, por exemplo, o trote de baixa intensidade é o ideal. A sugestão de duração, porém, não é uma regra, pois o tempo de aquecimento depende do nível de esforço que você irá realizar. Por exemplo, se você for fazer um treino curto e intenso (cinco quilômetros em ritmo forte, por exemplo) precisa preparar bem o corpo. Tente trotar por pelo menos 15 minutos e fazer oito tiros leves de 100 metros antes de aumentar a velocidade.


Frio x lesões

No frio a musculatura fica mais suscetível a lesões, principalmente devido à vasoconstrição causada pelas baixas temperaturas. Ela reduz o fluxo sanguíneo, interferindo nas funções de contração e relaxamento das fibras – e isso pode machucar. Segundo Diego Leite de Barros, fisiologista do Hospital do Coração de São Paulo, as lesões mais comuns no frio são aquelas em que acontece a ruptura de poucas fibras musculares, como é o caso da distensão, bem comum entre ciclistas e corredores. Os músculos mais afetados pela “síndrome das baixas temperaturas” são os posteriores da coxa e os da panturrilha, regiões que já costumam ser suscetíveis a lesões. Para ajudar a evitar esse problema, faça “trabalhos de flexibilidade”, como aulas de pilates ou alongamento. “Só assim seu músculo terá maior amplitude de movimento, podendo evitar as lesões”, diz Diego.


Troque de roupa logo após o treino

Assim que acaba o treino, nada de ficar dando bobeira com a camisa úmida de suor. Em dias frios, isso pode alterar sua temperatura corporal. Em casos extremos, pode causar até hipotermia. Por isso, se possível, tira a peça suada e vista um agasalho para manter o corpo quentinho por mais tempo.


Quais são os sintomas de uma hipotermia e como agir nesse caso?

Estamos com hipotermia quando a temperatura corporal fica abaixo de 35ºC. Nesses momentos, sentimos arrepios, a frequência respiratória aumenta e as extremidades do corpo ficam azuladas e mais rígidas. Em casos mais severos, a pessoa pode ter confusão mental e amnésia. Se isso acontecer, o ideal é procurar com urgência um local seco e protegido de vento, além de vestir roupas secas que ajudem a manter a temperatura do corpo elevada. Para evitar uma hipotermia, é preciso estar devidamente agasalhado durante a prática de atividades física no inverno. Parece uma dica óbvia, mas muita gente sai para correr ou pedalar com menos roupa do que o necessário. Fleeces, impermeáveis, luvas e toucas são grandes aliados contra a hipotermia. Se em uma corrida ou pedal longos você precisar parar para descansar, procure um lugar abrigado e evite os topos de montanha. O frio mais intenso desses locais, somado às roupas suadas e ao cansaço físico facilitam o quadro hipotérmico. Se conseguir, descanse em movimento, somente diminuindo o ritmo.


>> VIAGEM

Cinco roteiros friozinhos e belíssimos pelo Brasil


(FOTO: Divulgação/Pisa Trekking)

Serra Fina (MG, SP e RJ)

Cheia de paisagens memoráveis, a região é a dona da “travessia mais difícil do Brasil”. A caminhada de 35 quilômetros, repleta de trilhas perfeitas para mountain bikers e corredores, é realizada em altitudes próximas aos 2.000 metros, por cristas estreitas de montanhas (daí que vem o nome “serra fina”). Se a ideia for acampar, o Alto do Capim Amarelo, um dos famosos picos do lugar, é ótimo para pernoitar.

Dica: O charmoso Refúgio Serra Fina está situado ao pé das montanhas da Mantiqueira e, além de hospedagem (com preços a partir de R$ 80), funciona como porta de entrada para a serra. refugioserrafina.com.br


Aparados da Serra (RS e SC)

O Parque Nacional de Aparados da Serra é conhecido por suas paisagens fascinantes e misteriosas. Quando os extensos e frios Campos de Cima da Serra terminam, formam-se penhascos e abismos de até 1.200 metros de altura. É por lá também que fica o Fortaleza, considerado o maior cânion da América Latina, com 30 quilômetros de extensão. Na parte baixa, rios de água cristalina, piscinas naturais e várias cachoeiras completam o cenário.

Dica: O site Guia Aparados da Serra traz valiosas informações sobre a região, além de oferecer sugestões detalhadas de hospedagem, alimentação e guias para os turistas. guiaaparadosdaserra.com.br


Parque Nacional de Itatiaia (RJ e MG)

É só olhar para o famoso Pico das Agulhas Negras, a sexta montanha mais alta do Brasil, com 2.787 metros de altura, para entender o porquê do nome Itatiaia (em tupi, “rocha cheia de pontas”). A região, além de possuir trilhas com diferentes níveis de dificuldade para quem curte pedalar ou correr, abriga montanhas e paredões perfeitos para escalada. Por essas e outras é conhecida por alguns sites especializados como o “berço do montanhismo brasileiro”.

Dica: A agência Pisa Trekking oferece pacotes de viagem para lá a partir de R$ XX. pisa.tur.br


Serra do Rio do Rastro (SC)

Recheado de trilhas, matas e cachoeiras, essa serra é um dos cartões-postais de Santa Catarina. Cortada pela rodovia SC-438, uma via de subidas íngremes e curvas fechadíssimas, trata-se de um roteiro certeiro e desafiador para arriscar um treino de bike e corrida. No meio do caminho, mirantes como o Monte Negro (o ponto mais elevado da região, com 1389 metros de altura), fazem o passeio valer ainda mais a pena.

Dica: A Graxaim Ecoturismo e Aventuras é uma agência de turismo localizada nas serras catarinenses que oferece passeios e atividades personalizados com guias credenciados. graxaim.com


>> Cuidado com a pele

Normalmente, nos dias mais gelados, há vento e baixa umidade, condições que podem ressecar e causar irritações nas extremidades do corpo. Passe uma camada fina de Bepantol (R$ 17.90; bepantol.com.br) nos lábios para evitar as “rachaduras” típicas da estação. Essa pomada tem princípios ativos que criam uma barreira de hidratação na parte exposta. Outras boas opções são o protetor labial Honey Lip Balm (R$ 16; burtsbees.com), da marca de cosméticos naturais Burt’s Bee, que ajuda a nutrir os lábios secos com um toque de mel e vitamina E. Durante uma prova, se sua boca começar a incomodar, evite passar saliva, porque ela tem enzimas que ressacam os lábios. Não se engane: no inverno também é preciso passar no rosto protetores solares – os raios UVA e UVB estão lá mesmo no frio.

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de julho de 2014)

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